Para ter opinião e não ser bobo da corte

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14/05/2019 – Nº 534 – Ano 13

Ter uma ideia ou um conceito sólido sobre algo pode levar muito tempo (normalmente leva), além de tenacidade, para ser construído. Porém, poucos reservam, ou se interessam em reservar, esse tempo necessário para buscar informação e criar conhecimento suficientes para só então ter (e principalmente emitir) uma opinião segura sobre determinado tema.

A maioria prefere passar vergonha nas redes sociais a buscar efetivamente conhecer a essência de um determinado assunto. E por incrível que pareça são justamente temas complexos e polêmicos, que envolvem uma diversidade de fatores e são praticamente inconclusivos, que são discutidos à exaustão da inteligência dos demais, como se fossem simples e evidentemente irrefutáveis. Os que não concordam ou possuem opinião dissonante, são tachados de ignorantes. Uma ironia redundante, claro.

A obviedade simplista dos temas é de desanimar o mais cauto dos leitores. Ocorre que os mecanismos tecnológicos de interação fizeram com que mesmo os que não demonstram a menor capacidade de análise holística ou ainda os que não se dão ao luxo de aceitar o debate são agora capazes de emitir sua opinião em larga escala.

Devemos considerar que há pelo menos um aspecto positivo nesse sentido: de que o ambiente se tornou mais democrático. Essa possibilidade de emitir opinião na arena em que muitos pudessem encontrá-la é algo que antes apenas era possível para os que possuíam acesso aos meios tradicionais de comunicação que, por sua vez, filtravam e requeriam demonstrações de conhecimento para torná-las públicas.

Agora, contudo, o debate se estabelece no nível raso e superficial, dado que poucos leem e estudam o suficiente para encontrar a essência. Pouquíssimos tem ou guardam tempo para estudar pontos de vista, ideias e posicionamentos complexos. Estamos na era dos textinhos e das manchetes.

Muitas vezes somos enganados apenas pelos destaques das notícias.

Livros de epistemologia desses assuntos, para determinar seus fundamentos lógicos, seu valor e sua importância objetiva, são raridade. A maioria pensa que entende de qualquer coisa apenas rodando as opiniões das redes sociais.

O problema começa por aquilo que essas pessoas leem (ou aceitam ler) ou assistem. A maioria delas apenas consome aquilo que lhes é oferecido, como um cardápio pronto. Explicando melhor, fazemos parte de diferentes redes de conexão integradas e notadamente em função desse círculo, nos são enviadas notícias (verdadeiras e falsas) sobre os temas com os quais já coadunamos.

Normalmente de amigos ou de estruturas de trabalho que capilarizam pontos de vista consonantes. Isso nos agrada e assim apenas vamos replicando os conceitos de outros, não o nosso próprio, já que em nenhum momento colocamos eles em cheque.

Existe uma lógica perversa por trás disso, já que existe uma relativa satisfação (mas falsa realidade) em perceber que os demais também concordam com nossos pontos de vista.

Inconscientemente manifestamos uma leniência mental (moleza e desinteresse) em questionar justamente as opiniões que não sejam contrárias.

Na prática nos agrada principalmente se o conteúdo já estiver em conformidade com aquilo que acreditamos ser nossa verdade. Se for algo contraditório, a maioria rebate, descaracteriza ou ignora.

Perde-se a oportunidade de criar efetivamente a ‘sua opinião’ e não apenas replicar a dos demais.

Ser apenas consumidores daquilo que nos oferecem é ficar à mercê dos mecanismos de inteligência artificial dos meios de comunicação e das redes sociais, utilizadas exaustivamente pelo marketing, e principalmente a serviço das nossas bolhas de informação que obviamente possuem viés.

Por isso, assim como precisamos ter vergonha para ‘passar vergonha’ é necessário que tenhamos nossa própria opinião para só então sermos capazes de mudá-la (só muda de opinião quem tem uma).

Se você não quer ser um ‘bobo da corte’ comece a buscar informação e conhecimento, analisando as opiniões que te façam sair da zona de conforto intelectual. Vai perceber que se você não se tornar mais inteligente pelo menos vai parecer.
Até a próxima.

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É professor, workshopper e palestrante – [email protected] – www.linkedin.com/in/elerihamer.

 

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