A Série PIONEIROS traz essa semana uma entrevista com o senhor Lázaro José da Silva, o popular Lazinho, pioneiro que viveu a infância em Goiás, onde seu pai tinha uma fazenda e criava gado, plantava cana-de-açúcar, fumo e outras culturas. Seu pai teria decidido vender a fazenda e se aventurar para essas bandas por conta de um desentendimento com um cunhado, para quem tinha emprestado dinheiro e não conseguia receber de volta. Assim, para evitar “encrenca”, veio para Rondonópolis, local que era muito procurado por famílias do país inteiro, devido ao seu potencial econômico.


 

Hoje com 77 anos, o pioneiro Lázaro José da Silva chegou em Rondonópolis no ano de 1955 e nunca mais quis saber de morar em outra cidade – (Foto: Denilson Paredes)

 

Natural da cidade Rio Verde (GO), 77 anos, Lázaro José da Silva é atualmente casado com sua segunda esposa, é pai de seis filhos, avô de sete netos e bisavô de quatro bisnetos. Como a maioria das pessoas de famílias mais humildes da sua época, conta que estudou somente até o quarto ano, parando assim que aprendeu a ler e escrever para ajudar seu pai no trabalho. Ele conta que veio para a região de Rondonópolis aos 12 anos, tendo morado primeiramente por cerca de oito anos com a família em fazendas da região, antes de vir morar em definitivo na cidade.

 

 

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“A primeira fazenda que nós fomos trabalhar foi no Beroaba, onde ficamos por dois anos. Na fazenda Tarumã, do Zé Turquinho (como era conhecido o pioneiro José Salmen Hanze) ficamos mais seis anos. Aí, em 1963 nó viemos para a cidade e fomos morar de aluguel. Logo, empregamos todos e eu fui trabalhar numa máquina de arroz. Quando chegamos em Rondonópolis, aqui tinha umas trezentas casinhas, tinha só um pedaço da (Avenida) Marechal Rondon e lá embaixo tinha um posto Texaco. Acima da Marechal Rondon, era um Cerrado total, tinha muito piquizeiro, onde é a Vila Aurora era só Cerrado também. As casinhas que tinham ficavam aqui no Centro, da Praça dos Carreiros até o Rio Vermelho. O resto era só mato”, contou.

Assim que se mudaram para a cidade, o pioneiro conta que foram morar na casa do pioneiro José Francisco Rodrigues, o Zé Barriga (já falecido), que dá nome para uma das ruas mais movimentadas da cidade. De origem sergipana, Zé Barriga foi um dos primeiros comerciantes a se instalarem na cidade, tendo chegado por aqui no final da década de 1940 e teve uma contribuição fundamental para a consolidação do antigo vilarejo como uma cidade pujante, que se tornou a mais importante cidade do interior do estado.

Nessa foto, o pioneiro quando ainda jovem, logo após ter se mudado da zona rural com a família para morar na cidade – (Foto: Arquivo Pessoal)

Seu Lazinho, como é carinhosamente conhecido, conta que havia várias “máquinas de arroz”, como eram conhecidos os locais para onde os produtores levavam a sua produção de arroz para ser descascada, para então poder ser comercializada, onde hoje é a região central da cidade. “Trabalhei por 40 anos sem parar em máquinas de arroz. Trabalhei em umas dez delas. E assim foi minha vida por aqui. De Rondonópolis eu sei os lugares que eram mato, que era Cerrado. A beira do (Ribeirão) Arareau era a coisa mais linda do mundo, mas está tudo acabado, todo mundo joga lixo, joga esgoto. É uma tristeza”, lamenta.

Foi trabalhando em uma dessas máquinas de arroz que ele conheceu sua primeira esposa, Dona Maria Gomes da Silva, que morava em frente onde hoje fica a loja Rei das Embalagens, na Avenida Marechal Rondon. Ele se casou com ela no ano de 1967 e teve cinco filhos, ficando casado com a mesma por doze anos. Mas o relacionamento a partir daí não deu certo e ele acabou se casando novamente com sua atual esposa, com quem está casado há 40 anos e com que construiu nova família.

 

A vinda de novos migrantes

Seu Lázaro conta que, até a vinda de sua família para Rondonópolis, a cidade era pouco conhecida no país, mas logo em seguida a fama de um lugar que tinha muito “futuro” se espalhou pelo país afora, o que acabou atraindo centenas de novas famílias de migrantes, que vinham para cá atrás de uma oportunidade na vida.

“Aí começou a chegar gente de todo quanto era lugar, para trabalhar, para arrendar terra para plantar, tinha de tudo. Aqui era um lugar novo, tinha muita mata e muito lugar para plantar. Você arrendava uma terra e pagava o arrendamento, que era de 10% da produção, e o resto era seu. Nós trouxemos na época 150 mil cruzeiros lá de Goiás e poderíamos ter comprado uma terra por aqui, mas meu pai acabou não comprando e gastando todo o dinheiro aos poucos. Dava para comprar metade de Rondonópolis com esse dinheiro na época, pois a terra era muito barata, mas ele foi comendo o dinheiro e não comprou nada. Foi só depois disso que cada um de nós arrumou emprego e comprou suas casas”, contou.

