Uma Igreja nascida da missão e em permanente estado de missão. A Igreja é “nascida da missão”, dizia Paulo VI. Ela nasce da missão que o Pai que encarregou a seu Filho, Jesus Cristo, movido pelo Seu amor. O Pai enviou seu filho não para condenar o mundo, mas para salvá-lo. No Estado do Mato Grosso, e em todo o País, essa afirmação se realizou de uma maneira muito concreta. A missão por estas terras é recente. A missão foi provocada pela migração de famílias que aqui vieram à procura de solo fértil e de garimpos.

Cada grupo humano trazia a tiracolo sua cultura, sua religião, sua igreja. E os seus ‘pastores’ vieram atrás. Assim as congregações religiosas masculinas e femininas vieram para acompanhar ‘seus povos’. Aqui sentiram o chamado a missionar os povos indígenas. A maioria dos missionários e missionárias vinha do sul e sudeste; e um bom número de estrangeiros. Alguns Bispos e Prelados buscaram padres diocesanos, também estrangeiros. O trabalho vocacional despertou vocações à vida religiosa e presbiteral; e hoje o maior número de padres e religiosas é de ‘brasileiros’ natos.

A Igreja é missionária. A sua missão é evangelizar. “Evangelizar, para a Igreja, é levar a Boa Nova a toda humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transformá-la a partir de dentro. No entanto não haverá humanidade nova, se não houver, em primeiro lugar, homens novos, pela novidade do batismo e da vida segundo o Evangelho.

A finalidade da evangelização é, precisamente, esta mudança interior; o mais exato seria dizer: “a Igreja evangeliza quando, unicamente firmada na potência divina da mensagem que proclama, ela procura converter ao mesmo tempo a consciência pessoal e coletiva dos homens, a atividade em que eles se aplicam, e a vida e o meio concreto que lhes são próprios.” (Evangelii Nuntiandi, 18).

A estas palavras de Paulo VI, foram acrescentadas pelo papa João Paulo II com propostas concretas que insistem na necessidade de não esmorecer na missão, em especial com os afastados, ainda não bem evangelizados. João Paulo II acenou também para alguns desafios, alertando para ambientes e lugares que não eram muito considerados (novos areópagos); e a estilo de inculturação do evangelho, tornar a vivencia dos valores evangélicos algo constitutivo da cultura de cada povo.

O papa Francisco, continuando ideias de seus antecessores insiste na necessidade do ‘encontro com Cristo’. Um encontro pessoal e comunitário, que tem como primeiro fruto a alegria e impulsa a levar essa alegria a todos. No seu escrito, A Alegria do Evangelho, ele propõe um programa concreto e completo para realizar a missão hoje. A Igreja tem que ‘sair’, como lembrava São Mateus: “Ide”. A Igreja “em saída”. A comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus não fica voltada para seus projetos, seus planos, seus problemas, a defesa de seus interesses e de suas certezas.

Uma Igreja que não seja autorreferencial. Uma Igreja “em saída” tem fazer como cinco passos: “primeirear”, envolver-se, acompanhar, frutificar e festejar. “Primeirear” é dar o primeiro passo, ir ao encontro, não esperar que venham, mas sair a levar a alegria do evangelho a todos. Envolver-se é estar presente e deixar-se tocar pelas “alegrias e esperanças, tristezas e angustias” das pessoas, das famílias e dos povos. Não é a atitude de julgar ou condenar. Nem a neutralidade de quem ‘fica de fora’. Tornar-se irmão e irmã. “Choram com os que choram e alegrar-se com os que se alegram”, dizia São Paulo. Comprometer-se vai mais longe. Não é ficar neutro. E ajudar a solucionar os problemas.

E entre nós? Penso que um desafio é convencer aos cristãos a serem missionários: viver o encontro profundo com Cristo e ‘sair’ ao encontro dos outros. Estamos acostumados a rezar, ir a missa, não pecar, pedir perdão, e cumprir nossas obrigações religiosas. Depois, não queremos entrar na vida dos outros. E deixamos sozinhos, gente que sofre por mil causa: solidão, doenças dolorosas, abandonos, frustrações, revoltas, culpas e remorsos. Mas, de fato, estão aumentando entre nós o que perdem o emprego e a esperança, a alegria familiar e os gestos de amizade e de ternura, as palavras de estímulo e de encorajamento, o companheirismo e a camaradagem. Quantos estão assim! Não deixar a ninguém sozinho.

A família e todos nós necessitamos do “encontro com Jesus”, nosso Salvador, amigo, o Irmão de todos e todas. E o desafio é fazer essa experiência pessoal e comunitariamente. Muitos encontros, retiros, palestras, leituras, catequeses, vidas de santos ajudam a fazer essa experiência. Mas, nada substitui a “partilha”, o diálogo com os irmãos e irmãs sobre o amor de Deus e sobre a Palavra de Deus, sobre a nossa fé, a graça gratuita de Deus, a presença do seu Reino, a nossa resposta pessoal e comunitária a esse amor.

Colocar a Bíblia na mão das pessoas e no centro da família para conversar, sobretudo, no coração e nos braços da nossa ação. A Bíblia como palavra salvadora de Deus, como graça não merecida e como caminho iluminador. A experiência alegre de Deus que quer comunicar-nos o seu amor. Não tanto cobranças e ameaças.

Um desafio imenso da nossa missão é aprender o perdão. Perdão ao estilo de Jesus: sem cobrança, perdão total, sem que fique nada a dever… E, mais, que ofereça a possibilidade de uma reabilitação total, que leve a recuperar a dignidade até mais fortalecida. Rezar pelos inimigos e incentivá-los virar do avesso: o ganancioso doa mais do que roubou, como Zaqueu, quem oprimia ajuda o injustiçado a ter novas iniciativas, quem julgou acompanha o deprimido a não estar sozinho… Podemos ajudar tanto. Digamos “levanta-te e anda”.

A igreja dos discípulos de Jesus precisa olhar para o outro, com muita atenção e com muito carinho. É preciso acabar com a ‘globalização da indiferença’. O outro e a outra são imagens de Deus e irmãos de Jesus. Não podemos ficar no nosso mundo, sabendo que há muitos irmãos e irmãs sofrendo. E, é claro, um dos maiores sofrimentos é daqueles que se sentem abandonados de Deus, castigados pelos seus pecados e julgados pelos próprios irmãos.

Nosso Estado cumula enormes problemas sociais. O problema não é qual ideologia ou qual partido seria melhor. Sem fazer muitas análises percebemos que boa parcela das pessoas está sofrendo; e que muitos desses sofrimentos poderiam ser resolvidos. Precisamos dar atenção e colaborar na solução dos problemas. Ficar neutro é omissão. O amor salvador de Deus nos lança ao encontro com os que sofrem.

(*) Pe. José Cobo Fernandez, vigário da Paróquia São Francisco de Assis, em Jaciara, professor de teologia na FACC-MT, em Várzea Grande

 

 

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