Prosseguindo com a série de entrevistas do Jornal A TRIBUNA com pioneiros e pessoas que foram importantes na história de Rondonópolis, trazemos hoje uma entrevista com o pioneiro do Judô, Manao Ninomyia, que ensinou os rudimentos da arte marcial oriental para gerações de rondonopolitanos, sendo muito respeitado por isso, já que, além de ensinar a lutar e se defender, o agora ancião sempre procurou dar bons ensinamentos para seus alunos.

Hoje em dia aposentado, Manao Ninomyia não abandonou o tatame e continua dividindo seus ensinamentos com os jovens, mostrando uma disposição e alegria invejável em continuar praticando e difundindo o esporte e a sabedoria oriental.


Foto: Denilson Paredes

O japonês Manao Ninomyia, hoje com 76 anos, nasceu no estado de Totigi-ken, localizado ao norte de Tóquio e distante cerca de cem quilômetros da capital japonesa. Filho de agricultores, ele veio ainda jovem para o Brasil e, depois de algum tempo, acabou conhecendo Rondonópolis, no ano de 1971, onde se fixou, casou, teve filhos e construiu a sua história de vida.

Casado, pai de quatro filhos e avô de três netos, com seu modo respeitoso e calmo, característico dos orientais, seu Manao faz questão logo no início da nossa entrevista de deixar claro de que, apesar de viver há décadas no Brasil, ainda não domina muito bem o idioma local. “Às vezes meu português você não entende não”, diz o pioneiro, que apesar da dificuldade com a língua, consegue se expressar muito bem.

Ele começa contando que veio parar no Brasil por influência de um amigo, que o instigou a conhecer outros países, mas confessa que a ideia original era viajar com esse amigo para conhecer os Estados Unidos, mas como tiveram dificuldades para obterem o visto de entrada no país, que ainda não via com bons olhos os nipônicos, ainda em consequência da Segunda Guerra Mundial, quando os dois países foram inimigos. Foi então que surgiu a ideia e a oportunidade de virem para o Brasil, mas a princípio para ficarem apenas por um tempo, para conhecer uma cultura diferente, mas ele acabou gostando daqui e adotando o país como sua nova pátria.

Nessa foto, o pioneiro do judô aparece ao lado de diversos de seus alunos. No extremo da direita, está seu filho e sucessor no judô, Kazuo Ninomyia – Foto: Arquivo Pessoal

Antes de vir para o Brasil, Ninomyia trabalhava como policial em Tóquio, e a sua viagem, que foi de navio e durou 43 dias, foi facilitada por uma igreja católica que atuava no Japão e estimulava que japoneses imigrassem para o Brasil. “Quem quisesse imigrar para o Brasil tinha que entrar por um ano na escola deles, para aprender (sobre a) Bíblia. Porque, isso era engraçado, o diretor dizia para todos que se viessem para o Brasil e não conhecessem a Bíblia, brasileiro chamava de porco. Porque brasileiro é católico e precisava aprender um pouco da cultura”, contou, sempre com seu jeito característico de falar.

Nessa escola, ele ficou por dez meses antes de entrar no navio que o traria para o Brasil. Aqui, ele desembarcou no Porto de Santos, onde a pessoa que seria seu primeiro patrão em terras tupiniquins já o aguardava. “Só para o Brasil vieram quarenta. Para a Argentina vieram oitenta e para o Chile e Peru também veio. Dali, o patrão me levou para Mogi das Cruzes, onde tinha terra e plantava verduras. Eu saí de lá (Japão) em 31 de dezembro de 1967 e só cheguei aqui em 1968”, conta, em tom divertido.

Esse relembra que esse seu patrão era diretor de uma escola agrícola e foi o responsável pela introdução do tomate caqui no Brasil. Nesse emprego, o jovem Manao Ninomyia ficou por dez meses, quando partiu para São Paulo, onde sobreviveu por algum tempo vendendo anúncios para um jornal escrito em japonês e voltado para a comunidade nipônica.

Nessa foto, do ano de 1994, o mestre Ninomyia e dois de seus alunos recebendo homenagem na cidade de Penápolis (SP) – Foto: Arquivo Pessoal

Ainda em Mogi, Ninomyia teve contato com o judô no Brasil, arte marcial que já praticava desde o Japão e era faixa preta de terceiro Dan. Já em São Paulo, ele acabou conhecendo uma academia de judô, onde ia treinar e aos poucos foi conquistando a confiança do dono da academia, de quem se tornou uma espécie de ajudante, tendo ficado responsável pela administração da academia por seis meses, quando o dono da mesma foi em férias para o Japão.

