A verdadeira golden shower

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(*) Dr. Luís Otávio

O Brasil passa por um momento de transição que já dura quatro anos em que a economia se encontra em grandes dificuldades, com elevado desemprego, baixo crescimento econômico e queda nos investimentos públicos.

Essa situação pode ser sentida na vida dos brasileiros no dia a dia, como na dificuldade de se encontrar uma oportunidade de emprego, no sofrimento de se não obter tratamento de saúde para um ente querido, ou na impossibilidade de se alcançar o sonho da casa própria.

Contudo, essa realidade difícil não é compartilhada por todos em nosso país. Um setor em especial passa por um período de grande lucratividade e condições invejáveis em meio à crise brasileira. Esse setor é o mercado financeiro, ou seja, os bancos e demais organizações que atuam na atividade de intermediação de moeda (dinheiro).

Por exemplo, dados de estudo apresentado pelo presidente da Febraban – Federação Brasileira dos Bancos (1), indicam que a rentabilidade do setor no Brasil é a segunda maior do mundo, sendo superada apenas pelo Chile.

Outra informação pouco conhecida, é que o Banco Central possui um mecanismo chamado “operação compromissada” que são transações de recompra pela taxa Selic de títulos públicos. Os bancos as utilizam para enxugar seu caixa com risco zero e segurança total. Caso uma instituição bancária tenha recursos líquidos em caixa, ela pode realizar uma compra de títulos públicos com recompra assegurada pelo Bacen.

Assim mesmo, sem precisar esquentar a cabeça, e o maior absurdo, o prazo médio dessas operações é de menos de uma semana! O valor dessa brincadeira para o Bacen (ou seja, nós todos) é de 1,3 trilhão pela posição de abril de 2019 (2).

Penso que essas informações não devam ser espantosas ao leitor que já teve a experiência de arcar com o custo dos juros pagos em operações de cartão de crédito, cheque especial, ou o crediário na compra de um eletrodoméstico.

Mesmo em financiamentos mais longos, como na aquisição de um automóvel e uma casa própria, percebemos que ao final de sua quitação, poderíamos ter adquirido com o valor pago, dois carros ou uma residência muito maior, caso tivéssemos adquirido o bem à vista.

Qual seria a causa dessa situação em que os brasileiros já parecem ter se resignado? De forma bem simples e direta, posso afirmar que é consequência de uma decisão política. Ou seja, não é uma condição imposta pelos fundamentos da economia brasileira, ou deficiências de nosso país, que impeçam de ser alterada.

Pelo contrário, em vários aspectos, a nossa economia já apresenta características muito melhores as de diversos países que possuem sistemas financeiros que cobram taxas de juros menores aos seus cidadãos.

Quem duvida que o Brasil possui condições econômicas melhores a de países africanos, ou de várias nações irmãs latino-americanas? Será que o México e a Argentina são tão melhores assim que o Brasil? A Colômbia, país que ainda sofre de um conflito interno com guerrilhas não resolvido, apresenta nível de risco inferior ao nosso?

Realmente, o argumento do risco de se emprestar no mercado brasileiro, proposto pelo mercado financeiro, é difícil de aceitar.

Então, se a causa não é estrutural, o que estaria por trás dessa realidade tão pouco discutida pela imprensa, ou mesmo nas mídias sociais?

A resposta é simples: principalmente porque não interessa aos bancos emprestarem para as pessoas físicas e empresas, pois obtêm retornos muito vantajosos pagos pelo setor público, sem risco algum.

Ou seja, os bancos não querem emprestar! Nas condições atuais, só se torna interessante emprestar, quando os clientes aceitam arcar com custos de agiotagem, em suas operações de crédito.

Por fim, gostaria de passar a mensagem que o Brasil pode e tem condições de enfrentar esse problema com maturidade. Discutir as funções e a importância do sistema financeiro na economia, não significa o apoio a medidas populistas, ou o descontrole inflacionário.

Pelo contrário, a situação atual só gera atraso e subdesenvolvimento: uma verdadeira golden shower de riqueza aos bancos e de miséria aos mais pobres.

 

(1) Portugal, Marcelo. “Inovação e Competição: Novos Caminhos para Redução dos Spreads Bancários?”, FEBRABAN: Apresentações, Estudos e Análises online, Abr. 24th. Disponível em: 2018.https://portal.febraban.org.br/pagina/3141/26/pt-br/apresentacoes-setor-bancario

(2) Banco Central do Brasil. Tabelas especiais: composição da dívida líquida do setor público: Disponível em:https://www.bcb.gov.br/estatisticas/tabelasespeciais

 

(*) Dr. Luís Otávio Bau Macedo, professor Associado, Universidade Federal de Rondonópolis, Curso de Economia

 

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