Estudantes debatem sobre violência contra mulher através da leitura de poemas em inglês

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Alunos expõem os resultados das atividades desenvolvidas por meio do projeto – Foto – Divulgação

A Escola Estadual Professora Stela Maris Valeriano da Silva, no Residencial Edelmina Querubim, iniciou o ano letivo de 2019 com uma nova proposta educativa. Na semana pedagógica, os docentes reavaliaram o Projeto Político Pedagógico (PPP), junto à coordenação, a fim de discutirem novas metodologias. Durante este ano, os projetos que a escola pretende executar tem como objetivo principal estimular o protagonismo das crianças e dos adolescentes. Diante disto, a professora de Língua Inglesa, Patrícia Alves Santos Oliveira, vem desenvolvendo suas aulas na perspectiva do Letramento Crítico, adotando um gênero textual para cada bimestre. Neste primeiro, com as turmas de ensino Médio, o foco tem sido o gênero poema.

Tendo em vista os índices alarmantes de violência contra mulher no estado do Mato Grosso e, respectivamente, no município de Rondonópolis, Patrícia adotou como obra o livro da escritora indiana Rupi Kaur, cujo título é “Honey and Milk”, traduzido como “Outros jeitos de usar a boca”. Nele, a autora faz uma divisão de capítulos intitulados: “a dor; o amor; a ruptura; a cura”. Com uma linguagem poética e muito perspicaz, Rupi Kaur aborda as violências que as mulheres são acometidas nas mais diversas partes do mundo. Como a escola não possui exemplares do livro, a professora disponibilizou nos grupos de whats app das turmas o arquivo em PDF, para que os estudantes pudessem ler em seus aparelhos de celular.

É importante ressaltar que os estudantes estão lendo o livro em inglês, para isto, eles buscam o auxílio do google tradutor e de dicionários. Na aula, a professora trabalha os aspectos da língua de maneira contextualizada e realiza rodas de conversa a partir dos poemas escolhidos pelos educandos. Pensando em uma avaliação que possibilite as diversas competências e habilidades, a proposta é de que eles produzam cartazes em grupos com os poemas da Rupi, acompanhados de imagens de mulheres vítimas de violência, assim como construam apresentações culturais que serão expostas na escola.

O trabalho com o respectivo livro terá duração de um bimestre, culminando em diferentes ações, a primeira delas acontecerá nesta sexta-feira, dia 08 de março de 2019. Será montada uma sala temática com o objetivo de expor os trabalhos em formato de galeria, o ambiente receberá visitação de toda comunidade escolar, a fim de que possam apreciar os trabalhos e, ao mesmo tempo, façam reflexões críticas acerca das violências de gênero. O intuito é, através do ensino/aprendizagem de Língua Inglesa, combater toda e qualquer forma de discriminação, dentre elas as violências de gênero. Esta intervenção pedagógica ganha legitimidade, uma vez que, de acordo com fontes jornalísticas, moramos no estado que ocupa a 4° posição no ranking nacional no número de feminicídios.

Os depoimentos dos educandos evidenciam o quanto aprender inglês e ao mesmo tempo discutir temas que fazem parte do cotidiano, têm sido significativos para eles. Alexandre Nascimento (18 anos): “de acordo com os poemas da Rupi Kaur e com nossas aulas eu pude ver que as mulheres sofrem sim violências, diferente do que muitos dizem, sinceramente acho que essas pessoas que dizem isso deveriam ler um pouco mais de livros como o da Rupi. As pessoas só conhecerão a dor da outra quando passarem pela mesma, espero que um dia isso mude”. Aline Vitória (16 anos) relatou: “as aulas de inglês têm sido bastante importantes no nosso processo de conscientização coletiva, além de aprendermos a língua, debatemos a respeito de gênero, sexualidade e principalmente a mulher na sociedade. Abordamos a importância da mulher, a desigualdade de gênero, o quão objetificada e martirizada ainda é a mulher hoje”.

No mesmo viés, Jhenifer Rodrigues (16 anos) disse: “a Rupi passa a mensagem para as mulheres não dependerem de homem nenhum, que elas podem ser o que quiserem e não dependendo de homem para ser feliz. Podemos usar a roupa que queremos sem que isso dê o direito de olhar nosso corpo com malícia”. Fabiana Vitória (15 anos) complementou, dizendo: “eu estou achando muito importante, pois é um tema que normalmente os professores não abordam e a professora trouxe essa autora maravilhosa que se expressa através de poemas. É um tema que nós, alunos, não falamos muito e, através dessa autora até os meninos estão tomando mais conhecimento sobre as violências que nós meninas passamos”.

Durante as aulas, meninos e meninas têm participado dos debates, exposto suas dúvidas, opiniões, sempre prezando pelo direito de fala e da livre expressão de pensamento. Sendo uma amante da Educação e, consciente do direito de fala das crianças e adolescentes, Patrícia busca em suas aulas conscientizar que todos têm o direito de existir como são, independente de gênero, sexualidade, raça, classe social e/ou religião. A mesma acredita que apenas por meio de práticas pedagógicas democráticas, críticas e reflexivas podemos ter esperança de um mundo menos violento para as mulheres e outras minorias politicamente organizadas.

Por Patrícia Alves Santos Oliveira, com graduação em Letras/Inglês pela Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT, mestranda no Programa de Pós-graduação em Educação – PPGEdu/UFMT/CUR, e pesquisadora das temáticas de gênero, sexualidade, infância e religião com ênfase na Educação.

2 COMENTÁRIOS

  1. Uma iniciativa dessa, não poderia partir de outra profissional da educação, Professora Patrícia Mulher inspiradora de luta e guerreira, mais uma vez fazendo a diferença por onde passa, da mesma maneira que fez quando tive o privilégio de ser sua aluna, me acrescentou coisas que levarei para a vida!

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