Prosseguindo com nossa série de entrevistas com pioneiros e pessoas que tiveram um papel importante na história de Rondonópolis, trazemos hoje uma entrevista com uma das lendas do futebol amador rondonopolitano, Hermógenes Ramos de Siqueira, nada menos do que o popular Tinô, que chegou por aqui, ainda jovem, nos primórdios da cidade para trabalhar no antigo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), e nunca mais quis saber de ir embora.

 

Tinô: “Aqui não tinha nada para se ver. Nada. Tinha a Praça Brasil, mas era só um terreno limpo” – Foto: Denilson Paredes

 

Na fase de ouro do futebol amador local, ele foi jogador do extinto Rodoviário, que era comandado pelo então engenheiro Miguel Ortiz, que viria a se tornar padre e que ficou conhecido como Padre Miguel [já falecido], passou pelo Olaria, pelo mitológico Batidinha e depois se tornaria um dos fundadores da Sociedade Esportiva Vila Aurora, o Tigrão da Vila, do qual é técnico da equipe de veteranos e membro de sua diretoria até hoje.


 

Hoje com 81 anos de idade, Hermógenes Ramos de Siqueira, o Tinô, natural da cidade de Santo Antônio do Leverger, conta que decidiu vir para Rondonópolis no ano de 1958, logo após prestar o serviço militar na cidade de Cáceres, chegando por aqui aos 20 anos para trabalhar no extinto DNER, hoje DNIT, na função de funileiro. Casado até hoje com sua primeira esposa, Delvani Castro Siqueira, com quem teve duas filhas, que lhe deram cinco netos, ele foi um dos bons jogadores nos tempos áureos do futebol amador, tendo sido por várias vezes campeão municipal na modalidade.

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Ele conta que, assim que deu baixa no Exército, foi para Cuiabá à procura de trabalho e acabou sendo contratado pelo DNER, que o enviou para Rondonópolis, onde trabalhou na obra da BR 364 até Alto Araguaia e na BR 163, ajudando a construir a rodovia até a cidade de Coxim (MS). “Eu vim para trabalhar na minha profissão, que é lanterneiro. Ouvia falar muito sobre Rondonópolis e tinha muitos amigos por aqui. Eu vim na época do Dr. Miguel, que depois virou padre. Ele era o nosso engenheiro e chefe no DNER”, relembra.

Tinô se recorda que veio de Cuiabá num caminhão do DNER e a viagem durou mais de 10 horas, pois a estrada era toda de terra e bastante precária. “Aqui não tinha nada para se ver. Nada. Tinha a Praça Brasil, mas era só um terreno limpo. Era ali que ficavam os circos que chegavam na cidade, os parques de diversão. E onde hoje é o EEMOP era onde o pessoal jogava bola. Era tudo no chão ao redor, não tinha casa, não tinha nada”.

Quando chegou por aqui, ainda solteiro, Tinô foi morar no alojamento do DNER, na Vila Salmen, próximo onde hoje existe o viaduto da Avenida Presidente Médici. “Era motorista, tratorista, mecânico, braçal, todos moravam ali. Nessa época, o DNER estava construindo a estrada daqui para Coxim e daqui para Alto Araguaia, fomos nós que fizemos. Até São Lourenço (de Fátima, distrito da cidade de Juscimeira) fomos nós que fizemos também. De Cuiabá até lá foi o pessoal de Cuiabá que fez. Nós fizemos aquela ponte do (rio) São Lourenço e essa ponte aqui da rodovia sobre o Rio Vermelho. Tudo isso fomos nós que construímos”, conta, sem esconder o orgulho.

 

Equipe amadora do Olaria, várias vezes campeã na década de 1960 – Foto: Arquivo pessoal

 

Ele relata que, depois de cerca de três anos trabalhando por aqui, conheceu aquela que viria a se tornar sua esposa, Delvani Castro, que era filha da lavadeira que prestava serviços para os trabalhadores do DNER e garçonete no hotel onde estes faziam suas refeições. “A gente se via todos os dias, eu saía do serviço e ia para lá. Assim, eu conheci a Delvani e depois de uns dois anos, quando eu tinha 23 anos, nós nos casamos. O nosso casamento foi numa capelinha que tinha ao lado de onde hoje é a Igreja Matriz. Daí, fomos morar na Caixa D’Água, perto daquele posto de gasolina. Moramos uns cinco anos e depois mudamos para frente do Estádio Luthero Lopes, que ficava em frente ao jornal A TRIBUNA. Eu morava do lado do jornal. Eu saía de casa e já estava no estádio. Ali eu morei até o começo da década de 70, época que começou o União Esporte Clube (1973)”.

Para formar o União, ele se lembra que foi preciso “desmanchar” quatro equipes amadoras, o Olaria, o Paraibana, Santos e Batidinha que se fundiram para dar vida à primeira equipe de futebol profissional da cidade. “Aí, como o Vila Aurora estava se formando, e eu passei para o Vila Aurora, fui morar ali, perto da feira da Vila Aurora, onde moro até hoje”, rememorou.

