Bem-estar para todos

(*) Eleri Hamer

0
06/11/2018 – Nº 517 – Ano 12

Não é novidade que gente também é animal (pretensamente racional) e talvez por isso sejamos muito semelhantes em vários aspectos. Já há algum tempo está provado que muitos animais domesticados, mesmo inconscientemente, emanam e necessitam de atenção, além de nutrirem sentimentos entre si muito semelhantes aos dos seres humanos. Mesmo e principalmente aqueles criados para fins comerciais de suprimento proteico da nossa espécie.

Nós nos esforçamos diariamente na busca pelo bem-estar. Mas isso para um ser humano é muito complexo, além de dinâmico, já que nossos desejos e necessidades se alteram à medida que evoluímos como pessoas e também como sociedade. Como espécie, no horizonte temporal da nossa existência, somos eternos insatisfeitos e por isso nosso bem-estar é relativo.

Maslow, quando estabeleceu a hierarquia das necessidades (amplamente aceita até hoje), colocou na base as necessidades fisiológicas, tais como água, comida, abrigo, sono, dentre outros. Na sequência vieram a segurança familiar e do corpo, para em seguida virem as necessidades sociais, de bem querer, comunidade e amizade. As outras duas são relativas à estima e realizações pessoais.

Para quem é eminentemente urbano e não tem vínculo com o meio agropecuário, deve estar se perguntando: o que uma coisa tem a ver com a outra? Pois saiba que já faz muito tempo que se constatou que os três níveis básicos também são amplamente úteis na produção de proteína animal, tanto nos aspectos quantitativos (de produção intensiva), como nos qualitativos.

Dito de outro modo, sabe-se por exemplo que a música clássica acalma os animais e melhora o convívio entre eles, bem como, por consequência, é capaz de liberar o leite de modo menos estressante, mais rápido e em maior quantidade na hora da ordenha, e torna a alimentação mais tranquila para o caso dos confinamentos de corte, para ficar apenas em dois exemplos simplórios.

Logo, não são apenas os humanos que gostam de serem bem tratados quando estão em situação de estresse. Maslow talvez pudesse ter realizado essa pesquisa e criado a hierarquia das necessidades também para os animais. Mas quem imaginaria há pouco menos de um século que isso se tornaria tão relevante e pudesse surgir um profissional com ampla atuação na medicina veterinária, chamado justamente de psicólogo de animais (não confundir com psicologia comparada que é uma área da psicologia)?

Por consequência é fácil de entender que os animais utilizados para produção intensiva de proteína também tendem a se comportarem e produzirem melhor quando manejados com práticas de redução da pressão, principalmente aqueles capazes de melhorar o astral do ambiente.

Tanto no mercado interno como no externo, o tema em voga é o bem-estar animal. Tem sido motivo de debates nas diferentes esferas públicas e privadas e muitas vezes associado ao tratamento ‘humanitário’ de animais é frequentemente utilizado como diferencial competitivo de alguns produtores ou cadeias de produção. Por outro lado, para alguns mercados, não definir e seguir regras pertinentes simplesmente pode representar uma barreira comercial não tarifária, impeditiva de comercialização.

Nesse sentido, a pressão de seleção sobre os players que atuam no mercado internacional do agronegócio de proteína animal está cada vez mais intensa, para o qual necessitam obrigatoriamente se adaptar, não apenas em função das regras em si, mas na tentativa sempre louvável de tornar a exploração mais coerente com a ética e a moral humana.

Essa questão é tão interessante que me lembro de um exemplo caseiro, quando ainda morava na roça. Tempo em que mercado internacional era algo para petrolíferas e grandes corporações de commodities. Mantínhamos sistematicamente encerrados para engorda, um suíno e um bezerro.

Quando eram abatidos (ainda na tenra idade) outros eram colocados no seu lugar. E assim prosseguíamos com o freezer e a geladeira abastecidos.

Ocorre que numa dessas ocasiões, floresceu uma tenra amizade entre ambos, inclusive dormiam juntos, na mesma baia. Solitários, afastados dos seus, criaram apego e afeto. Porém, no momento em que o bezerro foi abatido o suíno imediatamente sentiu a falta do companheiro, parou de comer e adoeceu. Perdeu peso rapidamente. Não havia nada que o animasse. Tudo somente voltou ao normal quando outro bezerro foi colocado na baia e novo vínculo afetivo se estabeleceu.

Até a próxima.

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É professor, workshopper e palestrante – [email protected]

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here