É bom saber – Rondonópolis: Descobrindo a história

Ao longo da história, Rondonópolis viu homens e mulheres audazes, esperançosos por encontrar um eldorado

Segundo estudos em sítios arqueológicos localizados no Parque Ecológico João Basso, a região correspondente a Rondonópolis é habitada há milhares de anos

Por Luci Léa Lopes Martins Tesoro*

A velocidade dos dias coloca em xeque a nossa consciência em relação às pessoas, aos fatos, aos acontecimentos, aos espaços que nos cercam. E, no final, tudo é tragado e pulverizado como em um piscar de olhos; e quando nos damos conta o ano já passou e até mesmo toda uma existência já se esvaiu.

Diante dessa realidade etérea, a maioria dos moradores de nossa cidade, por exemplo, só vai se atinar que o dia 10 de dezembro é a data de emancipação político-administrativa de Rondonópolis simplesmente porque é um feriado local, e ainda mais um feriado prolongado!

Todavia, nem por um instante se lhes passa pela cabeça questionar sobre o contexto de tal municipalização. Dessa maneira, cada vez mais fica distante a importância histórica das datas, do passado, da memória e dos construtores de nossa cidade.

Casarão que abrigava o Correios e telégrafo; Marechal Rondon se hospedava ali quando passava por Rondonópolis

HERÓIS ANÔNIMOS – Ao longo da história, Rondonópolis viu homens e mulheres audazes, esperançosos por encontrar um eldorado, deslocarem-se de seus rincões e aportarem pelas bandas do Rio Vermelho em busca de novas oportunidades de trabalho e de realização; enfim em busca por melhores condições de vida.  São essas pessoas os heróis anônimos que representam grande parte da força de construção e da história de Rondonópolis: migrantes mato-grossenses, nordestinos (da Bahia, de Pernambuco, do Ceará, do Maranhão), paulistas, mineiros, goianos, paranaenses, catarinenses, gaúchos ao lado de estrangeiros libaneses, árabes, japoneses, espanhóis, sul-americanos e outros – hoje já abriga descendentes até de terceira geração.

Na realidade, todos os moradores de Rondonópolis são responsáveis pelo destino de seu município, nós somos todos partícipes dessa mesma empreitada, ou seja, a de amar, a de construir e a de cuidar de nossa cidade.

Porém, ninguém muda o que não conhece, então proponho agora um exercício de cidadania para uma melhor compreensão do processo de crescimento de Rondonópolis. Venha fazer parte dessa nossa viagem.

INÍCIO – Rondonópolis é hoje a mais importante cidade do interior do Estado de Mato Grosso em economia, sendo polo de 30 cidades da região; é também o segundo município em demografia – na casa dos 220.000 habitantes.

O processo de história político-administrativa de Rondonópolis teve início com o povoamento, nos primeiros anos do século XX (1902-1905); mas somente, a partir do Decreto Lei nº 395, assinado pelo presidente de Estado do Mato Grosso Joaquim da Costa Marques, em 10 de agosto de 1915, é que o povoado passou a existir oficialmente, quando recebeu a sua carteira de identidade.

Registro do Colégio Sagrado Coração de Jesus, na década de 1950

O referido decreto estabelece uma reserva de 2.000 hectares para o “Rocio da Povoação do Rio Vermelho” (local da futura Rondonópolis) e marca oficialmente a existência do povoado. A importância do decreto foi reconhecida e respalda pela Lei Municipal nº 2.777 de 22 de outubro de 1997, que promulga a data de 10 de agosto como a data de fundação de Rondonópolis.

No ano de 1918, resultante de uma homenagem efetuada pelo deputado Otávio Pitaluga a Cândido Mariano Rondon, este passa, então, a ser considerado o patrono do lugar, que foi denominado de Rondonópolis. Em 1920, o mesmo transforma-se em distrito de Santo Antônio do Leverger e comarca de Cuiabá, passando a ter os cargos de juiz de paz, de escrivão e de delegado.

