17/09/2019 – Nº 552 – Ano 13

 

(*) Eleri Hamerr

Sim, isso mesmo. Um dia você será um ancestral. É no mínimo estranho, se não perturbador, olharmos em retrospectiva invertida. Normalmente olhamos para trás e bisbilhotamos a vida das pessoas que nos antecederam, mas dificilmente imaginamos encontrar a nós mesmos nessa busca.

Ancestral, por definição no estudo da evolução das espécies, são os antecedentes já mortos que se localizam em várias gerações anteriores na representação gráfica da árvore genealógica de todos os seres vivos, ou de algum em especial. Nesse caso, você.

 

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Assim, se tentarmos analisar sob a perspectiva do futuro, num exercício de futurologia olhando para trás, buscando nos encontrar no passado, talvez tenhamos uma percepção diferente, e oxalá, mais realista, da nossa relevância enquanto seres humanos influenciadores da nossa própria espécie e obviamente, dos nossos descendentes.

Assim como alguns milhões de pessoas, há algum tempo fiz parte da minha árvore genealógica. Um pouco fragmentada, porque alguns elos não encontrei nitidez histórica suficiente, mesmo assim, em alguns ramos cheguei a informações muito interessantes até ao nível de meu tataravô. Descobri, por exemplo, que tenho parentesco relativamente próximo com sobrenomes surpreendentes que foram sendo esquecidos ou apagados pela formação nominal adotada no país.

Encontrei também, que meu tataravô paterno era mineiro, atuando nas perigosas e altamente insalubres minas de carvão da Alemanha nos anos 1870. É instigante imaginar essa realidade da época, conhecendo a pujança e a robustez socioeconômica dos germânicos hoje.

Tento imaginar as circunstâncias deploráveis da sua realidade capazes de fazer alguém decidir vir para um país inóspito na época, desconhecido e sem qualquer garantia real de melhora, literalmente tentando a sorte.

Tomar uma decisão de nunca mais ver seus pais e parentes próximos, e se aventurar. Tento imaginar os meses, semanas ou instantes que antecederam o embarque no navio. As decisões e encaminhamentos de despedida e inclusive legais. Com quais pessoas conversou, se informou, discutiu, onde esteve, e o que fez, até decidir.

O aperto no coração e ao mesmo tempo a esperança e a curiosidade. O medo provavelmente, do que encontraria na terra distante. Sem falar na viagem em si, de alguns meses em mar aberto, sem grande comunicação, embarcado num navio de baixíssima segurança e performance, se comparado aos atuais.

Tomar a coragem de colocar o pé no navio influenciou quantas pessoas? Será que ele em algum momento pensou nas gerações de pessoas, nas milhares de vidas que foram e ainda serão influenciadas por um pequeno gesto e uma simples decisão? O resultado é o infinito. Ele é o ancestral mais distante que consigo identificar características e imaginar algum comportamento que tenha me influenciado. Mas certamente há muitos outros.

Cada vez que preciso tomar alguma decisão que parece difícil para mim, tento recuperar aquela realidade tenebrosa e complexa do meu tataravô. Logo, a minha se torna simples. Por isso, aquela decisão dele me influencia até hoje, aproximadamente 150 anos depois.

Temos por hábito esquecer no médio prazo, as pessoas que vieram antes. Mas na prática, o ponto em que estamos só existe por conta de todos aqueles anteriores a nós. Somos o resultado daquilo e daqueles que vieram antes de nós.

Por isso, um dia você provavelmente será o ancestral de muitos. Assim, ao mesmo tempo em que é fundamental nos reconectarmos com nossos ancestrais, com nossa história, com a linha que vem tecendo a trajetória da nossa vida e das pessoas que compõem nossa rede, também é crucial pensarmos em como nossas decisões podem influenciar o futuro. Os legados.

Nesse momento estabelecemos uma conexão entre passado, presente e futuro. Ninguém precisa ficar com crise existencial por causa disso, mas deve servir para compreendermos quanto somos capazes de contribuir, com pequenas decisões e ensinamentos, para a vida de diferentes gerações ligadas direta e indiretamente à sua, num futuro que não sabe quando será.

O que será que seus descendentes falarão de você e de suas decisões? Do seu modus operandis, do seu legado e de suas influências? Olharão para trás e os seus ensinamentos lhe parecerão úteis? Com as tecnologias atuais e as que em breve estarão disponíveis, teremos registros de quase toda a nossa vida em detalhes. Um bom assunto para se pensar.

Até a próxima.

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É professor, workshopper e palestrante – [email protected] – originalmente publicado no Jornal A Tribuna – www.atribunamt.com.br

 

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