19/11/2019 – Nº 561 – Ano 13

 

Escrever e ler, da forma como conhecemos, são duas habilidades desenvolvidas unicamente pela espécie humana, tornando-a peculiar, também por isso, frente aos demais animais. Contudo, com os avanços tecnológicos e as inúmeras novas possibilidades de comunicação e de acesso a conhecimento, tanto a escrita como a leitura mudaram muito. E ambas estão a perigo.

Muitos países já não defendem o uso da escrita cursiva, manual, como forma de alfabetização. Consideram-na ultrapassada. Noutros, apoiados em pesquisas robustas, defendem-na veementemente como forma de desenvolvimento cognitivo antes de qualquer outro meio que use a digitação, ou mesmo a transformação da fala em texto, com recurso tecnológico.

A leitura por sua vez, está a caminho do descaso. Mesmo lendo muito mais do que antes da popularização da internet (somos bombardeados diariamente com manchetes, mensagens e posts), o fazemos cada vez em menor profundidade e complexidade. Logo o cidadão comum apresenta cada vez mais dificuldade de formar opiniões sistêmicas e profundas. Muitos se atrapalham na compreensão básica dos conteúdos.

Nesse quesito em particular, creio que temos um dos maiores regressos intelectuais da história recente. Embora os níveis de alfabetização tenham aumentado em todo o planeta, também tem aumentado significativamente a leitura rasa ou mesmo o grupo dos analfabetos funcionais. Aqueles que embora decifrem o código das letras que formam palavras, apresentam dificuldade ou mesmo incapacidade de compreensão do conteúdo como um todo.

Tudo isso é relativamente conhecido pela maioria dos cidadãos que possuem alfabetização plena. Adicionalmente, sabemos também que o hábito da leitura melhora o desenvolvimento pessoal, amplia suas capacidades interpretativas em diferentes áreas, não apenas as linguísticas, além de obviamente contribuir para o prazer e o desenvolvimento pessoal.

O que é novidade, no entanto, e ainda mais positivo, é que a leitura também faz bem para a saúde, podendo aumentar em até dois anos a expectativa de vida daqueles que leem regularmente. É isso pelo menos que aponta um estudo da Yale School of Public Health (da Yale University), citado por uma prestigiosa revista de management de circulação nacional.

A análise parece contundente. Segundo a revista, se estendeu ao longo de 12 anos e analisou 3.635 homens e mulheres com 50 anos ou mais, concluindo que a leitura faz parte da receita para uma vida mais saudável e, portanto, mais longa.

Interessante que a pesquisa aponta para um ganho de dois anos em média na expectativa de vida daquelas pessoas que leem pelo menos 30 minutos por dia. Mas, o detalhe realmente inquietante e instigador da pesquisa parece ser a tipologia da leitura.

Segundo as conclusões apontadas, os benefícios são maiores para quem apresenta o hábito de ler livros (ficção e não-ficção) e não apenas jornais e revistas. Para os primeiros, o risco de morrer é 23% menor do que os demais. Para os leitores do segundo grupo, embora represente igualmente um hábito saudável, denota menor impacto sobre a expectativa de vida.

Somada a essa questão mais pragmática do número de anos a mais na conta, o que intrigou os pesquisadores é o que faria a leitura de livros tão especial em detrimento dos demais. Segundo o texto, uma das teorias se baseia na constatação de que os livros estimulam a chamada “leitura profunda”. Algo que ocorre em menor intensidade no caso das revistas e dos jornais, e obviamente dos conteúdos das redes sociais e notas de internet.

De acordo com o texto, os livros requerem dos leitores conexões que criam novas ligações neurais entre regiões nos dois hemisférios cerebrais. Por consequência, além de manter a mente saudável, contribui para outras funções do organismo, como o fluxo sanguíneo, por exemplo.

Assim, há indícios significativos de que o homem moderno precisa se redescobrir na relação com a aplicação das tecnologias. Também deve ir além do frugal ‘mais simples e mais fácil’ que a tecnologia pode oferecer, para conseguir se manter no topo da capacidade intelectual.

Por isso, necessita se esforçar para escrever e ler, ao invés de ditar ou apenas assistir ou ouvir conteúdo. Decisões dessa natureza parecem ser uma dessas necessidades humanas que demandam a ancoragem na inteligência, e não apenas na comodidade, como infelizmente tem sido propalado, principalmente para nossas crianças e jovens.

Até a próxima.

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É professor, workshopper e palestrante – [email protected] – Originalmente publicado no Jornal A Tribuna – www.atribunamt.com.br

 

 

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here