DESPOVOAMENTO – Todavia, na década de 20, o recém-criado distrito, que tinha mais de setenta famílias de moradores, vindos principalmente de Goiás e de Cuiabá, começa a sofrer problemas, com enchentes, epidemias e desentendimento entre os moradores. No mesmo período, João Arenas descobre os garimpos de diamantes na vizinha região de Poxoréu (1924).

A combinação desses fatores provoca o processo de despovoamento de Rondonópolis, ao mesmo tempo em que os garimpos projetam o crescimento de Poxoréu que, em 1938, foi elevado à categoria de município. Em consequência, pelo fator proximidade, Rondonópolis passa a ser distrito de Poxoréu, cuja Lei Estadual nº 218 de 1938 outorga àquele município a prerrogativa de decidir sobre os destinos de nossa região.

DEPOIMENTOS IMPORTANTES – O fato é que de 1930 a 1947 as margens do Rio Vermelho se esvaziara a olhos vistos. Sobre isso, o bispo prelado Dom Vunibaldo, relembra a passagem por Rondonópolis quando viajava para Chapada dos Guimarães, em 1942: “(…) existiam três casas: a Missão Protestante, a casa do correio e uma tapera onde morava o balseiro.”

Em abril de 1947, a Irmã Thereza Marangoni comenta que, de passagem pelo vilarejo observou que, “Rondonópolis era um pequeno povoado que mais se parecia com um sertão, coberto de cerrado por todos os lados. Só existia uma rua onde se situava o Correio e, mais para baixo, a casa do Moisés Cury e a do Senhor Jacinto Xavier, que era guarda-linha do telégrafo, e ainda uns três ou quatro ranchinhos. Era só.”

Curioso é o depoimento do historiador Lenine Póvoas que afirma que, ao passar por Rondonópolis, em meados de 1948, teria visto mais de cinquenta ranchos e uma vila que se instalava. Ou seja, naquele momento evidencia-se um crescimento demográfico e mudanças que desaguaram na fase emancipacionista.

Igreja Matriz e o Colégio Sagrado Coração de Jesus, ao fundo, na década de 1950

EMANCIPAÇÃO – O processo da emancipação local decorreu sem maiores problemas. Foi realizado um plebiscito em Rondonópolis e que foi homologado pela Assembléia Legislativa de Mato Grosso. Assim, em 10 de dezembro de 1953 foi sancionada a Lei 666 e criado o município de Rondonópolis – que permaneceu como Comarca de Cuiabá até 1959.

Diante do exposto, há uma indagação fundamental.: quais os motivos que aceleraram o processo de crescimento econômico e demográfico do município de Rondonópolis?

MIGRANTES ENGANADOS – Em 1947, mais de cinquenta famílias vieram do Estado de São Paulo para se fixar na nossa região – na maioria eram nordestinos residentes no interior do Estado, entre eles o Sr. José Barriga, Sr. Apotâneo de Carvalho, Dona Delvita e o Sr. Olímpio Balduíno Silva. Eles haviam comprado lotes de terras da Companhia Noretama de Colonização, em Marília. Contudo, muitas das famílias foram obrigadas a retornar, pois não tiveram como sobreviver. Acontece que as terras compradas pertenciam aos índios e não poderiam ser vendidas por Tertuliano Albergaria, dono da tal companhia de colonização.

AÇÃO DO GOVERNO – As famílias que ficaram receberam a ajuda do governador Dr. Arnaldo Estevão de Figueiredo, que enviou caminhões com alimentos e ferramentas para o plantio da terra, além de sementes, roupas e remédios. Em seguida, Dr. Arnaldo distribuiu lotes para as pessoas plantarem suas roças de arroz, feijão, milho e algodão. Assim, foram criadas as colônias de Campo Limpo, Macaco, Naboreiro e Paulista. O fato de se espalhar a notícia de que o Governador estava doando lotes de terras, em Rondonópolis, atraiu milhares de pessoas do país inteiro e em 1950 Rondonópolis chegou a somar 2.888 habitantes.