A respeito do futebol, ele conta que quando chegou em Rondonópolis, os funcionários do DNER já tinham um time amador, o Rodoviário, que era muito respeitado pelo bom futebol na região. “Num domingo, um primo que eu tinha lá, chamado Chiquinho, falou para o Dr. Miguel que eu jogava bola e na hora ele me colocou na equipe. Só que primeiro foi no time de aspirantes, não foi no titular. Porém, acabou o jogo e ele me falou que eu sabia jogar bola e me promoveu na mesma hora para o time principal. Logo, todas as seleções da cidade que se formavam por aqui para jogar com os times de fora, me chamavam”.

Dessa época, início da década de 1960, ele se lembra que dormiu no mesmo quarto que o então engenheiro Miguel Ortiz, de origem paraguaia, que depois foi ordenado padre e construiu uma bela história também como religioso na cidade. “Ele tinha uns quatro caras de confiança que dormiam juntos no mesmo quarto. Nessa época, ele já estava estudando para padre. Depois que ele se formou, foi para a Igreja Matriz, em 1964. Nisso, ele deixou o DNER e eu também. Mas o padre, desde a época que trabalhava no DNER, a maior parte do salário dele, ele comprava de cestas básicas e doava para os pobres. Depois, eu vim para a rua e arrumei um trabalho numa oficina, que ficava onde hoje em dia é a Pernambucanas. Dali até perto de onde ficava a ABR (hoje, Canadá Clube), era tudo oficina”, explica o pioneiro.

 

Batidinha: equipe amadora por onde passaram muitos dos pioneiros da cidade – Foto: Arquivo pessoal

 

Com a saída do padre Miguel do DNER, o Rodoviário também deixou de existir e Tinô conta que passou a jogar pelo Batidinha, lendário clube de futebol amador da cidade, nome que foi sugerido por um jogador de nome Darcy, que era funcionário do Banco do Brasil na época, inspirado numa bebida feita à base de cachaça e refrigerante de guaraná, muito apreciada pelos atletas da equipe. “Com o Batidinha, nós fomos campeões do amador três vezes. O time estava muito bom, mas aí começaram a trazer alguns jogadores de fora, trouxeram uns três ou quatro de Alto Araguaia ganhando, para ficarem só no hotel, no bem bom. Em razão disso, eu, o Silvão, o Cadôra e o Toninho não concordamos e saímos. Fomos para o Olaria, que era um time aspirante de Pedra Preta. Isso era 67 ou 68 e nós fomos campeões quatro vezes até 1973, quando montaram o União. Eles até me chamaram para jogar, mas nunca quis, porque já era time profissional e tinha que largar outras coisas. Porém, fui motorista deles, levei eles uma três vezes para jogar em Cuiabá, a pedido do meu amigo Lamartine (da Nóbrega, fundador do União, já falecido)”.

Em seguida, ele conta que a convite do também pioneiro Alminedes Ribeiro Nogueira, o Lelo Brega, foi para o Vila Aurora, que era um promissor time de várzea na cidade, que na época treinava onde hoje é a Feira da Vila Aurora.

“Eu fui e o Tigrão começou a jogar no varzeano e ele (Lelo Brega) me colocou como técnico. Mas eu jogava também. Jogamos o varzeano, que tinha uns doze times das vilas. E quem ganhasse o varzeano ia para o amador e nós ganhamos, em um jogo contra a Mata Grande, lá no campo deles. No amador, fomos campeões umas nove vezes, aí chegou o Maracaju e outros caras, e disseram que iam colocar o Tigrão no profissional. Fizemos um campo bom atrás do cemitério (da Vila Aurora), numa área doada para nós pelo Carlos Bezerra, prefeito daquela época. Fomos para a terceira divisão (do estadual), ganhamos e fomos para a segunda divisão, até chegar na primeira. Ficamos na primeira divisão até 2005, ganhamos o primeiro título da história de Rondonópolis no futebol profissional, quando acabaram os empresários que queriam investir no time e acabamos parando. Hoje em dia, sou técnico do Baba, time de veteranos do Vila Aurora, que disputa peladas. Também sou diretor até hoje. Agora, já estou pensando em largar o futebol”, conta o veterano.

 

Tinô ainda mantém aberta uma funilaria, que fica na Rua Fernando Correia da Costa, onde se instalou ainda em 1976, e que agora é uma espécie de ponto de encontro dos amigos. Sobre Rondonópolis, ele diz que veio com o intuito de ficar, tendo feito muitos amigos por aqui e hoje se considera rondonopolitano, tendo inclusive recebido um título de Cidadão Rondonopolitano e uma Moção de Aplausos da Câmara Municipal. “Eu não tenho do que reclamar daqui. Mas o que me prendeu mesmo foi o futebol. Nos finais de semana, sempre tinha amigos me chamando para jogar. Por conta da idade, essa vontade de estar no futebol está acabando e já penso em parar, estou arrumando outro para cuidar da Baba. São quase 60 anos cuidando de futebol. Acho que já chega”, diz o pioneiro.

Sobre o que ainda precisa melhorar na cidade que adotou, Tinô é curto e grosso. “O que falta são os políticos olharem mais pela cidade e dar prosseguimento nas obras iniciadas. Mas é só, o resto está bom”, concluiu, com o seu tradicional bom humor.

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