130 anos depois… – A nódoa do racismo ainda permanece

Mesmo sentindo na própria pele as consequências do racismo, presidente da Unegro aponta que houve avanços nos últimos anos

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A escravidão do povo negro no Brasil durou mais de três séculos, perdurando de 1550 até 1888. Durante esse tempo, os negros escravizados deram uma contribuição inestimável para a construção do país, tendo sido responsáveis pelo impulsionamento da economia nacional mas, ao mesmo tempo, sofrendo todo tipo de violência e privação decorrentes da sua condição de povo escravizado.

A situação de escravizados não foi aceita pacificamente por grande parte dos negros trazidos à força da África, que resistiram à situação e fugiam para dentro das matas fechadas, criando os chamados quilombos, que abrigavam os negros que fugiam de “seus donos” e se juntavam a outros na mesma situação para resistir à escravidão.

O mais famoso de todos os quilombos foi o de Palmares, localizado na Serra da Barriga, no estado de Alagoas, que chegou a abrigar cerca de 20 mil negros fugidos da escravidão. Seu maior líder, Zumbi, foi morto em 20 de agosto de 1695, cerca de um ano após todos os demais negros do quilombo serem dizimados por forças militares enviadas pelo governo da época.

Hoje, decorridos 130 anos da libertação dos negros escravizados, os cidadãos negros e as cidadãs negras ainda sofrem com o preconceito racial e com a discriminação por conta de sua cor, o que pode ser visto não só pela forma discriminatória como muitos são tratados, mas principalmente se observarmos o reduzido número de negros e negras que ocupam posições de destaque na sociedade brasileira e a pequena quantidade dos mesmos que goza de boas condições financeiras.

Para lembrar o sofrimento dos negros e negras escravizados e denunciar o preconceito que até hoje vitima essas pessoas por conta da cor de sua pele e de sua herança histórica, foi instituído o Dia da Consciência Negra, comemorado no dia 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares.


“A discriminação acontece o tempo todo”, atesta presidente da Unegro

Luzia Nascimento, presidente da Unegro: “não sofremos mais quietos” – Foto: Arquivo

Para a professora Luzia Nascimento, presidente da União de Negros pela Igualdade (Unegro), o Dia da Consciência Negra é fundamental para dar visibilidade para a luta dos povos negros por igualdade de tratamento e oportunidade. “Eu vejo que a história da população negra foi ‘invisibilizada’. Esse dia acaba mostrando a sua história, a luta, a exclusão da população negra. Quer se queira ou não, isso leva à uma reflexão sobre essa situação, inclusive para os próprios negros. De um jeito ou de outro, todos acabam refletindo sobre essa história e isso é positivo, pois a maioria da população brasileira é negra e não podemos continuar excluindo essas pessoas do nosso convívio e da economia”, defendeu.

Negra e de origem humilde, Luzia Nascimento diz ter sido vítima de discriminação racial desde os primeiros anos de vida. “Minha história de exclusão e discriminação começou quando pequena, na escola, quando as crianças brancas não queriam brincar comigo. Já maiorzinha, jogava vôlei e basquete, mas sempre me colocavam apelidos racistas. No trabalho, deixei de ser contratada num banco que precisava de alguém com meu perfil, por que não me encaixava no quesito de ‘boa aparência’, o que para eles significava ser branca. Nessa época, não havia a legislação que há hoje e não havia o que fazer”, contou.

A presidente da Unegro diz que até hoje em dia ainda passa por casos de preconceito racial puro, como aconteceu recentemente em um hotel cuiabano, quando teve dificuldades para se hospedar. “A discriminação acontece o tempo todo, de forma clara ou velada. Eu sofro discriminação o tempo todo”, completou.

Mesmo sentindo na própria pele as consequências do racismo, ela aponta que houve avanços nos últimos anos. “Antes, não havia sequer uma lei que proibisse a discriminação racial e hoje os negros ocuparam espaços como nas universidades e no mercado de trabalho. Ganhamos visibilidade e muitos negros começaram a ter consciência da sua situação e de seus direitos. Não sofremos mais quietos”, declarou Luzia Nascimento.


