Ontem, entendi como funciona a mente de uma criança: tive uma epifania e tentarei descrevê-la. Começo com minha filha: com 1 ano e 7 meses, ela demonstra grande capacidade de comunicação e léxico variado e adaptável a diferentes campos semânticos. Você talvez pense “qualquer criança faz isso!”: ledo engano. Sequer todos os adultos o fazem, perdidos que estão dentre jargões da linguagem da mídia.

O marco do desenvolvimento infantil dos 2 anos é a formação de frases de até três palavras: minha filha já o fazia aos 17 meses, quando disse pela primeira vez “agá mema bebel” (tirar meia Anabel – ou “tirem a minha meia”). Há poucos dias, ela disse “Ó lelei sentada dento papai áoro mama caca” (Vó Marlei sentada dentro papai Lauro mamãe Carla – ou “vó Marlei, vem sentar aqui no pátio conosco”). Ou seja: aos 19 meses, uma frase de 8 palavras e campo semântico de dentro adaptado para aqui.

Não lido com outras crianças – me faltam parâmetros práticos – e creio que marcos teóricos servem apenas como sinais de trânsito, orientando o caminho daquelas que tendem a se perder. Que fazer com crianças que saltam na frente? Não me refiro a superdotados ou gênios em potencial, mas às que não se incluem nos 95% do grupo ‘normal’, posicionadas na dianteira do desvio-padrão. Aí começa a epifania.

Crianças com 18 a 24 meses de vida aprendem 10 palavras novas por dia, e tal capacidade assombrosa repousaria na plasticidade cerebral: neurônios jovens, conexões e transmissores. Reducionismo materialista! Uma criança é infinitamente mais do que uma maçaroca de nervos: é um ser vivo com vontade própria, vontade de se relacionar com o mundo que se abre, cresce à sua volta e a envolve em sensações. Tudo para ela é uma epifania. Ela nunca se cansa, se entedia ou se fecha em si mesma, e mal consegue entender o que é ‘si mesma’ – para ela, tudo é objeto de interesse maior.

É na receptividade de um ser com vontade própria que repousa o potencial de aprendizagem da criança. Há a plasticidade cerebral porque há a vontade: cessando esta, cessa aquela, entendida como propriedade que absorve e cria, modificando-se a cada instante, não apenas como uma massa que cresce. Para que cresça em qualidade, a massa precisa de algum combustível: a vontade só age por meio da matéria, que tem de ser estimulada continuamente a acomodar dentro de si a maior quantidade possível de dados. Tanto matéria quanto vontade são energia, mas vontade é autonomia: é a manifestação mais primitiva do sujeito.

Em casa, alimentamos continuamente nossa filha: livros, músicas, passeios; todas as atividades instruem e educam. Crianças pequenas não são imaginativas: precisam de alguém que ‘imagine’ por elas, que mostre onde se esconde a fantasia nas folhas das árvores, nos insetos, nas nuvens, no som distante da buzina do carro. Assim, ela vai colecionando imagens, figurinhas em desordem: o álbum virá num segundo momento.

Crianças não dormem por estar com sono: dormem por exaustão – desconexão com o mundo. Assim, elas sucumbem a essa estranha falta de energia. Nós adultos dormimos por indicação do relógio; nosso interesse no mundo é pragmático, e nos bastam poucas certezas acerca da realidade. A criança nunca está certa de nada: ela busca algo sem cessar, e dizer que tal busca é produto de um caldo físico-químico é um reducionismo que beira a psicose.

Educar uma criança tendo marcos do desenvolvimento como parâmetros é resignar-se com a mediocridade. Marcos servem como alertas de atraso, jamais como metas: pais que amam seus filhos jamais deveriam se sentir confortáveis com o fato de que estes são ‘como todas as crianças’ – já sabemos aonde nos levam essas generalizações. Não vou entrar aqui no (de)mérito do ensino escolar: bastam as classificações nos testes internacionais e as pesquisas demonstrando estagnação no QI médio do brasileiro – fatos falam por si.

Essa foi a epifania (óbvia que pareça): a criança tem uma vontade incoercível de aprender, e tal caráter de espírito jovem não deve ser aplainado, pois não há média quando se trata de um indivíduo singular. Professores e cuidadores podem fazer bons trabalhos, mas precisam lidar com parâmetros claros, restrição de tempo e metas gerais: situação inversa à dos pais. O pai e a mãe são a imagem primordial da criança, sobre a qual ela irá ‘colar todas as outras figurinhas do álbum’. Se eu não me encantar com o mundo, não conseguirei convencer minha filha de que o mundo é encantador, e a única ferramenta de que disponho é a vontade de aprender mais.

(*) Lauro Schvarcz é médico pneumologista do Hospital Universitário de Santa Maria

3 COMENTÁRIOS

  1. Sou pai de um bebê de seis meses de idade, e li o artigo com vívido interesse. Congratulações, senhor Lauro Schvarcz, e por favor continue brindando os leitores desse jornal com outros bons textos!

  2. Gostaria da continuação deste texto, o hoje dessa criança ou outros textos sobre o assunto, para que outros pais, avós, tias, padrinho e professores tenham mais oportunidades de textos como este, que com certeza, muito ajudará no educar de uma criança!!!

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