Foto de época, ilustra a balsa atravessando caminhão através do Rio Vermelho, em Rondonópolis

 

* Por Luci Léa Tesoro

A data de fundação de Rondonópolis é 10 de agosto de 1915, e é baseada em documento de doação de 2000 hectares efetuado pelo então presidente de Estado do Mato Grosso, Joaquim da Costa Marques, à Povoação do Rio Vermelho. O referido documento é um tipo de Carteira de Identidade Oficial do povoado que, em 1918, passou a ser denominado de Rondonópolis – homenagem a Rondon que recebe, então, a outorga de Patrono de Rondonópolis.

Imagem mostra a Lancha Rosa Bororo, no inicio do século XX

 

A data de emancipação político-administrativa de Rondonópolis é 10 de dezembro de 1953, quando o local passou a ter status de município e deixando de ser distrito de Poxoréu – antes (1920) fora distrito de Santo Antônio do Leverger.

 

TERRAS FÉRTEIS

Rondonópolis é uma cidade conhecida por suas terras férteis e localização privilegiada, imbricada no entroncamento das rodovias BR-163 e BR-364, que ligam as regiões Norte/Sul do país, sendo o portal da Amazônia e a entrada para o pantanal mato-grossense.

O pecuarista e agrimensor paulista Luiz Lopes Martinez afirma que: “Até 1970, Rondonópolis apresentava uma curva de crescimento normal; nível que se tornou vertical com a construção das rodovias federais” (TESORO, 1993, p.122).

Acontece que, por essas estradas transitava (até 2013, quando foi inaugurada a Ferronorte) toda a produção de nossa agroindústria e pecuária, fazendo com que esta chegasse às grandes cidades e portos do país, onde eram comercializadas (Santos-SP, Paranaguá-PR, Vitória –ES).

 

SISTEMA CAPITALISTA DE PRODUÇÃO

Vendedores de arroz na Colônia Macacos, em Rondonópolis

Somente depois de 1948 é que o vilarejo apresentou indícios de aumento demográfico e retomou o crescimento. Tais dados emergem a partir do momento em que Rondonópolis é inserido no contexto capitalista de produção como fronteira agrícola mato-grossense, resultado da política de Sistema de Colônias implantado pelo governador Arnaldo Estevão de Figueiredo.

 

Nesses termos, a emancipação de Rondonópolis só veio a acontecer em 10 de dezembro de 1953 e o “boom” do município tornou-se realidade depois de 1970, com o advento de modernização do campo.

 

EXPANSÃO CAPITALISTA

Até 1970 a cidade é marcada pela produção agrícola em pequena escala. Na foto, caminhão de arroz na década de 1960
Em relação à expansão capitalista de Rondonópolis, há que se distinguir dois momentos distintos, o anterior à modernização do campo (1950-1970) e aquele que corresponde ao modelo agroexportador pós 70.
Até 1970 a expansão capitalista é caracteristicamente tímida. É marcada pela produção agrícola em pequena escala, para suprir as necessidades do mercado interno. O município passa a ser conhecido como produtor de arroz e como a “Rainha do Algodão”. O capital era contido, principalmente devido aos entraves de comércio e escoamento da produção. Destacam-se os pequenos produtores (nordestinos, mato-grossenses) e os fazendeiros paulistas e mineiros.
A vocação à pecuária, das terras de Rondonópolis, foi enfatizada pelos fazendeiros e, por isso, até 1970 a agricultura era prioridade apenas enquanto mecanismo de desmatamento – as terras eram arrendadas aos pequenos produtores, em talhões, para que plantassem suas roças (de arroz, de milho, de feijão) depois de 2 a 3 anos deveriam entregar o pasto plantado. O trabalhador apenas reproduzia a sua força de trabalho.

 

 

O SURGIMENTO DA INDÚSTRIA

Djalma Pimenta, proprietário da primeira indústria moderna da cidade: a Bebidas Marajá

Em Rondonópolis, tanto em 1960 quanto em 1970, há o predomínio das indústrias de alimentos, baseadas essencialmente no beneficiamento da produção da agropecuária; e, em segundo plano, pelas indústrias de transformação de minerais não-metálicos, a propósito da grande demanda interna de material para construção civil, como a fabricação de cal, tijolos, telhas cozidas, etc. Tanto uma quanto outra caracteriza-se por ser constituída por estabelecimentos de pequeno porte, pela produção simples e artesanal, pela baixa ocupação de mão-de-obra e quase sempre baseados na organização familiar.

Exemplo desse tipo de indústria local é a Indústria de Bebidas Marajá, fabricante de refrigerantes e distribuidora de bebidas em geral, que foi instalada em 1963 pelo senhor Dijalma Pimenta (falecido), proprietário e acionista majoritário. Todavia, diferente de outros empresários, ele era dotado de espírito empreendedor e investia sempre em maquinários mais modernos, correspondendo ao prenúncio de diversificação da indústria rondonopolitana.