Nesse período, um conhecido lhe ofereceu um emprego numa fábrica de remédios, mas, para que assumisse a vaga, ele precisava ter a Carteira de Trabalho, documento que ainda não possuía. Como o documento demoraria pelo menos 30 dias para lhe ser entregue, ele decidiu visitar um amigo japonês que tinha um restaurante chinês em Campo Grande (MS), onde ele dormia e ajudava nos trabalhos.

“Ele também gostava muito de judô e me levou para o Clube Nipo Brasileiro de lá, onde o pessoal treinava judô. Lá, ele me pediu para ajudar na academia até passar os 30 dias. Como lá não tinha (professor de judô) graduado, só tinha primeiro Dan, faixa preta, comecei a ajudar treinando as crianças. Quando completou meu prazo, a diretoria do clube me pediu para continuar e me ofereceu um salário, dizendo que queriam formar a federação de judô no estado e eles precisavam de alguém de pelo menos terceiro Dan. Eu falei que não tinha como, porque não era brasileiro, não tinha documento. Mas eles disseram que davam um jeito e eu aceitei”, contou.

Nessa foto, o mestre Ninomyia aparece ao lado do também professor de judô, Robério Libânio Duarte, que foi seu aluno, e outros dois ex-alunos – Foto: Arquivo Pessoal

Ele retornou a São Paulo para retirar sua Carteira de Trabalho e, de volta a Campo Grande, começou a ensinar judô. “Eu fiz contrato só de um ano porque tinha prometido para a família que só ia ficar por dois anos no Brasil. Depois disso, tinha que voltar. Mas depois gostei de Campo Grande, das pessoas, de tudo, e queria montar academia para mim com um amigo. Mas isso provocou o ciúme do pessoal do Nipo e eles não gostaram, pois os pais de alunos todos diziam que iam levar os filhos para treinar na academia do Ninomyia. Como eram muito fortes, eu falei que não ia montar academia lá. Mas treinava comigo uma pessoa chamada Ibrahim Zaher (irmão do ex-vereador Mohamed Zaher), dono da Chevrolet aqui. Me falou ‘professor, vamos lá em Rondonópolis. Eu ajudo’, e eu vim para conhecer e se gostasse, dizia que podia ficar”, continuou.

Nessa foto, o pioneiro do judô aparece ao lado de sua neta Midori, também praticante do judô – Foto: Arquivo Pessoal

Foi assim que o pioneiro chegou na Terra de Rondon, que na época tinha cerca de 30 mil habitantes entre zona urbana e rural. “Na época, tinha uma academiazinha que um professor que não era faixa preta estava dando aula. Eu disse que ia vê-lo e se ele desse aula direitinho, eu ia embora. Quando fui ver, ele nem cumprimentou assim, como professor, e eu não agradei com ele não. E ele não agradou comigo também. Pensou que eu vinha aqui para roubar. Ele não entendia judô e também não conseguia ensinar. Aí, decidi ficar e Ibrahim montou academia em frente da Caixa D’Água”.

Ninomyia conta que logo se formou um grupo de pessoas interessadas em praticar judô sob sua orientação, e dessa forma ele começou sua história em Rondonópolis. Ele já começou a ensinar judô com 70 alunos a partir dos 7 anos de idade. Algum tempo depois, o seu apoiador Ibrahim acabou retornando para Campo Grande, mas nessa altura o japonês já conhecia muitas pessoas, que o ajudaram a continuar ensinando judô na cidade.

“Só do Banco do Brasil, tinha 18 que treinavam judô comigo. Tinha o Joel, Manfred, o Koiki. Eles me ajudaram muito. Era pessoas boas, dava para conversar com elas. Depois, em 1974, criamos a Associação de Judô e Cultura Física de Rondonópolis, porque Cuiabá queria fundar federação e precisava ter pelo menos três associações. Tinha a daqui, de Cuiabá e da Escola Técnica. Nessa época, nosso presidente era o doutor Vanderlei Garcia, que já é falecido, que foi presidente muito tempo”, rememorou. Nesse período em Rondonópolis, Manao Ninomyia ensinou judô para muita gente, mas também aproveitou para evoluir na arte marcial, tendo chegado ao nono Dan, um degrau abaixo do ponto máximo que todo judoca pode atingir, que é o décimo Dan.

