Todos os anos, no dia oito de dezembro, a Igreja celebra uma festa muito peculiar que é a da Imaculada Conceição. O coração desta festa litúrgica vem da verdade de fé de que Maria, diferente de todos os outros seres humanos, ao ser concebida no ventre de sua mãe não herdou a mancha do pecado original. Este dogma foi proclamado pelo Papa Pio IX em 1854, através da bula Inefabilis Deus (Deus Inefável).

O trecho do evangelho utilizado na Missa deste dia pode nos dar pistas da importância e grandeza deste mistério. Em Lucas 1,36-48 nos deparamos com a anunciação do anjo a Maria de que ela seria mãe do Salvador. Muitos biblistas, atualmente, consideram os textos do nascimento de Jesus um gênero próprio na literatura bíblica, no qual o principal objetivo é transmitir verdades acerca da pessoa de Jesus e de sua missão salvífica.

Há muitos pontos nestes textos de Lucas que remetem a episódios e personagens do Antigo Testamento. O fato de Jesus ter nascido em Belém o liga ao rei David, como cumprimento de uma profecia na qual Jesus é o seu herdeiro. A descida de Jesus até o Egito, e sua subida de volta à Israel, traz a simbologia do povo que desceu ao Egito no tempo de José (Gênesis 45) e depois subiu com Moisés (Êxodo 13) para ser libertado. Mas o que o texto da anunciação nos revela acerca do papel de Maria no plano da salvação?

Ora, para responder esta pergunta vamos até Paulo, que muito antes dos biblistas, já interpretava Jesus em relação ao Antigo Testamento. Para ele, o Cristo é o novo Adão (Romanos 5). Se no primeiro Adão a humanidade desconfiou do projeto de amor divino e se afastou dele tornando-se inimiga de Deus, em Jesus Cristo a criação foi refeita na amizade e na filiação, fazendo de todo homem e toda mulher filhos e filhas muito amados por este mesmo Deus.

Desde muito cedo, a Igreja também (guiada pelo Espírito Santo) enxergou na anunciação do anjo uma contraposição à cena da queda da humanidade no jardim do Éden: se no jardim uma mulher virgem escutando a voz de um anjo inimigo de Deus rejeitou o seu plano, agora, no Evangelho de Lucas, uma outra virgem escutando a voz de anjo amigo de Deus acolhe o seu plano. Assim, se Jesus é o novo Adão, Maria é a nova Eva.

A saudação do anjo à Virgem também é um ponto no qual a Igreja se baseou para acolher a verdade da Imaculada Conceição. O termo “cheia de graça”, do grego keharitomene (κεχαριτωμένη), não é utilizado para nenhum outro personagem do Antigo nem do Novo Testamento que foi considerada plena, completa da graça divina. Muitos já argumentaram que toda esta verdade parece somente enaltecer Maria como se ela fosse apenas um fim em si mesma. De fato, toda esta afirmação nos faz vislumbrar tão grande carinho e amor que Deus teve para com Maria, colocando-a numa posição no qual nenhum outro ser humano jamais esteve. Mas o objetivo de tal dogma não é só este.

A principal verdade transmitida por este dogma é que Jesus nasce de um seio incorrupto e recebe a natureza humana já incorrupta em sua concepção. Só estas informações são suficientes para alegrar nossos corações por saber que Deus nos preparou uma mãe, que com humildade, alegria, disposição e com seu “faça-se”, abriu espaço para que o Cristo viesse nos salvar.

Esta solenidade precisa nos recordar que Deus nos busca, nos procura apaixonadamente e mesmo que algo pareça tão perdido, como a humanidade, em seus erros, pecados, crimes, Deus pode e quer nos salvar e fazer com que voltemos à amizade com Ele. Pois, mesmo que isto desafie a lógica, e as expectativas ou a falta de esperança, o amor de Deus sempre vencerá.

(*) Pe. Jhony Souza, Reitor do Seminário Jesus Bom Pastor

 

 

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