Sobre isso, o senhor Dijalma afirma que: “Depois de 1976 compramos o terceiro conjunto de maquinários e em 1983 o quarto; e sempre pensando nas novas possibilidades técnicas que avançam sensivelmente de modelo para modelo: são máquinas enchedoras, tampadoras, rotuladoras e lavadoras de vasilhames, todas automáticas” (TESORO, 1993, p.131).

 

ACELERAÇÃO DA EXPANSÃO CAPITALISTA

A partir da década de 1980, Rondonópolis passa a responder aos anseios do modelo agroexportador do capitalismo internacional. Imagem mostra caminhões na unidade da Ceval Armazéns, em 1981

 

A expansão capitalista em Rondonópolis de 1970 em diante é acelerada. Na década de 70 se acelera no município o processo de expansão capitalista, e Rondonópolis desenvolve o mais rápido processo de modernização do campo que se teve notícia no Centro-Oeste.

Unidade da Cafeeira Bianchini em Rondonopolis, na década de 1980

Ele é marcado pela produção em larga escala, que responde aos anseios do modelo agroexportador do capitalismo internacional; e projetada a partir da política de modernização do campo, da política de incentivos fiscais do Estado e da política de melhoria da malha viária. Destacam-se os antigos produtores (mineiros e paulistas) que conseguiram modernizar as suas fazendas de gado; e principalmente os sulistas, que através da mentalidade do “pensar grande”, solidificaram a produção em larga escala: inicialmente do arroz e, em seguida, da soja, do milho e também do algodão.

 

CRESCIMENTO ECONÔMICO

Em meados da segunda metade da década de 70 quatro famílias do Rio Grande do Sul vêm, se estabelecem, investem alto e se destacam na cultura agrícola de exportação. São os: Salles, Strobel, Heberle e Bertoni. Em seguida, o entusiasmo contagiou milhares de famílias gaúchas, catarinenses e paranaenses que vieram para explorar a terra desta e de outras regiões do Estado.
O empresário Dijalma Pimenta é de opinião que: “Justiça seja feita, foram os gaúchos que inovaram todo o sistema de produção local. Com uma mentalidade diferente, não vieram para plantar pouco e colher pouco; ao contrário, eles pensavam grande – correspondendo aos interesses exportadores do Governo. Baseados numa técnica de produção moderna, financiaram os mais sofisticados implementos agrícolas e partiram para o cerrado, que se adaptou inicialmente à lavoura de arroz. Mas foi a soja a cultura de destaque, a mais importante, dadas as necessidades do mercado internacional. O resultado foi uma produção fabulosa que extrapolou os anos 80 e acelerou o processo de crescimento da região” (Tesoro, 1993, p.124).

 

 

INOVAÇÃO DO SISTEMA DE PRODUÇÃO

 

Em meados da década de 80, as pesquisas da EMATER-MT e da EMBRAPA resultaram na obtenção da semente “Cristalina”, cujas safras gigantes transformaram a soja no maior produto de exportação da região e do país (tanto soja em grão como seus subprodutos, o farelo e o óleo).

Plantações de soja se espalham rapidamente na região na década de 1980, tendo Rondonópolis como pólo de negócios

 

A exportação de grãos passa a ser uma notícia bastante veiculada, e na imprensa local o Jornal A Tribuna declara em 12/05/1980:

“A Gravataí Comércio e Indústria de Cereais Ltda., com matriz em Rondonópolis, iniciou neste ano a exportação de soja para a Europa, precisamente para a Espanha (…) a venda totalizou 2 mil toneladas (…) fato inédito na história de Mato Grosso, por ser um Estado que só agora está vendendo para o exterior. (…) O embarque está sendo realizado através do Porto de Paranaguá-PR; o valor da operação totalizou a importância de CR$14.053.000,00” (TESORO, 1993, p.127).

Rondonópolis passa a abrigar, a partir da década de 80, grandes armazéns graneleiros e transportadoras (Fotos: Revista Nova Imprensa)

 

Em 1980 Rondonópolis passa a ser polo econômico da região e é classificado como segundo município do Estado em importância econômica, demográfica e urbana. Segundo dados do Jornal A Tribuna em 30/09/1980:

“Havia uma euforia fazendária em Rondonópolis, representada pelo superávit de 220,31% relativo à arrecadação de 79/80, que superou mesmo o recolhimento registrado na capital” (TESORO, 1993, p. 133).

Rondonópolis se despontou como a cidade das grandes revendas de máquinas e implementos agrícolas

Os agropecuaristas da região se orgulham em afirmar que o sucesso da produção em Rondonópolis foi e é uma vitória da iniciativa privada, que nos anos 80 se fortalece ainda sob a atuação das associações e cooperativas locais.

