A mãe e a avó de Samuel na casa onde o garoto morava antes do seu desaparecimento – (Foto: Denilson Paredes)

 

(Foto: Arquivo)

Passados 22 dias do desaparecimento do pequeno Samuel Victor da Silva Gomes Carvalho, de 6 anos, a sua avó, a faxineira Lucineide Pinto da Silva Blass, 48 anos, e sua mãe Anelice da Silva Gomes, 23 anos, ainda têm esperanças de encontrar o menino vivo. Casada, mãe de três filhos, sem contar o neto que cuidava como filho, ela vive à espera de notícias que possam levar ao menino, que desapareceu misteriosamente no último dia 20 de outubro.

Natural da vizinha Poxoréu, dona Lucineide conta que veio para Rondonópolis aos 24 anos, à procura de emprego e de uma oportunidade na vida, onde trabalhou, se casou, teve seus filhos e vive até hoje. Ela relembra que desde que sua filha Anelice engravidou do Samuel ela já cuidava do neto, mas como Anelice era casada à época, o bebê inicialmente morava com a mãe. No entanto, como o marido de sua filha foi preso logo após o nascimento da criança, ela logo teve que assumir a guarda de fato do neto, a quem trata como filho.

 

 

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“Ele [o pai] era uma pessoa bacana, um homem trabalhador, e assim que saiu da cadeia registrou o Samuel direitinho. Mas o menino não tinha nem sete meses, mataram o pai dele ali na Vila Operária. Antes disso acontecer, ele queria até pegar o nenê, mas eu disse que não ia dar, porque desde a barriga da mãe eu já cuidava dele. E ele sempre foi muito importante para mim, pois eu estava numa fase muito triste da minha vida, depressiva. Aí ele nasceu para mudar minha vida”, conta, emocionada.

Logo depois da morte do pai de Samuel, sua filha Analice se casou novamente e já engravidou em seguida, o que fez com que o menino ficasse aos cuidados quase que exclusivos de dona Lucineide e seu marido Celson Blass.

“E nós dávamos todo o amor possível para ele. E educávamos, corrigia toda vez que ele fazia alguma coisa errada, pois educar é uma responsabilidade muito grande. E ele sempre ficou comigo, mas eu descobri que ele é hiperativo há pouco tempo. Desde novinho ele era travesso, desde pequenininho já dava para perceber que ele tinha algum a mais, diferente das outras crianças. Eu falava para a Anelice que o menino tinha alguma coisa, mas eu não sabia o que era. Ele é muito inteligente, mexia em tudo. Com sete meses ele já desceu sozinho do berço e foi brincar com terra no quintal. Ali, eu vi que não era normal”, relembra dona Lucineide Pinto da Silva Blass.

 

Na foto, o menino Samuel aparece ao lado de sua mãe Anelice e de sua avó Lucineide – Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo a avó do menino, desde muito novinho ele subia nas coisas, fugia de casa e aprontava suas travessuras.

“Desde quando se arrastava ele já fugia, ele não tinha aquela coisa de ficar quieto. E, para dormir, era uma dificuldade, demorava demais. Ele sempre dormia por volta de meia noite, uma hora. Quando ele foi para a escola, ele não tinha paciência de ficar dentro da sala de aula. Os professores me chamavam e falavam que o Samuel não ficava quieto em sala de aula. Era o tempo todo andando. Chamaram psicólogo para ele. Mas desde os três para quatro anos ele já sabia de tudo, respondia tudo que era perguntado para ele”, continuou.

Até então, ainda não tinha sido detectada nenhuma anormalidade na saúde de Samuel e ele foi para a pré-escola em outra escola, onde desde o começo ele subia nas árvores e aprontava outras danuras, o que levou os professores e direção da unidade escolar a chamar a avó do garoto para se queixar de seu comportamento.

“Ele falava para mim ‘mamãe, eu não consigo ficar quieto’. E eu fui observando isso e pedia a Deus que me indicasse um remédio que acabasse com isso. E ele foi para a primeira série e, na primeira fase a diretora que me falou que o Samuel não estava certo, ele estava batendo em outras crianças, não se aquietava. Ela dizia que não sabia o que fazer e, então, ela me deu um encaminhamento para o Cras (Centro de Referência de Assistência Social) e eu levei ele lá. Ele passou pela psicóloga e ela me mandou ir para o Caps (Centro de Atenção Psicossocial). Depois de muita espera, eu consegui uma vaga para ele ser atendido”, externou a avó do menino.

 

“De vez em quando me desespero, mas é a saudade que é muito forte”, afirma a avó, Lucineide Pinto da Silva Blass. Ela mostra a cama onde o garoto dormia – (Foto: Denilson Paredes)

 

Na escola, o menino estava agressivo, tendo agredido e até tentado furar com uma faca uma coleguinha de escola. “A gente via que alguma coisa não estava certa, pois ele nunca tinha visto ninguém da família agredir alguém com uma faca. Mas eu estava levando ele no Caps, mas no SUS tudo é demorado e eu não tinha dinheiro para fazer um bom tratamento. Logo de cara, deu que ele é hiperativo, mas ainda não tinha os laudos médicos completos para ele começar a ser medicado. Para mim, hoje, eu vejo que ele também era um pouco autista, porque nos últimos tempos ele começou a se bater, se esmurrar. Quando perguntava para ele o porque de estar se batendo, ele respondia que fazia tudo errado, que ficava nervoso. E eu tentava dizer que não era assim, para ele ter calma. Mas ele corria e ia para a rua. Eu ia atrás com uma varinha e ele voltava. Quando ele desapareceu, ele pulou o portão, que estava trancado”, disse a avó de Samuel.