Sobre Rondonópolis, Ninomyia diz ter se adaptado muito bem à cidade, já que era do mesmo porte de sua cidade natal e mais ou menos do mesmo tamanho que Mogi Mirim. “Eu achei normal, do mesmo jeito que outras cidades do Brasil. Era pequeno e eu não assustei. Não tinha asfalto, não tinha nada. Só Marechal Rondon, Amazonas e Cuiabá que tinha aquelas pedras (paralelepípedos). Eu nasci em fazenda, trabalhei em sítio. Então, para mim não foi problema viver aqui. Aqui é muito bom, por isso que não saí daqui. Eu gostei daqui, gostei das pessoas desde que cheguei. Ainda é muito ruim até hoje, mas foi aqui que aprendi português”, declarou.

Sobre o judô, Ninomyia diz, convicto, que a prática é muito mais que uma arte marcial que ensina a lutar e se defender. “O judô tem que ensinar a ser cidadão brasileiro. E não tem ninguém melhor que ninguém, que é mais ou menos que esse ou aquele. Tem que ajudar a criança até chegar a cidadão, porque depois de adulto não dá de mudar, mas até chegar nessa idade, tem que ir criando cidadão. Não é só luta. Cada criança que vira cidadão, é uma vitória sua. Sempre falei para as crianças: estudem, ajudem em casa. Pode largar um pouco o judô na época de provas, mas estude”, ensinou o mestre.

Como nunca encarou o judô como uma profissão, Manao Ninomyia tocou por muitos anos uma quitanda de verduras na cidade, primeiramente na Avenida Amazonas, próximo de onde hoje é a escola EEMOP, onde ficou por dois anos, quando se mudou para a Avenida Cuiabá, onde ficou por cerca de cinco anos, ao mesmo tempo que ensinava e praticava o judô.

Foi aqui em Mato Grosso que ele conheceu a mulher com quem se casaria e teria seus quatro filhos, dona Mitsuko Sato, que na época morava em Cáceres e que o pioneiro conheceu graças ao beisebol, esporte muito popular entre os japoneses. “Nessa época, aqui tinha um time muito bom, assim como Cuiabá e Cáceres. Ela era japonesa também, mas nasceu no Brasil. Então, a gente viajava para jogar, passear e conheci ela. Gostei dela e depois, casamos lá em Cáceres e viemos para cá e estamos até hoje casados”.

Já aposentado, o pioneiro diz que o valor que recebe é muito pouco e insuficiente para o seu sustento, o que o leva a ter que continuar ensinado judô e fazendo massagens, que ele aprendeu ainda no Japão. Tradicionalista, ele critica a adoção de kimonos coloridos no judô, o que no seu entender diferencia os judocas, o que contraria a sua maneira de entender a arte marcial, já que considera todos iguais no tatame. “Hoje, tem kimono azul, mas kimono de judô é branco. Hoje, aluno não sabe nada de judô, só sabe lutar. Professor também. Isso que está faltando e me preocupa. As entidades, como as federações, precisam melhorar o judô, que está caindo muito. Meus alunos continuam aprendendo no nosso sistema”, externou.

Sobre a cidade que adotou para viver, ele declara que gosta dela da mesma forma que gostou quando pisou os pés aqui pela primeira. “Não é porque cidade cresce que podemos falar que ela é melhor. Não é porque a cidade cresce que você vive melhor. Para mim, tanto faz, mas antigamente, você ia no banco, andava na rua, e todo mundo te conhecia. Hoje em dia, nem te cumprimentam. As pessoas mudaram e cada vez pensam mais no individual. Não querem conversa. Esta parte mudou bastante, mas quando era todo mundo pobre, estava todo mundo feliz. Faltava açúcar, arroz, mas todo mundo emprestava. Hoje não tem mais isso. Mas eu continuo feliz aqui”, encerrou.

4 COMENTÁRIOS

  1. Sensei Ninomyia não ensina só Judô,ensina a base para construção de uma personalidade cidadã. Ensina que os direitos são conquistados à medida que os deveres são cumpridos.

  2. Parabéns ao jornal pela entrevista uma homenagem a este grande professor ,seus ensinamentos me são úteis até hoje sunsei Manao uma lenda em Rondonopolis ossss

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