“Entrei na piscina e as pessoas saíram”, diz comandante da PM

Major Cândido: “discordo do tema ser debatido somente no feriado, pois os negros sofrem racismo todos os 365 dias do ano” – Foto: Divulgação

Também negro e de origem humilde, o tenente coronel da Polícia Militar Gleber Cândido Moreno, comandante da PM em Rondonópolis, é outro cuja história de vida é permeada por casos de racismo e preconceito. “Eu sou de uma família de origem negra, na qual minha tataravó já foi concebida no vigor da Lei do Ventre Livre, mas seus pais foram escravos. Então, não está muito longe de mim a questão da escravidão. Os meus avós negros vieram de Minas Gerais para Mato Grosso para trabalhar na obra de uma ponte ali em Barra do Garças. Realmente, o racismo ainda existe no Brasil, apesar de ter muita gente dizendo que não. Mas os que dizem isso geralmente são os que não sofrem racismo. No caso, as pessoas brancas, de olhos claros e cabelos lisos. Mas os negros, todos têm uma história de racismo ao menos para contar”, afirmou o militar.

Apesar de bem sucedido na vida, ocupando ainda relativamente jovem um cargo de comando na hierarquia da PM, ele diz ser vítima constante de racismo e discriminação por conta da cor de sua pele. “Eu não sou diferente de todos, e apesar de ser um oficial superior da Polícia Militar, tenho na minha história várias passagens de racismo. Já tive um caso com minha esposa em um clube num município próximo de Rondonópolis, onde ao entrar na piscina, as pessoas de origem caucasiana saíram de dentro dessa piscina. Então, a gente observa que ainda existe o preconceito, como se eu fosse soltar tinta, contaminar a piscina com a minha cor. E outros fatos, como quando você entra no supermercado e o segurança te acompanha o tempo todo, como se a única pessoa que poderia cometer um roubo ou furto ali fosse a negra”, contou.

Além do preconceito puramente racial, Cândido também relata ser vítima constante de preconceito econômico, outro tipo de preconceito que deriva da mesma causa: a cor de sua pele. “Você entra numa loja, principalmente se for de padrão mais alto, e ninguém te atende. Isso por que os negros trazidos da África para serem escravizados aqui no Brasil, em substituição aos índios, não podiam ascender socialmente. Muitos morriam de banzo, o que hoje em dia é chamado de depressão, porque muitos deles eram reis na África e vinham para cá forçados para serem escravos, em condições subumanas. Hoje, graças a Deus, o Brasil é um país que te oferece educação e outros meios de você ascender, seja pelo estudo, seja pelo esporte, seja pelo trabalho, mas poucos negros ascenderam socialmente. Nós já tivemos um presidente do Supremo Tribunal Federal negro. Mas, nós negros, não conseguimos nos ver dessa forma quando ascendemos socialmente”, lamentou.

Para ele, com a predominância do politicamente correto e a discussão e reprovação de atos considerados como “bullying” tornou a convivência entre crianças e os jovens melhor. “Mas eu não sou dessa época. Eu nasci antes da Constituição de 1988 e sou da época em que era normal chamar de cabelo de bombril, de picolé de asfalto, de picolé de piche, saci, entre outros apelidos que eram comuns entre as pessoas negras. Mas isso aí a gente orienta as crianças e os jovens a não se deixarem abalar, assim como eu nunca deixei. Por que a gente observa que depois que a gente ascende tanto profissionalmente quanto socialmente, você é tratado diferente. Como diria um professor, você se torna um negro de alma branca, como um jogador de futebol, juízes, delegados. O que ele quis dizer com isso é que as pessoas já não te olham mais pela sua cor, mas pela sua classe social. Mas mesmo na nova classe social, você continua sendo negro”, testemunhou o oficial da PM.

Instado a dar um conselho para os jovens negros, Cândido é enfático ao defender que esses jovens se dediquem ao estudo. “Estudar é a única forma de ascensão social do jovem negro de periferia, sua única chance na vida é por meio do estudo. Não deixar que brincadeiras de mal gosto, essas palhaçadas racistas, te deixem abalar, pois isso não vai te levar a lugar nenhum. O negro não é melhor nem pior que ninguém, é só uma questão de cor da pele. O negro ainda sai atrás da pessoa branca no Brasil, tem que provar que é melhor, tem que fazer duas vezes mais para se igualar e ainda tem que conviver com piadas do tipo ‘ele é negro mas é inteligente’. É uma forma velada de racismo, mas ainda existe muito”.

Sobre o Dia da Consciência Negra, o tenente coronel diz considerar a data importante, por levantar essa questão tão fundamental para o país, mas diz não considerar suficiente. “Discordo do tema ser debatido somente no feriado, pois os negros sofrem racismo todos os 365 dias do ano. Então, temos que debater isso todos os dias, para isso mudar, até por que a maioria da população é negra. Em vários estados, a população é predominantemente negra. Isso precisa ser debatido tanto com adultos quanto com crianças, que não podem se defender das idéias preconcebidas do racismo”, concluiu.

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