“Rondonópolis é motivo de muito orgulho”, diz pioneira

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Prosseguindo com a nossa série de reportagens com pioneiros e pessoas que tiveram um papel de destaque na história de Rondonópolis, trazemos hoje uma entrevista com a pioneira Ana Maria de Jesus, que chegou por aqui há cerca de 55 anos e enfrentou muitas dificuldades para criar seus oito filhos, todos eles bem formados e encaminhados na vida.

Ela é uma dessas pessoas comuns que precisou se esforçar muito para mantê-los no caminho do bem e, hoje em dia, já aposentada e com a saúde debilitada, se mostra orgulhosa do papel que desempenhou como mãe e como cidadã. Exemplo de mãe e de ser humano, Ana Maria de Jesus é o personagem da nossa Série PIONEIROS de hoje. Ela nos conta um pouco de suas histórias e rememora muitas das características e histórias da Rondonópolis de anos atrás.

 

Prestes a completar 90 anos, dona Ana Maria de Jesus chegou há 55 anos e nunca mais quis saber de se mudar daqui – Foto: Denilson Paredes

 


Natural da extinta cidade de Riachão (GO), a pioneira Ana Maria de Jesus completa 90 anos na segunda-feira (26), é viúva e teve 12 filhos. Destes, quatro já morreram e oito estão vivos. Avó de 17 netos e bisavó de cinco bisnetos, ela chegou em Rondonópolis procedente de Guiratinga, a procura de um lugar com mais oportunidades de emprego para poder sustentar os filhos.

 

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Ana Maria rememora que saiu de sua cidade natal com a família, ainda criança, quando tinha por volta de seis a sete anos, mas tem dificuldade para se lembrar o ano, passando por Goiânia primeiro, antes de vir tentar a sorte em Guiratinga, indo morar na região do Alcantilado, onde seu pai faleceu.

“Meu pai veio trabalhar no açougue do irmão dele, mas depois que chegamos ali, ele morreu. Aí ficamos minha mãe e nós, sete irmãos. Moramos lá por menos de dois anos e depois fomos morar em Poxoréu, porque minha mãe trabalhava de doméstica, lavava roupas. Lá, ela ganhava mais dinheiro que em Guiratinga, lavando roupa para os garimpeiros. Nós fomos a pé de Guiratinga até lá [Poxoréu]. Nós dormimos na estrada e minha avó, que era bem velhinha, ia numa bruaca (espécie de grande alforje) no lombo de um cavalo”, contou.

Nessa foto, que ela não sabe precisar em que ano foi tirada, a pioneira aparece ainda jovem – Foto: Arquivo Pessoal

Em Poxoréu, a família ficou por mais tempo. Lá, a pioneira se casou com seu primeiro esposo, Jorge, que pouco tempo depois também morreu, depois de ter lhe dado um filho. Viúva, ela decidiu ir morar em Guiratinga com a família Itacaramby, de quem era parente. Antes de vir para Rondonópolis, ainda morou por um tempo numa fazenda, até que no ano de 1964, ela pisou pela primeira vez na cidade onde se fixaria até os dias de hoje.

Ela conta que decidiu vir para Rondonópolis depois de deixar seu segundo esposo, Boaventura, que apesar de fazendeiro, não queria suprir o sustento dos filhos. “Ele era um miserável, não ajudava com nada. Aí eu vim para cá, para trabalhar, sustentar meus filhos. Naquela época, nem parece que era Rondonópolis. Era muito estranha. Não dá nem para acreditar o tanto que progrediu. Aqui era muito perigoso, morria muita gente. Não tinha autoridade, teve apenas o Adib (o coronel Adib Massad, que na época foi delegado e comandante de polícia), mas depois ele foi embora. E eu firme, lutando para criar as crianças. Como eu não tive estudo, não podia arrumar emprego, ter salário. Eu ganhava a vida era lavando roupa e eu olhava a sorte nos baralhos também”, relembra a pioneira.

Dona Ana Maria relata que, na época que se mudou para cá, a maior cidade da região era Guiratinga, que obviamente era bem maior que Rondonópolis. “Aqui cresceu muito. Eu admiro muito hoje em dia quando saio para passear de carro com a Preta (sua filha Cida) e olhar a cidade, lembrar como era e como está hoje em dia. Na época, não tinha asfalto nenhum, eram poucas casas. Não tinha nada, nada. As pessoas atravessavam o rio de balsa quando chegava um carro. E atravessavam o rio numa canoa, não tinha ponte em lugar nenhum. Mas aqui era melhor que Guiratinga, pois a gente trabalhava e ganhava um dinheirinho”, narra a pioneira.

Em Rondonópolis, sua primeira morada foi na Avenida Marechal Dutra, fundos do Atacadão, rede de supermercados que anos depois viria a comprar sua casa. Nessa casa, morou por cerca de 40 anos. Dessa época, ela se lembra que não existiam táxis e o transporte de bagagens e outros objetos de quem chegava em Rondonópolis era feito de charrete. “Não tinha carro, não tinha táxi, não tinha nada disso. Aqui era muito difícil no começo, depois que veio melhorando. Admiro muito Rondonópolis hoje. Para quem viu isso aqui antes, como era, e vê hoje em dia, essa cidade grande que tem de tudo, é motivo de muito orgulho”.

