Um cenário difícil para as empresas no futuro do trabalho

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16/07/2019 – Nº 543 – Ano 13

(*) Eleri Hamer

Estamos vivendo novamente, a neura do catastrofismo da substituição dos humanos pela máquina. Depois da revolução industrial, quando houve histeria geral e diferentes teses vieram à tona tentando desenhar a situação no futuro, estamos novamente às voltas com a mesma seara. Mas, assim como antes, existem motivos reais para preocupação.

Contudo, as discussões se restringem em como isso tudo vai afetar os profissionais e pouco se tem falado sobre o lado da empresa e as mudanças em curso no perfil dos trabalhadores no futuro. Sobremaneira a importância não só do trabalho em si, mas do contexto do trabalho (como um ecossistema social), na relação entre a vida dos profissionais e o ambiente das organizações.

A princípio, num cenário muito próximo, não nos parece nada animador o lado da empresa, principalmente quando o assunto é atrair e manter bons colaboradores. Um tema sempre espinhoso para quem tem um CNPJ para zelar ou está envolvido diretamente com o tema em sua atividade profissional.

Num artigo recente da CEO e cofundadora da Love Mondays, Luciana Caletti, são levantados vários aspectos nesse sentido e revelam uma parte das mudanças incontestáveis em curso. A Love Mondays é uma plataforma de avaliação, com mais de 75 mil organizações avaliadas, onde os profissionais informam diferentes aspectos baseados na sua experiência de trabalho nessas empresas, bem como podem se candidatar a vagas de trabalho. Era a maior empresa do segmento e recentemente foi adquirida pela Glassdoor, tornando-se de atuação mundial.

A título de exemplo, o resultado de uma pesquisa, apontada no texto, realizada no Brasil com 4.492 usuários da plataforma, com emprego fixo, revelou que 70% desejavam mudar de empregador, sendo que praticamente 30% apontam como principal motivo a vontade de encontrar algo que tivesse mais relação com o seu propósito de vida. O salário só apareceu em terceiro lugar com 25%, atrás da dificuldade em crescer na empresa, com 29%.

Desde o advento da geração Y a vida de empresários, líderes e gestores de recursos humanos não tem sido fácil. Não é de agora que se percebe uma mudança na filosofia de vida dos trabalhadores, influenciados principalmente por essa geração.

O ser e o ter foram assumindo significados diferentes cada vez mais rápido. Se antes era fundamental ter bens materiais ou mesmo buscar fazer parte do time de cima e manter o status quo de posições desejadas, agora isso pode ser algo menos importante.

A felicidade mudou seu motivo principal. Isso explica em boa medida porque salário não tem mais aparecido na primeira ou segunda posição tanto como motivo para trabalhar numa empresa como motivo para sair dela.

Para essa geração que já está em todos os níveis organizacionais desde a metade desta década, o fator que assumiu posição de destaque são as experiências de vida. Nesse sentido, a autora aponta que essa mudança de visão de mundo faz com que as escolhas profissionais desses trabalhadores levem muito mais em consideração um trabalho que seja capaz de fornecer satisfação do que qualquer outro aspecto.

Isso não muda tudo, mas muda muita coisa. A primeira delas é que o desafio do turnover será crescente para as empresas. Na prática, a lei, antes inconteste de que as pessoas precisavam se adaptar às empresas não é mais verdade absoluta. Cada vez mais importante que as empresas também cedam e desenvolvam mecanismos de ajuste para que os trabalhadores (individualmente) se sintam integrados efetivamente ao ecossistema da organização.

A autora finaliza com uma recorrente, mas agora evidente necessidade das empresas que querem manter seus talentos nas suas fileiras e não ver eles desfilando sorrisos e resultados na concorrência: incentivar decisivamente o aprendizado contínuo tanto para promover a felicidade como para garantir a sobrevivência.

Por isso, destaco que cada vez mais precisaremos entender de gente e conhecer de linguagem de máquina. Os dois serão imprescindíveis para sobrevivermos nessa simbiose que se avizinha, tanto para os profissionais de um modo geral, como para gestores, líderes e empresários.

Até a próxima.

(*) ELERI HAMER escreve esta coluna às terças-feiras. É professor, workshopper e palestrante – [email protected] – originalmente publicado no Jornal A Tribuna – www.atribunamt.com.br

 

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