No contexto sociopolítico em que vivemos, o poder instituído tenta fazer de tudo para produzir o silenciamento da palavra de quem ousa pensar diferente da lógica do jogo político que está dado. Diante de voz odiosa que não tem compromisso com a democracia, principalmente, que não tem respeito pelo pensamento divergente e diferente, tenho dúvida, se o mais prudente e ponderado é ficar calado ou pronuncia uma palavra.

Embora compreendendo que teoria tem um papel importante para elucidação da realidade, tornando-a interligada para a mente humana. A narrativa, devido ao “alimentar-se do simbólico, insere o ouvinte em tempo e espaço que não lhe pertence”. Neste sentido, vale lembrar que estamos vivendo num estágio de crise de “grandes narrativas que nos remetiam aos problemas básicos da existência humana”. Nesse espaço temporal de crise de paradigma, abriu-se em nosso contexto, espaço para a narrativa política empobrecida de cunho pitoresca e neoconservadora. Neste cenário fragmentado, o ato de pronunciar a palavra como direito, justiça e vida que produz outra narrativa, sobretudo, que não coaduna com a adaptação do modelo ideológico vigente, constitui-se em um grande desafio, principalmente, no mundo da política e educação.

Como o hábito de silenciamento não faz parte de minha formação cultural, tampouco da práxis educativa, imagino que tenho o direito de dizer uma palavra. Fui educado no tempo de luta para a conquista da liberdade, por isso, a minha base teórica está fundamentada na pedagogia da pergunta. Hoje, cabe-me indagar o que, de fato, pode-se perguntar diante do estágio de obscurantismo político, o porque a palavra pronunciada no âmago do poder instituído é sempre motivo gerador de escárnio e desorientação social? Por que a palavra nesse tempo e cenário político, tudo vira desagregação, deboche e descaracterização do outro? Por que não do investimento na radicalização da sociedade do amor, da democracia, em vez a gritocracia e destilamento de ódio e desagregação social?

Por outro lado, penso que permanecer em silêncio, em quase nada, vai contribuir para a desconstrução da balburdia e narrativa idealizada pelo poder vigente, em estado de transtorno. Compreendo que o sinal dos tempos, indica a necessidade de mobilização, como caminho indispensável de mediação, para se envolver no processo de construção de outra narrativa, que impulsiona as pessoas, particularmente, a juventude a fazer novas perguntas ao mundo da vida. Perguntas que transformam em aprendizagem da vida em outra manifestação consciente, em quanto luta e movimento de conquista da liberdade, na construção da morada de si, bem como, de outro mundo possível, justo povoados de humanos.

Em se tratando do mundo da razão política, faz-se necessário pensar na produção de uma narrativa, que possa oferecer a nova geração, a possibilidade de tornar-se esclarecida, a fim de que tenha condição de fazer a melhor escolha que a conduz ao mundo da liberdade e justiça social. Nesta perspectiva, destaco que a narrativa política para a nossa realidade social capaz de produzir ruptura ao pensamento obscurantista fundamentado no neoconservadorismo, principalmente, religioso, carece de ser geradora de reflexão, que traz a luz a raiz dos problemas que desmobilizam o desejo e a práxis de uma vida feliz em nosso tempo.

Penso que frente à perversidade política que dar vasão a cultura do autoritarismo, que vem se estruturando em nossa sociedade, não é possível calar. É fundamental dizer a palavra desejada. Palavra que liberta. Palavra que contribui com o processo de emancipação humana. Particularmente, entendo que a questão é muito simples. Imagina o mundo real, a vida cotidiana se você não ocupar os espaços, se os sábios, os justos, os democratas não falarem, os transloucados e injustos, bem como, os autoritários gritarão no lugar da massa, que transita no deserto e periferia da existência social.

É importante compreendermos que no mundo contemporâneo, a configuração do estado de permanência e mudança são indissociáveis da realidade social e histórica. Por isso, que o contexto sociopolítico, nos desafia a entendermos, que existem diferentes formas de percepção, narrativas e interpretações dos fenômenos sociais. “A narrativa permite leituras diversificadas por parte de pessoas diferentes”. Porém, no campo da política, a palavra desejada e anunciada, não pode ser compreendida, tampouco se interpretada ao sabor da linguagem psitacista, como a que presenciamos na esfera da narrativa ideológica polissêmica de natureza mitológica.

Na relação da vida cotidiana, o silêncio pode ser interpretado como virtude. Mas, somente passa a ganha vida, quando se transforma num ato pedagógico de reflexão protagonista do barulho, que desestabiliza a passividade da geração. Contudo, a pedagogia do silêncio, somente transforma em barulho gerador de vida, quando inocula no seu âmago, um movimento de articulação comprometida, com a instauração de outro projeto de sociedade. Assim podemos entender que o ser humano, como ser criativo, pode aguçar a resistência e imaginação criadora, capaz de inventar linguagens para exprimir-se a palavra desejada.

Hoje, dizem muito sobre tudo, contudo, a contra-argumentação, a palavra que precisa ganhar visibilidade, sem dúvida, passa pela pedagogia da pergunta. Para a reflexão, fica a pergunta, quando o silêncio se transformará em barulho mobilizador da política como atividade coletiva? Como você conceitua a política, a ética, a democracia, a educação o ser humano?

(*) Dr. Ademar de Lima Carvalho, professor titular da UFMT/CUR

 

 

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here