 

Fotografia tirada por volta de 1974, aparecem alguns de seus filhos em frente a antiga casa da família, que ficava na Avenida Marechal Dutra – Foto: Arquivo Pessoal

 

Em suas lembranças, ela tem muito viva ainda as recordações de quando começaram as obras do que viria a ser a Associação Bancária Rondonina (ABR), que viria a ser um dos mais tradicionais clubes da cidade de outrora, que depois de tornou o Canadá Country Clube e hoje está fechado. A Praça dos Carreiros, segundo ela, era só um descampado, onde os sitiantes e viajantes passavam a noite e também era onde comercializavam suas produções e onde acontecia a única feira da cidade até então.

“Quanto chegava um circo ficava ali também. A primeira farmácia que lembro era a do Seu Conrado, que era um cuiabano. Só depois que veio a farmácia do Seu João (Morais). Hoje em dia ele já morreu, dona Luzia, mulher dele, também já morreu. Ficaram só os filhos dele. Médico bom da época era o Dr. Jurandir, não tinha hospital. Só depois o Dr. Muniz, um baiano, veio trabalhar aqui. O primeiro hotel que teve aqui foi o Hotel Cuia, e depois ele construiu o Luzitano. Foi o pai do meu filho Rubens, o Joaquim (de Oliveira) que construiu lá”, contou, em tom nostálgico, se referindo ao seu falecido esposo Joaquim de Oliveira, pai de seu filho Rubens, empresário do ramo educacional na cidade. “Aqui era difícil, mas eu tenho saudade. Eu lembro que o primeiro taxista daqui foi o Lagartixa, que tinha uma Rural”.

Dona Ana Maria também se lembra da lendária Maria Sete Voltas, de quem diz ter sido muito amiga. “Ela era meio doida certas horas, mas era uma pessoa boa, muito divertida”. Outro personagem folclórico que ela se lembra é do Cibalena, que colocava medo em suas filhas. Havia também o Mato Verde, um senhor alcoólatra que perambulava pelas ruas da cidade.

A pioneira aparece ao lado de seu filho mais velho, que hoje teria 67 anos, mas já é falecido – Foto: Arquivo Pessoal

Aqui em Rondonópolis, Dona Ana conta que teve quatro de seus filhos, mas já trazia outros consigo antes. A dificuldade para criar todos com o mínimo necessário foi grande, mas ela afirma que conseguiu que todos estudassem e se encaminhassem na vida. “A vida era difícil e meus filhos e filhas queriam parar de estudar e trabalhar para me ajudar, mas eu dizia para eles que a vida sem o estudo era muito difícil. Vocês vão estudar, porque vão varrer rua se não estudar. E todos estudaram. Eu fui daquelas mães duras, e a gente sofre muito meu filho, sendo mãe solteira, para criar os filhos sem ter quem ajude, dê uma mão. Eles sofreram muito para estudar. Quando foram para a faculdade, não podiam vir para almoçar, tinham que ficar por lá, porque não tinham o dinheiro para voltar”.

“Eu fui uma mãe enérgica. Muitas vezes eu dava um tapa para outro não dar. Mas criei todos eles. Mas quem me conhece sabe que tinha e tenho muito amor por meus filhos. Meu marido morreu quando ele (aponta para seu filho Rubens) tinha 12 anos e aí ficou tudo pior”, emendou.

Hoje em dia, ela relata bem humorada que está doente e dando trabalho para a família, mas revela que ainda não perdeu a alegria de viver e que gosta de passear no shopping e jantar em restaurantes. “Mas valeu a pena minha vida, porque eu passei horas ruins, mas também tive muitas horas boas. Eu era feliz porque os filhos eram pequenos e estavam todos do meu lado. Eu saía cinco horas para ir para o trabalho lavar roupa, e fumava demais, o que me prejudica até hoje. Mas era muito bom. Hoje, tenho filho que não quer nem vir aqui em casa. Já não tenho mais planos, mas eu estou satisfeita, pois estão todos criados e se escolherem a estrada errada, é se quiserem, mas não foi por minha causa”, diz.

O motivo que a teria feito permanecer em Rondonópolis, no início, foram as amizades que fez com várias senhoras e ela acha que acertou de ter ficado por aqui, se dizendo hoje muito orgulhosa de ser uma das pioneiras. Com relação à cidade que adotou, ela diz se sentir muito satisfeita com o crescimento estrondoso que o lugar passou, mas como pessoa que sofreu na vida, nunca deixou o coração endurecer, ela reclama da desigualdade social, que considera muito grande. “Aqui precisa de mais justiça social, que não tem. Precisava ter isso aí, ajudar os menores, a pobreza. Isso é o que eu queria e nada mais”.

 

Matriarca de uma família numerosa, o aniversário da pioneira Ana Maria de Jesus vai ser comemorado com uma grande festa, que reunirá membros da família vindos de vários lugares do país. As festividades devem começar hoje e só acabam amanhã.

 

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