Você e a cara da paisagem

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21/05/2019 – Nº 535 – Ano 13

(*) Eleri Hamer

É uma das expressões que eu mais gosto. Além de prática engraçada em diversas ocasiões, pode revelar muito da nossa personalidade e da capacidade de interpretar de cada um. Sem falar que tem grande utilidade prática, principalmente no campo da negociação e das relações sociais.

Mas garanto que fazer cara de paisagem não é para qualquer um. Muitos simplesmente não conseguem, por mais que se esforcem, e outros vivem com ela estampada diariamente no rosto: tornando-se praticamente sua característica principal.

Em síntese, cara de paisagem, é uma figura de linguagem (de palavra) para descrever quando um sujeito, embora devesse manifestar alguma expressão facial sobre uma determinada situação que evidentemente lhe fiz respeito, simplesmente não mexe um músculo do rosto, ‘como se fosse uma paisagem’.

Me atrevo a dizer que quem não consegue fazer cara de paisagem pode enfrentar sérios problemas no ambiente social. É item relevante nas relações sociais atuais, marcada pela insolência, o atrevimento e a bisbilhotice da vida alheia.

Fazer cara de paisagem pode ser um excelente aliado. Aliás, sempre foi importante. A começar quando alguém tenta menosprezar você. Fazer de conta que não é contigo, simplesmente ignorando, como um blefe (mesmo que aquilo te incomode muito), pode ser uma excelente resposta. E frequentemente irrita mais o abusado interlocutor do que uma resposta direta.

Algumas pessoas nascem com essa habilidade. Muitas crianças fazem traquinagens e quando descobertas no imbróglio, dão aquela olhadinha em volta, como quem está procurando saber o que aconteceu ou de que não sabe o que está acontecendo, de que simplesmente não é com elas ou ainda de que nada aconteceu mesmo.

Tenho um amigo, excelente profissional, que tem essa capacidade inconteste. Você conta uma situação importante, vai evoluindo na história, com os detalhes, e ele só pisca. Expressão reveladora que é bom, nenhuma. Você nunca sabe o que ele está achando daquilo até ele abrir a boca e noticiar verbalmente o que ele pensa ou a eventual opinião que você solicitou.

Mas de antemão, à medida que se conta a história, você não tem a mínima ideia do que ele vai dizer. Muitas vezes até parece que está concordando contigo ou alinhado com a situação, mas quando se manifesta, é o oposto. Nenhuma opinião é confiável de antemão para quem tem essa habilidade. É melhor esperar eles dizerem inequivocamente.

Saber fazer isso é uma grande qualidade. Quem nunca se viu frente a um grande negócio e uma excelente oportunidade e teve de fazer cara de paisagem para que o interlocutor não percebesse sua alegria e satisfação (e você acabasse perdendo tudo)?

Ou o contrário. Não estava preparado e esperava bem menos na oferta e não se aguentou quando a satisfação era tanta que soltou um sorrisão, ou pior ainda, uma efusiva manifestação verbal, estragando um negócio? Perdeu por não conseguir fazer cara de paisagem.

Posso garantir que ela é muito útil na vida. Principalmente quando você encontra um chato num evento, numa fila ou numa antessala, que teima em contar algumas histórias que você não tem o menor interesse em saber ou te convencer de algum ponto de vista esdrúxulo (normalmente sobre política, religião ou futebol).

Garanto que não tem nada que espanta mais chatos que cara de paisagem. Eles detestam quando não conseguem impressionar o interlocutor. Mais que isso: quando não conseguem sequer criar interlocução. É como se aquilo que apresentam e argumentam (sempre efusivamente) não tivesse a menor importância para você. Isso é a morte para um chato.

Está mais que provado que podemos aprender quase tudo nessa vida. Até cara de paisagem. Então, se você tem dificuldade em fazer uma quando é necessário, comece a treinar agora. Vai ser muito útil. Posso garantir.

Até a próxima.

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É professor, workshopper e palestrante – [email protected]

 

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