 


Médica havia detectado anomalia no coração do menino

 

“Eu estou confiando em Deus, pois se não fosse Deus, a gente não conseguiria suportar isso não”, disse a mãe do menino, Anelice da Silva Gomes, mostrando a pazinha que estava com o filho no dia em que ele desapareceu – (Foto: Denilson Paredes)

 

Com os olhos tomados por lágrimas, dona Lucineide conta que poucos dias antes de o garoto desaparecer, ele fez um exame com uma médica que veio de Cuiabá para vê-lo, que detectou alguma anomalia no coração da criança, mas Samuel acabou desaparecendo antes que esse problema fosse de fato identificado e ele começasse o tratamento. “Meu filho precisa voltar, pois a médica encontrou uma falha no coraçãozinho dele. E eu não sei como ele está, mas ele deve estar sofrendo dores. E estou muito angustiada, muito triste, pois eu não sei ficar sem o meu Samuel”, externou.

Segundo ela, nada de anormal aconteceu no dia do desaparecimento do garoto, com a família toda reunida para o almoço, sendo que o pequeno Samuel repetiu o prato preparado pela avó para ele, uma sopa de legumes.

“Aí ele virou para mim e me disse que eu nunca mais tinha feito arroz doce para ele. E eu achei tão bonito aquilo e ele pegou meu celular e foi para o quarto, enquanto eu fui fazer o arroz doce. Não demorou nem meia hora e meu filho acordou e perguntou pelo Samuel e eu disse que estava no quarto. Ele entrou e viu que ele não estava e eu falei para ele ir atrás dele, que o arroz doce já estava pronto. Ele (Samuel) pegou a pazinha dele (como ele chamava um remo de plástico) e jogou por cima do portão e pulou. Ele já tinha feito isso várias vezes, mas eu sempre ia atrás dele e trazia de volta”, contou, novamente muito emocionada.

Nesse dia, ela recorda que os vizinhos viram um carro preto tipo SUV da marca Mitsubishi rondando a casa da família, que inclusive chegou a ir até a casa do garoto e perguntar para o mesmo sobre a sua avó.

“Isso foi na terça-feira (15 de outubro) e eu ainda falei para ele que era perigoso esses carros de vidros escuros, mas ele me falou que era forte e que não ia deixar ninguém pegar ele. Nós notamos que ele tinha sumido eram umas duas horas da tarde e primeiro pedi para meu filho procurar por ele, mas ele não encontrou. Aí, lá pelas três horas eu saí para também procurar e não achei. Falei com os vizinhos, fui na igreja que ele frequenta, mas me disseram que ele tinha ido lá só pela manhã. Ele estava descalço e com um short cinza. Foi a última vez que vi ele”.

Dona Lucineide conta ainda que a “pazinha” com a qual Samuel saiu de casa foi encontrada a cerca de uma quadra de sua casa, o que é considerado estranho pelos familiares do menino, já que ele era muito apegado ao brinquedo.

“Eu estou na busca pelo Samuel, mas até agora não apareceu nada, só informações falsas, me pediram até dinheiro. Eu sei, eu sinto que ele está vivo e de vez em quando me desespero, mas é a saudade que é muito forte. Eu peço, em nome de Deus, que equem está com meu filho me devolva, pois ele precisa terminar os exames. Se estiver em alguma fazenda, seja onde for, devolva o meu filho. Eu tive uma dor muito forte no peito ontem e durou uns dez minutos, eu senti que quase morri. Só quero que devolvam meu filho”, clamou a avó de Samuel.

Da mesma forma, a mãe do garoto, Anelice da Silva Gomes, de 23 anos, grávida de seu quarto filho, espera ansiosa por alguma notícia que leve ao seu filho.

“Eu não morava aqui (na casa de sua mãe, onde morava o menor), mas estava sempre aqui. Eu levava ele para minha casa, levava e buscava na escola, e foi um choque para mim, pois na hora do almoço eu estava aqui. Eu fui na casa de uma amiga e logo minha mãe me ligou falando que ele tinha sumido. Mas ele sempre voltava, mas dessa vez ele saiu e não voltou mais. Eu estou confiando em Deus, pois se não fosse Deus, a gente não conseguiria suportar isso não”, concluiu.

HISTÓRICO

O garoto desapareceu de sua residência no último dia 20 de outubro e as investigações do caso estão a cargo da Delegacia Especializada de Defesa dos Direitos da Criança, mas até o momento não há nenhuma pista do paradeiro de Samuel.

 

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