As lições simples de meu pai

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13/08/2019 – Nº 547 – Ano 13

 

(*) Eleri Hamer

Domingo foi dia dos pais. Há mais de 17 anos não posso mais abraçar o meu. Perdemos ele para um câncer de pulmão decorrente do tabagismo, assim como outras 7 milhões de pessoas que sucumbem anualmente pelo mundo vítimas desse uso do tabaco, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Meu pai nunca declarou que tivesse grandes missões na sua vida, mas dentro de suas limitações fez e ensinou muito. Embora sobrasse comida na mesa, era de origem muito simples, tosca até poderia se dizer, pela forma como moravam e conduziam seu dia-dia no longínquo interior do Rio Grande do Sul. A luz elétrica só chegou na casa dos meus avós quando eu já era adolescente. Em toda minha infância lembro de visitá-los manobrando os lampiões a querosene.

Nasceu em 1926 e sendo o mais velho de 10 filhos, experimentou desde cedo o rigor da atividade laboral na roça e no campo com o gado, principalmente no congelante e renitente inverno gaúcho. Numa época em que conforto era ter o que comer, onde morar e com o que se esquentar.

A propósito, lembro com saudade dos pães de pura farinha de milho feitos no forno a lenha, das histórias de aventura que meu avô contava e das enormes bergamotas (tangerinas) nativas que pintavam de amarelo os arredores da casa.

Como muitos outros da época, não sobraram tempo e nem recursos para que ele pudesse se dedicar à escola e os estudos. Foi o suficiente apenas para se alfabetizar com sofreguidão e conhecer de modo raso as quatro operações matemáticas.

Mesmo assim, deixou inúmeras e indeléveis lições. A primeira delas foi quando se reconheceu insatisfeito, e mesmo sendo muito recatado e tímido (tinha muito receio de se expor), tomou a decisão fundamental de sair da casa dos pais e se apresentar a um comerciante de secos e molhados da região, para auxiliá-lo nas suas lides.

Lá, dentre outras habilidades fundamentais para a sua vida, aprendeu o básico do rude ofício de ser açougueiro no interior e desenvolveu a raríssima habilidade para a época, de dirigir um automóvel, dentre eles um caminhão. Praticamente uma façanha no final dos anos 40 do século passado.

Mas ele tinha um objetivo em mente (mais uma lição): ter seu pedaço de terra. Afiançou para a minha mãe que somente casaria (namoraram a eternidade de 9 anos) o dia em que pudesse ter seu pedaço de chão. Alcançou e cumpriu.

Quando era menino, lembro que meu pai, mesmo um pequeno agricultor, sem expressão, era conhecido na vizinhança porque sabia “carnear o gado” e dirigir automóvel. Foi requisitado algumas centenas de vezes para auxiliá-los em sacrificar os animais e cortá-los em partes. Ele não tinha carro, andávamos de carroça, mas ensinou muitos vizinhos e amigos a dirigir os seus automóveis.

Nos ensinou que ter um coração grande é bom. Sempre colocava as relações com as pessoas, a amizade e a reputação de boa gente na frente de qualquer aspecto financeiro. Fazia tudo isso de graça ou em troca de carne, que devolvia quando ele mesmo matava algum animal dos seus.

Gostava de frutas, de vinho, de jogar bocha e tomar uma Antarctica. Aprendeu com os vizinhos de origem italiana a arte de fazer um bom vinho. Todo o ano em janeiro o ritual era sagrado: colher as uvas, macerar e fazer o vinho caseiro. Dava, trocava ou consumia o que produzia. Tomava um copo todo dia no almoço. Plantou um parreiral que cuidava meticulosamente. Os vizinhos vinham fazer as podas. Depois, meu irmão e eu assumimos esse manejo.

Quanto as frutas, nunca faltaram na nossa casa. Um lema recorrente era: se você quer colher, precisa plantar. Todo ano alguns pés de frutas eram plantados. O pomar somente aumentava. Lembro que levava um saco de ‘laranjas de umbigo’ para a roça e à meia tarde parávamos o trabalho. Era hora do lanche e de conversa. Uma delícia.

Nunca dispensou um bom jogo de bocha aos sábados à tarde ou no domingo, acompanhado da sua cerveja preferida e dos amigos que eram em bom número. Fomentava assim as relações na comunidade e ficava sabendo das novidades. Arrumava tempo paciencioso para tudo. Não era apressado, mas objetivo. Era trabalhador, mas sabia a hora do descanso. Tinha hora certa para dormir e levantar. Tirava a sagrada sesta depois do almoço. Aprendi muito assim.

Era pontual ao extremo. A ponto de me mandar embora porque sabia que eu tinha algum compromisso iminente e chegaria atrasado se não saísse de sua casa logo. Talvez minha paranoia de perseguir a pontualidade profissional venha daí.

Gostava das coisas simples, era educado e paciencioso. Falava apenas o suficiente, mas sabia ouvir. Arrumava o tempo de uma tarde inteira para tomar chimarrão com algum amigo ou vizinho e ouvir as histórias que contavam.

Lembro de várias ocasiões em que eu precisava tomar alguma decisão mais complexa, e mesmo que já lhe fugisse a capacidade intelectual para auxiliar efetivamente, ouvia e refletia comigo, com a atenção objetiva e paciente de um moderno coach.

Era compreensível. Poucas vezes me passou o chinelo, embora merecesse outras tantas. Sempre preferia o acordo que a briga e a ruptura. Mas era efetivo quando necessitava. Um pai amável sem precisar fazer grande esforço. Era recatado.

Devo muito do que sou a ele e minha mãe (há algum tempo escrevi um artigo sobre ela). Uma grande virtude em particular foi, mesmo necessitando do nosso trabalho braçal na roça, reconhecer a importância do estudo, não se opondo a missão que minha mãe colocou na minha vida e na do meu irmão: estudar para ascender na vida. Apoiou sempre.

Sinto falta dele nos momentos bons e nos ruins. Cuide do seu papai (como gosto que minhas filhas me chamem) e aproveite os ensinamentos enquanto ainda tiver um. Se não tiver, tente ser um pai, tio ou amigo inspirador. Você pode.

Até a próxima.

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É professor, workshopper e palestrante – [email protected] – originalmente publicado no Jornal A Tribuna – www.atribunamt.com.br

 

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