Sidney Leme de Souza: “Minha grande decepção é com os gestores, que não estão à altura da cidade”

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Dando prosseguimento à nossa série de entrevistas com pioneiros e pessoas que contribuíram com o crescimento de Rondonópolis, esta semana o nosso entrevistado é o empresário aposentado Sidney Leme de Souza, fundador da empresa Rondisbel, muito conhecida na cidade em outras épocas e que também foi um dos cidadãos mais ativos de nossa sociedade, tendo atuado por anos na direção do Lar dos Idosos e ajudado outras entidades.

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Ele chegou em Rondonópolis no início do seu boom econômico, ocorrido entre os anos de 1970 e 1980.

Prestes a completar 70 anos, Sidney Leme de Souza é natural de Sertanejo (PR), casado com dona Rosalina Cruz de Souza há 47 anos, com quem teve três filhos, avô de seis netos. Ele chegou em 1977, vindo de Maringá, com o intuito de dar um novo rumo à sua vida e a iniciativa deu tão certo, uma vez que permanece por aqui até hoje.

Sidney Leme: “quero continuar minha história em Rondonópolis” – Foto: Denilson Paredes

 

Formado em Administração, o pioneiro conta que decidiu vir para cá logo após se formar, aos 26 anos de idade. “Eu tinha um sonho de vir para Mato Grosso, porque meu pai gostava de pescar e caçar e ele tinha uma turma que vinha caçar e pescar em Mato Grosso. Ele falava daqui para mim, o que acabou despertando essa vontade de vir para cá. Naquela época, isso aqui tudo era mato, mas eu já imaginava que fosse uma região de progresso, que estava iniciando. Eu era novo, decidi arriscar um pouco e acabei vindo”, conta.

Nessa foto, podemos ver saudosa Maria do Bosco (com o microfone) no quintal da casa onde funcionou o primeiro asilo de idosos da cidade, que ficava em uma casinha cedida pela Rondisbel, bem na esquina da Bandeirantes com a Aeroporto

Sidney relembra que, inicialmente, viria apenas para conhecer a região, mas seus planos mudaram quando seu patrão, à época, resolveu lhe oferecer apoio financeiro para começar um empreendimento por aqui. “Eu não queria morrer sem conhecer o Mato Grosso. Aí, quando terminei a faculdade, eu trabalhava numa empresa que comprava cereais, principalmente feijão, no Paraná e mandava para São Paulo. Trabalhei com esse pessoal por uns dez anos, mas um dia eu pedi as contas e disse que viria para cá. Eles acharam que eu estava ficando louco, mas afirmei que tinha esse sonho e eu possuía um caminhão em sociedade com meu irmão. Aí, um dos meus patrões me perguntou ‘e se eu te ajudar?’ Eu respondi: ‘eu vou de qualquer jeito, mas com uma ajuda fica melhor ainda’, e aqui estamos até hoje”, rememora Sidney.

E foi assim que ele e a esposa vieram parar em Rondonópolis, que na época tinha uma boa produção de feijão, assim como toda a região. “Para mim, estava vindo inicialmente para conhecer, mas aí o seu Waldemar Possatto, um dos meus patrões, foi alugando casa, já comprou um terreno. Ele me disse que se fosse para ficar, tínhamos que ficar logo. Isso foi em maio, período que estava começando a colheita de feijão por aqui. Sei que entrei aqui pela primeira vez em 25 de abril de 1977 e em maio estava chegando aqui a minha mudança. Nessa época, já tínhamos uma menina de dois anos. Cheguei numa segunda-feira e estava um frio danado. No sábado, já mandei um caminhão de feijão para São Paulo. Foi o mesmo caminhão que trouxe a minha mudança”, relata.

Ele se lembra que, na época, a região toda tinha uma grande produção de feijão e que o ponto de convergência e negócios era a Praça dos Carreiros, para onde iam tanto os produtores quanto os compradores. “Naquela época, era uma fartura essa agricultura familiar. Não tinham grandes propriedades, eram só sítios, onde o pessoal derrubava o mato e já ia plantando. Era tudo colhido na mão. Eu comecei a comprar feijão na Praça dos Carreiros, onde todo dia de manhã chegava os caminhões da lavoura. A gente comprava e armazenava ali perto mesmo, onde eu já tinha um barracão. Na Avenida Cuiabá, a maior parte das construções era armazéns de cereais nessa época. Porém, eu mesmo só trabalhei aqui nessa safra, logo depois chegaram outras pessoas para cuidarem disso. Aí começamos a construir o nosso depósito e meu patrão falou para eu ir em Goiânia e comprar um caminhão de cimento. Dessa forma, começamos a construir e eu vendia cimento picado para as outras pessoas. Foi nesse período que fiquei sabendo da Antarctica, que estava com a representação à venda” em Rondonópolis.

 

O Lar dos Idosos, que Sidney Leme foi um dos fundadores e diretor até recentemente

 

Essa revenda de bebidas pertencia à duas senhoras de idade, dona Fausta e dona Nena, que não queriam mais levar o negócio adiante, o que despertou o interesse do empresário. “Eu falei com meus patrões e fomos estudar a viabilidade do negócio, e concluímos que íamos investir, que íamos comprar. Aí, eu voltei e fechei o negócio. Pagamos cerca de 800 mil cruzeiros e, em janeiro de 1978, eu assumi a Antarctica em Rondonópolis. Nessa época, faltava cerveja por aqui. Foi daí que disse para meus patrões que não queria mais ser empregado e passei a ser sócio do negócio. Eu vendi meu caminhão e uns terrenos que tinha em Maringá. Isso deu para comprar 15% da sociedade. Eu não me lembro qual era o nome que a distribuidora tinha, mas depois disso fomos pensar um nome e foi meu amigo José Carlos Garcia, jornalista, que me sugeriu o nome Rondisbel, que significa Rondonópolis Distribuidora de Bebidas Ltda, que não existe mais hoje em dia, mas ainda tem o CNPJ ativo”.