Já, na década de 90 Rondonópolis projeta-se como “A Capital Nacional do Agronegócio”, ao mesmo tempo em que cresce o setor agroindustrial – decorrem daí o sucesso das feiras setoriais, como Expoinel, Tecnocampo e Agrishow Cerrado.

Os produtores se estabeleceram em grandes propriedades organizadas nos moldes de grandes empresas e os sojicultores passam a diversificar o seu capital a partir de outras lavouras, da produção e comercialização de sementes, da pecuária de corte, do comércio de máquinas agrícolas e implementos, da implantação de agroindústrias de processamento de óleo comestível, torta e farelo de soja.

 

Na década de 90 Rondonópolis projeta-se como “A Capital Nacional do Agronegócio” e passa a sediar grandes feiras agrícolas

Nos anos 90 cresce também a parceria dos empresários locais, concretizando a criação da Sulcredi (atual Sicredi) – cooperativa que tem por objetivo gerenciar os recursos produzidos aqui. Outro empreendimento de monta foi a construção e instalação da Agra, liderada pelo pioneirismo dos Salles.

 

O FORTALECIMENTO DA INDÚSTRIA

Complexo industrial da Sadia Mato Grosso (hoje ADM), que em 1986 passou a processar a produção mato-grossense de soja em Rondonópolis

 

O Jornal A Tribuna destaca a importância da Agra, em 10/12/1991: “A Agra é o maior projeto integrado no setor, na região e demandará um investimento de 24 milhões de dólares, distribuídos entre Fábrica de Rações, Indústria de Derivados de Milho, Suinocultura, Abatedouro e Frigorífico e Indústria de Carnes e Embutidos. Todo esse complexo-agro-industrial, que oferecerá um volume de 600 empregos diretos na região, será implantado com recursos próprios e financiamentos do FCO, Banco do Brasil, SUDAM e BNDES” (TESORO, 1993, p.129).

Como vimos, o agronegócio alavancou o processo de industrialização e a vinda de grandes empresas para o município; despertou o interesse de investidores de outros estados e empresários de multinacionais e de países da África, da Europa, dos Estados Unidos, da China, da Rússia. Isto, aliada a uma política de incentivos trouxe para Rondonópolis algumas empresas de porte no setor da agroindústria e de alimentos (como a ADM e a Bunge), que foram se estabelecendo próximas às rodovias federais ou diretamente no antigo Distrito Industrial.

A partir do ano 2.000, Rondonópolis se firma como o segundo maior parque industrial do Estado, fazendo saltar o número de unidades industriais, de empregos diretos e indiretos, bem como a arrecadação de ICMS. Assim, o município suplantou a arrecadação de Várzea Grande, que possui a segunda maior população do Estado.

A partir dos anos 2000, indústria de Rondonópolis recebe muitos investimentos e também se diversifica. Na imagem, unidade misturadora de fertilizantes

Na última década foram concretizados em Rondonópolis vultosos investimentos privados aplicados na construção de indústrias: no setor de alimentos, de transportes de grãos, de implementos agrícolas, de fertilizantes, de esmagamento de soja, de esmagamento de caroço de algodão e girassol, além de indústrias de bebidas, de embalagens, de tear e fiação, e outras.

 

UM NOVO COMPLEXO INTERMODAL

A instalação do Complexo Intermodal de Rondonópolis (CIR), situada na BR-163, saída para Campo Grande (MS), marca novas perspectivas de crescimento e fortalecimento do setor industrial local, propiciada pela logística imposta pela ferrovia que alia as atividades do terminal ferroviário e rodoviário. Nesse complexo, estão sendo instaladas 3 distribuidoras de combustível, empresas de fertilizantes, de commodities agrícolas, fábrica de biodiesel (Cofco), entre outras, além de um novo distrito industrial privado.

A chegada dos trilhos da ferrovia em 2013, com a inauguração do Complexo Intermodal da Ferronorte, revolucionou ainda mais a logística local. Se percebe no município o início de processo de impacto em termos de incremento de receita pública e da circulação de renda dos trabalhadores. Os gastos com o frete diminuíram e ampliou-se o escoamento de produção de grãos, tornando a produção agropecuária mais competitiva no mercado internacional. Fruto desse contexto, em 2018, as exportações colocaram Rondonópolis em 39º lugar dos municípios que mais exportaram no país.

 

FUTURO

Assim, nesta segunda década do século XXI, pode-se dizer que Rondonópolis está a caminho de se tornar uma metrópole, município polo da região Sul, que tem galgado também no setor industrial um avanço significativo – o município está entre as 100 maiores economias do país. O agronegócio, em especial, continua a trazer para a cidade pessoas de diferentes lugares do país.

 

(*) Luci Léa Lopes Martins Tesoro é professora Doutora, em História Social pela USP.
Autora do livro “Rondonópolis-MT: um entroncamento de Mão única”, Bartira, São Paulo, 1993. Contato: [email protected]

 

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