A prioridade central numa eleição – Parte 1

(*) Plínio José Feix

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Estamos em um período crucial no que se refere ao futuro, ao destino das nossas vidas pessoais e coletivas. Trata-se das eleições para a ocupação dos cargos eletivos do Estado no âmbito estadual e federal. Sobre isso pretendo fazer uma reflexão que considero de extrema relevância.

Estamos no “calor” da campanha eleitoral. Percebemos grupos politizados atuando de forma intensa em favor dos partidos políticos e dos candidatos de sua preferência. Por outro lado, uma parte significativa da população está pouco interessada, indiferente ou avessa a este processo político. A questão que deve ser levantada por todos os cidadãos e cidadãs é: o que precisa ser prioritário ou central numa campanha política?

Sabemos que a nossa cultura política se revela pouco participativa, desinteressada e de compreensão limitada sobre o funcionamento e a finalidade da política institucional e do significado da cidadania autêntica. Um problema decorrente disso é restringirmo-nos aos problemas sociais específicos, como é o caso da violência, não levando em consideração a complexidade ou a multiplicidade de fatores sociais que originam tal situação intolerável. Como consequência, defendemos soluções políticas equivocadas.

Outro problema relacionado à essa cultura política, e que aponto aqui como objeto de reflexão, é a tendência de fazermos a inversão entre meios e fins. A política é entendida, em boa medida, como fim em si mesma, e não como meio. O fim deve ser a sociedade em seu conjunto, e não a política. As instituições políticas que compõe o Estado estão no interior da sociedade, integram ou fazem parte desta e, por conseguinte, devem estar a seu serviço. O fim ou a finalidade da política, portanto, é a organização da sociedade de uma forma que permita uma vida digna para todos os indivíduos, sem exceção.

Os partidos políticos igualmente precisam ser compreendidos desta forma. A própria palavra partido se refere ao termo parte, ou seja, é uma parte do povo (filiados e eleitores simpatizantes de um partido) organizada em torno de um projeto para toda sociedade. Para tanto, esta parte (partido político) luta democraticamente para chegar ao poder do Estado, que é a condição política para viabilizar a implementação do seu projeto para o conjunto da coletividade. Os partidos políticos são meios ou instrumentos políticos, cujo fim é uma determinada organização da sociedade.

A visão dogmática, fundamentalista ou fanatizada em torno de um candidato (salvador da pátria) e/ou partido político está equivocada, pois o entendimento deveria ser outro: perceber o quanto estes agentes políticos (políticos e partidos) poderão contribuir para o processo de construção da sociedade almejada. Além do mais, assim como o sistema político, todos os partidos políticos têm práticas que devem ser refutadas. Mais ainda, o poder dos grandes capitalistas exerce um enorme poder sobre o sistema político, que é integrado pelas agremiações partidárias, restringindo a sua autonomia. As instituições políticas apresentam problemas seríssimos que dificultam o cumprimento de sua finalidade, demandando uma reforma profunda. Por tanto, apegar-se cegamente ao meio político – reforçando: que no atual contexto político é muito limitado –, faz-nos perder ou relativizar o horizonte: a viabilidade da construção da sociedade que queremos.

A nossa discussão central na campanha eleitoral deveria ser qual o projeto de sociedade que desejamos (forma de organização e de atuação na área econômica, política, cultural, educacional, mídias, religiões, etc.), e como agir politicamente nesta direção. Numa sociedade extremamente desigual como a nossa, obviamente existem vários projetos diferenciados. O mesmo vale para os partidos políticos: há diferenças políticas e ideológicas gigantescas, inclusive para além da divisão clássica entre esquerda e direita. Com isso, queremos dizer que os partidos são portadores de projetos coletivos diferentes. A nossa ação política, incluindo a escolha dos partidos, precisa estar vinculada ao tipo de sociedade que queremos.

(*) Plínio José Feix é Professor do Departamento de História, Câmpus Universitário de Rondonópolis/UFMT, doutor em Ciência Política pela UNICAMP

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