Ele conta que a Rondisbel funcionou, inicialmente, na Avenida Cuiabá, região central da cidade, antes de se mudar para o prédio que a notabilizou, na Avenida Bandeirantes. “Foi uma loucura, pois começamos em janeiro e como havia mais procura que produtos, o que chegava acabava, e assim fomos ganhando mercado. Foi um crescimento absurdo, que durou até nos anos 2000, quando paramos. A Rondisbel chegou a ter mais de 100 funcionários no seu auge, tínhamos 70 caminhões. Nós atendíamos a região toda. Foi nesse período que Rondonópolis começou a receber os primeiros plantadores de soja e nós crescemos juntos com a cidade. Nós fizemos parte do grande boom de Rondonópolis e construímos bastante coisas por aqui e demos bastante empregos”, atesta o pioneiro.

 

Foi no ano de 1980 que a empresa se mudou para a Avenida Bandeirantes, onde permaneceu até até ser desativada. Uma outra iniciativa do empresário foi a criação do Parque da Antarctica (na saída para Poxoréu], construído com a ideia de ser um local de lazer para funcionários, clientes e a população da cidade. “Foi ideia minha e do Roberto Possatto (sócio), que hoje em dia toca o Rios Hotel. A nossa ideia era termos uma área de lazer da Rondisbel. Como eu e o Roberto jogávamos bola, construímos um campo de futebol lá, que nós emprestávamos para a cidade. E teve naquela época muitas provas de bicicross e motocross. Lá também tinha um salão de festas. Muita gente passou por lá, que era muito movimentado. Dessa época, me lembro muito das provas de motocross que o Carlinhos (Jovino) corria lá e sempre ganhava”, comentou.

 

Nessa foto, do ano de 1994, o pioneiro Sidney Leme recepcionando intercambistas do Rotary

 

No seu auge, os sócios da Rondisbel tiveram a ideia de diversificar um pouco os investimentos e, ainda em 1986, o pioneiro e seus sócios começaram a construir o prédio que hoje é o Rios Hotel, que foi todo custeado com recursos próprios, um dos melhores da cidade.

Nesse tempo todo, Sidney Leme sempre teve uma atuação muito forte na área social, que credita à sua formação religiosa. “Eu cheguei em 1977 e, no ano seguinte, comecei no Cursilho da Igreja Bom Pastor, tanto eu quanto minha esposa nos envolvemos muito com isso. Em 1982, eu entrei no Rotary Clube de Rondonópolis Leste e já tínhamos comprado aquela área na Bandeirantes, onde havia uma casinha feita de adobe, que não usávamos, bem na esquina da Bandeirantes com a rua Aeroporto. A dona Maria do Bosco [já falecida] nos pediu para usar aquela casa para servir de abrigo para idosos. Nós emprestamos para ela e, logo em seguida, surgiu no Rotary e também na prefeitura a ideia de construir um asilo para idosos, o que acabou acontecendo algum tempo depois. O Rotary realizou uma campanha para arrecadar os materiais e a prefeitura entrou com a mão de obra”, disse Sidney Leme.

Foi daí que surgiu o Lar dos Idosos Paul Percis Harris, que até hoje abriga os idosos da cidade, do qual o pioneiro foi diretor por vários anos, tendo deixado de lado essa militância há pouco tempo. “Eu fiquei na diretoria até 2012. Aí falei chega, não quero mais. Eu acho que é uma coisa de Deus. Vem da minha formação cristã e eu me envolvi muito nisso. Não tenho inimizades e agradeço muito a Deus. Agora, vou ajudar a fundar a Pastoral do Idoso, que é onde pretendo ajudar, até para dar um retorno a tudo que Deus me deu. Nunca tive essa ambição por riquezas, sempre quis viver bem e dar condições dos meus filhos estudarem, mas além disso, o que quero é viver simplesmente, ter tranquilidade e ajudar os outros”.

 

Sidney Leme de Souza conclui afirmando que a sua grande decepção é com os gestores, que não estão à altura da cidade. “Eu gosto muito do povo, dos empresários. Aqui é a cidade que somos hoje graças às pessoas e aos empresários. Eu critico muito os políticos, que não correspondem ao mínimo do que se espera deles. Se soubessem usar os empresários, Rondonópolis seria a melhor cidade do mundo. Esse prefeito que temos, para mim, não merece ser prefeito da cidade. Ele não tem competência administrativa e é contra os empresários, que são quem dão emprego, gera impostos. Eles querem ajudar, mas o prefeito não abre espaço para o diálogo. Mas o meu projeto é ficar por aqui mesmo. Quero continuar minha história em Rondonópolis e é aqui que tenho raízes e quero retribuir isso tudo”, concluiu.

2 COMENTÁRIOS

  1. O ultimo paragrafo da materia contem um relato de extrema importancia, pois denuncia um dos entraves economicos de Rondonopolis -a politica. Parabens ao Sr Sidney pela coragem e lucidez, e que sirva de exemplo para que o empresariado, unido, lute contra a má gestão publica, juntamente com a imprensa e o MP. Nenhum prefeito é mais forte que estas 3 entidades juntas.

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