E agora têm a ousadia de dizer que nós somos os culpados porque gastamos demais. Garanto que a maioria das famílias não comprou e não acumulou produtos desnecessários. A mesma hipocrisia existe no argumento de que o Estado gastou muito. Veja leitor, que o Estado latino-americano gastou muito menos com a população em geral. Antes da crise, o gasto público representava somente 39% do PIB. Na época, o Estado deveria ter despendido, no mínimo, 66 bilhões de dólares a mais no gasto público social para ter gastado o correspondente ao seu nível de riqueza. Não é certo que as famílias ou o Estado tenham gastado mais do que deveriam.

Apesar disso, continuarão afirmando que a culpa é da maioria da população, que gastou muito.

Você provavelmente escutou que esses sacrifícios (os cortes) precisam ser feitos “para salvar o futuro das gerações vindouras”. Contudo, ao contrário daquilo que se anuncia constantemente, esse fato nunca esteve em perigo. Por que então fazem esses cortes? A resposta é o que se costumava chamar de “luta de classes”, mas agora não utiliza essa expressão por considerá-la “esquerdista”, “ideológica”, ou qualquer outro rótulo pejorativo que expressam sua rejeição e desejo de marginalização daqueles que veem a realidade de acordo com um critério diferente e oposto, aos daqueles que desenvolvem a desconstrução da máquina pública governamental.

Mas, por mais que procure ocultar, essa luta existe. É a luta de uma minoria contra a maioria da população. É aquilo que Noam Chomsky chama de guerra de classes. Essa luta de classes variou de acordo com o período em que se vive. O que está acontecendo agora é diferente daquela da época de nossos pais e avós. Agora está inclusive mais ampla, pois não é somente das minorias que controlam e administram o capital contra a classe trabalhadora, mas inclui também 31 grandes setores das classes médias, formando as chamadas classes populares, conjuntamente com a classe trabalhadora. Essa minoria é fortemente poderosa, e exerce um domínio sobre a classe política.

E esse grupo minoritário deseja que os salários fiquem congelados, que a classe trabalhadora fique aterrorizada, daí a função do desemprego e perda dos direitos trabalhistas e sociais, conquistados a duras penas. E está reduzindo os serviços públicos como parte dessa estratégia de desmonte para enfraquecer tais direitos. A privatização dos serviços públicos, consequência dos cortes. Isso se comprova com o aumento significativo de companhias privadas de seguro de saúde expandindo como nunca haviam conseguido antes. E muitas das empresas financeiras de alto risco estão atualmente controlando instituições de saúde por toda América Latina, graças às políticas de privatizações e aos cortes feitos pelos governos no continente, que justificam essa medida com a farsa de que necessitam fazer isso para reduzir o déficit público e a própria dívida pública.

(*) Ney Iared Reynaldo, doutor em História da América Latina, docente Associado desde 1991, nos curso de Ciências Econômicas/FACAP/UFMT e História/ICHS/UFMT [email protected]

 

1 COMENTÁRIO

  1. Francamente! Tentar retrucar um fato que todos já sabem e comprovam na pele é tão insano que beira o absurdo!
    Sim! As famílias gastam mais do que podem! Se não fosse verdade não teríamos um número recorde de nomes no SPC! O próprio “coroné” Ciro Gomes usou isso como palanque!
    O Estado não gastou muito? Tá de brincadeira? Não só gastou muito como gastou MAL e gastou com quem não deveria, mandando dinheiro pra ditaduras na África, pra Cuba e outros países caloteiros inclusive na América Latina!
    Outra coisa, citar Chomsky pra justificar um ponto de vista de esquerda é o mesmo que citar Hitler pra justificar o Holocausto!
    Chomsky é notoriamente conhecido por sua militância de esquerda, portanto sua obra é absolutamente tendenciosa!
    Se eu usar Edmund Burke pra argumentar a favor do conservadorismo, também serei feliz em angariar adeptos ao espectro político em que acredito: o CONSERVADORISMO! Entretanto, não serei menos tendencioso em minhas fontes do que o nobre doutor!
    Ao invés de Burke, portanto, prefiro citar Whittaker Chambers! Ele foi militante da esquerda comunista/socialista e pôde conhecer de dentro esse viés fadado ao fracasso! Tanto, que mudou de lado e se tornou um ferrenho defensor do conservadorismo!
    Eu, particularmente, prefiro acreditar que devemos ir em frente! Não pela direita e não pela esquerda… …mas, se uma curva tiver que ser feita, prefiro sem dúvida a que me leva ao caminho da família, dos valores cristãos, da meritocracia, da iniciativa individual e da mínima interferência do Estado!
    Por isso citei Chambers! Ele participou da esquerda, viu às consequências da implantação dessa política e então foi para a direita e lá permaneceu! Claro, uma direita moderada e não alheia à necessidade óbvia de implantar políticas públicas para alavancar a classe menos favorecida! Mas veja: ALAVANCAR e não criar uma massa de manobra presa pelo estômago!

    Bom, é isso!
    De qualquer forma é bom poder debater civilizadamente, sem ter que sair às ruas quebrando tudo, atacando pessoas que pensam diferente e impondo a própria forma de pensar! Viva à democracia!

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