RETOMADA – Desse modo, a partir de 1947, Rondonópolis volta a crescer à medida que é inserido no contexto capitalista de produção como fronteira agrícola mato-grossense, resultado da política do sistema de colônias implantado pelo governo de Arnaldo Estevão de Figueiredo.

Outros fatores também atuaram entre si e no contexto da época:

a) Nas décadas de 50 e 60, o crescimento econômico de Rondonópolis vem através do campo, enquanto produtor de alimentos e extensão do capital paulista. Nesse período destaca-se a força da mão-de-obra de migrantes mato-grossenses, nordestinos, paulistas, mineiros, japoneses e libaneses.

b) A permanência por quatro anos da CER (Comissão de Estradas de Rodagem), que com um agrupamento de 400 homens permitiu a construção de estradas e reavivou o pequeno comércio local.

c) Em 1949 foi anexada 10.000 hectares de terras ao patrimônio de Rondonópolis, aumentando sobremaneira a sua área territorial.

d) A missão social dos comerciantes, que financiavam as lavouras dos colonos

e) Nessa engrenagem, a Escola Sagrado Coração de Jesus (criada em 1949) teve papel importante, pois, ao oferecer chance de estudo aos moradores, serviu para agrupar mais pessoas na região.

Sobre isso, Ir. Thereza Marangoni relata sobre um comentário pronunciado pelo Marechal Rondon, numa rápida visita que ele fizera no Colégio de Fátima em 1950. Ele disse o seguinte: “Pois é, por duas vezes eu quis fazer de Rondonópolis uma cidade, entretanto esta não vingou, acabou em nada! Foi só chegar os Padres e as Irmãs e estabelecerem uma Igreja e uma Escola e a cidade se fez….”

FASES DO CAPITAL – Na década de 70 acelera-se no município o processo de expansão capitalista, e Rondonópolis desenvolve o mais rápido processo de modernização do campo que se teve notícia no Centro-Oeste, incrementando as atividades da soja, da pecuária e do comércio. Aqui a migração sulista e o “pensar grande” são o destaque.

Em 1980, Rondonópolis passa a ser polo econômico da região e é classificado como segundo município do estado em importância econômica e urbana. Já, na década de 90, Rondonópolis projeta-se como “A Capital Nacional do Agronegócio”, ao mesmo tempo em que cresce o setor agroindustrial – decorrem daí o sucesso de feiras e Agrishow.

ENTRONCAMENTO DE MÃO-ÚNICA – A estratégica posição de Rondonópolis junto ao entroncamento das rodovias BR-163 e BR-364 se constituem em fator decisivo de crescimento do município, uma vez que as rodovias servem de escoamento do corredor Norte-Sul do país. A instalação da Ferronorte veio somar em logística e contribuir para o escoamento e barateamento de custos de produção.

É importante ainda destacar que a cidade é considerada como o portal da Amazônia e a entrada para o pantanal mato-grossense e que possui rios, cachoeiras, fauna e flora de rara beleza, além de importantes sítios arqueológicos, entre eles o Ferraz Egreja.

Parabéns Rondonópolis pela passagem de aniversário de seus 65 anos de municipalidade.

A historiadora

Professora Luci Léa – Foto: A TRIBUNA

*Luci Léa Lopes Martins Tesoro, paulista de Itirapuã-SP, reside em Rondonópolis desde 1980, é viúva há 30 anos, tem uma filha, três netos e uma irmã excepcional que são o seu xodó. É Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), em 1982 realizou concurso pela UFMT, campus de Rondonópolis, onde se aposentou e fez muitos amigos. Publicou sete livros, sendo alguns em duas edições. Entre eles “Descobrindo Rondonópolis” e “Rondonópolis-MT: um entroncamento de Mão Única”.

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