18/06/2019 – Nº 539 – Ano 13

(*) Eleri Hamer

Em 2017, o prêmio Nobel de medicina foi para o trio americano Jeffrey C. Hall, Michael Rosbash e Michael W. Young em função de suas pesquisas sobre o nosso relógio biológico. Mais precisamente sobre o sistema ou ciclo circadiano. Um dos mais importantes sistemas reguladores da nossa vida.

Para quem nunca ouviu falar dele, o ritmo circadiano regula todos os ritmos materiais bem como muitos dos ritmos psicológicos do corpo humano, com influência sobre, por exemplo, a digestão ou o estado de vigília e sono, a renovação das células e o controle da temperatura do organismo.

O ciclo marca o período de aproximadamente 24 horas sobre o qual se baseia o ciclo biológico de quase todos os seres vivos, inclusive e principalmente o nosso, sendo influenciado principalmente pela variação de luz, temperatura, marés e ventos entre o dia e a noite.

Embora conhecido e de alguma forma estudado, foi após as pesquisas do trio laureado que o tema se tornou um campo de pesquisa vasto e altamente dinâmico, com implicações para a saúde e bem-estar. Desde então, têm servido de base para novas pesquisas, por exemplo para aqueles que se preocupam e trabalham com a questão do bem-estar e a produtividade no ambiente laboral.

A pesquisa apontou que os organismos vivos, incluindo os humanos, possuem um relógio biológico interno que os ajuda a antecipar e a se adaptarem ao ritmo regular do dia. Os pesquisadores conseguiram analisar internamente o sistema e explicar o funcionamento do relógio biológico. Suas descobertas esclarecem como as plantas, os animais e os seres humanos adaptam seu ritmo biológico para que seja sincronizado com as revoluções da Terra. Algo anteriormente de difícil aplicação.

A dificuldade de algumas pessoas de se adaptarem ao horário de verão, que foi extinto há alguns dias no Brasil, é um exemplo de como o sistema circadiano atua sobre nosso organismo. Até o galo que anuncia o amanhecer obedece a esse ciclo. Aliás, na avicultura, por exemplo, já se utilizam programas de luz artificial para intensificar e modificar o sistema de produção de ovos, dentre outras aplicações, há muitos anos.

Se esse sistema que nos regula, atua decisivamente sobre aquelas pessoas que viajam muito, principalmente a trabalho, em função dos problemas com os fuso-horários, imagina os que trabalham à noite ou que necessitam alternar turnos noturnos e diurnos.

Pelo que se sabe, os trabalhadores noturnos recebem pouca incidência de luz durante seu trabalho no turno da noite, mas quando sua jornada encerra e voltam para casa, ficam expostos a intensa claridade natural do dia. Nesse caso, o relógio biológico interno fica travado no padrão de claro/escuro dos trabalhadores diurnos. Para não embaralhar o sistema (e sofrer as consequências), a solução seria se esconder completamente da claridade do dia, o que se sabe, é praticamente impossível.

Segundo diferentes pesquisas, o principal efeito nefasto de brigar com o ciclo circadiano é que ele ativa seu “sistema de estresse”, que é como o corpo reage em uma situação de luta ou fuga. Ou seja, na prática não está acontecendo nada de anormal conosco, mas nosso sistema está entendo que estamos em perigo. Há consequências de curto, médio e longo prazos. Parece que as vantagens são mínimas.

Essa questão é tão séria que com o advento da inteligência artificial (IA) uma série impensada de possibilidades (boas e ruins) podem ser implantadas nos ambientes laborais, tanto para melhorar o ambiente em si, como para nefastamente aumentar a produtividade.

Em artigo recente na Harvard Business Review, edição brasileira, a manipulação do sistema, através do uso de algoritmos, foi um dos itens ventilados como a possibilidade de, por exemplo, ajustar constantemente a temperatura da cor da iluminação do seu escritório para que o sistema circadiano dos colaboradores pense que, em vez de final de tarde, ainda é de manhã.

Segundo o texto, a IBM entrou com pedido de patente para um sistema que monitora a força de trabalho com sensores capazes de acompanhar a dilatação da pupila e as expressões faciais, e utilizar dados sobre a qualidade do sono e o cronograma de reuniões dos colaboradores. Assim, seria possível acionar drones para levar aos colaboradores uma boa dose de bebida com cafeína para que a jornada de trabalho não seja interrompida com pausas para o café, por exemplo.

Parece que, após a invenção da lâmpada por Thomas Edison, que nos permitiu ficar acordados com claridade, a um custo muito baixo, estamos novamente num grande dilema de adaptação biológica em função das imensas possibilidades de monitoramento e estímulo para as pessoas, patrocinados pela IA.

Até a próxima.

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É professor, workshopper e palestrante – [email protected] originalmente publicado no Jornal A Tribuna – www.atribunamt.com.br

 

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