Nesse ritmo, a cidade foi crescendo aos poucos, mas a partir de meados da década de 1970 esse crescimento se acelerou, principalmente após o início da chegada dos sulistas, que vieram plantar soja no Cerrado mato-grossense. Até então, o forte da economia local era o arroz e o feijão, que eram plantados em toda a região.

O pioneiro lembra que até então os produtores secavam o arroz produzido ao ar livre, onde hoje é a Praça dos Carreiros, o que gerava muita correria quando havia alguma chuva. “Aqui se produzia muito arroz e feijão. Vendia tudo para Goiás, São Paulo. Ajudei a carregar muitos caminhões para levar para fora. Com o tempo, compramos um caminhãozinho e começamos a carregar nós mesmos. Às vezes pagavam a gente em dinheiro, outras vezes era em arroz. Onde é a Pedra Preta dava muito arroz, a Galiléia, da região de Guiratinga para cá todo mundo plantava. O arroz não crescia muito, mas dava cada cacho grande! Depois, a cidade começou a crescer demais e agora já não existem mais essas lavouras”, lamentou.

 

Seu amor pela cidade

Foto: Denilson Paredes

 

Seu Lazinho diz que desde que chegou por aqui gostou da cidade, tendo inclusive retornado para sua terra natal depois de alguns anos, mas descobriu que já tinha criado raízes por aqui e rapidamente voltou. “Não aguentei ficar lá, já tinha acostumado com a vida aqui. Para mim, meu lugar já era Rondonópolis, onde a gente plantava, colhia e colhia para arrebentar mesmo. Graças a Deus, o desenvolvimento de Rondonópolis foi muito grande e hoje você enche o tanque do carro e gasta todo o combustível e não consegue andar a cidade toda. É muito grande! Eu continuo gostando daqui do mesmo jeito e se me oferecerem a oportunidade de voltar para Goiás, eu não quero mais”, declara o pioneiro.

 

Envolvimento com a política

O pioneiro Lázaro José da Silva conta ainda que desde que se mudou para a cidade, procurou de alguma forma estar vinculado à política, algo que ele considera essencial para que os cidadãos consigam melhorias para suas comunidades. Aqui, ele conheceu vários prefeitos e ex-prefeitos da cidade, alguns dos quais ajudou em suas campanhas eleitorais, como os ex-prefeitos Luthero Lopes e Hermínio Barreto (já falecidos), Percival Muniz e Adilton Sachetti e outros, além de outros com quem acabou estabelecendo relações de forte amizade, como os ex-prefeitos Daniel Martins Moura e Rosalvo Farias (já falecidos).

Com a chegada da idade, seu Lázaro foi aos poucos se afastando dos trabalhos mais pesados e a partir do ano 2000 começou a trabalhar como assessor parlamentar do ex-vereador Olímpio Alvis, com quem esteve até que esse não conseguiu a reeleição em 2016. Ao mesmo tempo, foi presidente da associação de moradores e da comunidade do bairro Jardim Paulista, tendo conseguido vários benefícios para essa comunidade. Apesar do seu envolvimento, nunca foi candidato a vereador ou a outro cargo político eletivo.

 

Carências da cidade

Cidadão consciente e profundo conhecedor do povo rondonopolitano e das carências da cidade, o pioneiro destaca que é preciso um transporte coletivo de melhor qualidade para a população que precisa do serviço, assim como melhorias na saúde, na segurança e na educação, para que a cidade de fato se torne ainda melhor para se viver. “Mas também precisa melhorar os programas habitacionais, pois as obras das casas para dar para o povo demoram muito, enquanto as pessoas sofrem para a pagar aluguel. É preciso agilizar isso”, criticou.

 

O futuro

Atualmente se recuperando de um acidente que o deixou cego de um dos olhos e de problemas na coluna, o pioneiro já planeja com ansiedade a sua volta ao trabalho. “Eu quero trabalhar mais um pouquinho, para ajudar as pessoas, idosos, e peço a Deus que, se eu tiver a felicidade de ficar bom, poder continuar ajudando as pessoas que precisam mais do que eu. O meu intuito na vida agora é ficar bom para ajudar as pessoas, só estou esperando ter uma melhorazinha para pegar o carro e sair para ajudar os outros”, concluiu.

 

2 COMENTÁRIOS

  1. Apenas um breve relato sobre essa figura excepcional… quem conhece mesmo o Sr. Lázaro, sabe que sua grandeza e o ser humano fantástico que é, não poderia ser relatado em apenas uma reportagem… talvez um longa metragem ou um seriado!!! (Risos) Parabéns Lazinho

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