Um dos primeiros nipônicos a se estabelecer em Rondonópolis

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Dando continuidade à série de reportagens com os pioneiros da cidade, hoje o Jornal A TRIBUNA traz uma entrevista especial com o nipo-brasileiro Hisashi Doho, que chegou na cidade ainda no ano de 1953 atrás de oportunidades e deu uma importante contribuição para o crescimento da cidade, sendo um clássico exemplo da participação dos imigrantes japoneses no desenvolvimento da nossa região. Filho de imigrantes japoneses que vieram para o Brasil atrás de melhores condições de vida, ele nasceu na cidade de Araçatuba (SP) e muito cedo saiu de casa para encontrar ele próprio um lugar para construir sua vida.
Hoje com 85 anos e com dificuldades de fala e falhas de memória, provocadas pelo mal de Alzheimer, ele conta que chegou em Rondonópolis nos primórdios da cidade, depois de ter passado por cidades do Mato Grosso do Sul e não ter agradado com nenhuma delas a ponto de se fixar. Aqui, ele chegou a dormir por algumas noites debaixo de uma ponte até arrumar seu primeiro emprego, que foi numa fazenda na região do Vale do Jurigue, no município de Pedra Preta, onde se dedicou ao plantio de uma roça de arroz e foi um dos desbravadores da região. Na entrevista, que foi sugerida pela família que ele adotou aqui, o pioneiro fala um pouco de suas memórias e de como era a cidade quando da sua chegada. Confira:


Hisashi Doho chegou na cidade ainda no ano de 1953 – Foto: Denilson Paredes

Homem de hábitos simples e muito ligado à terra, por conta principalmente dos pais agricultores, Hisashi Doho sempre trabalhou em fazendas, tendo sido o responsável pela abertura de muitas delas, tanto aqui quanto na região Norte do Estado. Com seu jeito característico de japonês, comedido e sem encompridar nos comentários, ele diz simplesmente que “aqui não tinha nada” quando chegou. Ele explica que um dos motivos que o levaram a ficar por aqui foi o fato de que a cidade não parava, sempre com gente nova chegando e novas construções brotando a todo momento.

Sempre com o auxílio dos netos, da filha adotiva e do genro, ele explica que inicialmente se especializou em “abrir” fazendas, já que a região era praticamente intocada até a época. “A gente fazia desmatamento, construía cercas e depois toquei roça no Jurigue”, conta. O seu genro complementa que muitas das grandes e estruturadas fazendas da região tiveram no senhor Hisashi Doho o seu desbravador e que ele plantou arroz, feijão, milho, principalmente, que era comercializado direto ao consumidor na cidade.

Separado da primeira esposa, foi aqui em Rondonópolis que conheceu o grande amor da sua vida, dona Maria Lenira, isso no final da década de 70, com quem conviveu algum tempo e, mesmo com a morte da amada vários anos depois, já no ano de 1993, continuou mantendo os laços familiares com os filhos e depois com os netos da mesma, que da mesma forma o tratam com todo carinho e respeito hoje em dia. Quando se casou com dona Nira, como é carinhosamente chamada Lenira, eles compraram uma casa na Vila Cardoso, mas o relacionamento não deu certo e o casal acabou por se separar.

Na foto, o pioneiro ao lado da filha Cleide, do genro Sebastião e do neto Alan, no ano de 2003 – Foto: Arquivo Pessoal

Ele também se arriscou no garimpo de diamantes na região de Poxoréu e, segundo os seus familiares, chegou a ganhar uma pequena fortuna, dinheiro que foi perdendo aos poucos e teve que recomeçar tudo do zero, quando resolveu se aventurar na região Norte do Estado, abrindo grandes fazendas e novamente se aventurando no garimpo, na região de Peixoto de Azevedo, mas sem obter grandes resultados dessa vez. “Garimpo é que nem jogo, a gente vai por influência (dos outros)”, contou.

De acordo com os familiares, o pioneiro Hisashi Doho chegou a ter mais de 200 peões sob seu comando na época que trabalhava abrindo fazendas pelo Norte do Estado, isso no final da década de 50 e início da década de 60 do século passado, só para se ter uma ideia do tamanho dos empreendimentos que ajudou a estruturar. Aqui, segundo o próprio, ele trabalhou para o pecuarista João Borges, para a família Aguiar, entre outros.

Nessa foto, o pioneiro aparece ao lado de um sobrinho na cidade de Osaka, no Japão, onde morou e trabalhou por três anos – Foto: Arquivo Pessoal

Com dificuldades financeiras aqui, ele conseguiu viabilizar uma forma de ir trabalhar no Japão, isso no final da década de 80, já com 60 anos de idade, onde trabalhou por três anos numa indústria de eletrônicos e ganhou algum dinheiro, para em seguida retornar ao Brasil, onde, sob orientação de seu genro e demais familiares, investiu suas economias em imóveis, o que lhe permitiu ter alguma renda e poder se aposentar com tranquilidade.

Sobre Rondonópolis, o pioneiro se diz apaixonado pela cidade e resume o sentimento dizendo simplesmente que é “por diversas coisas”, mas principalmente por conta da família que aqui adotou e das amizades que construiu ao longo dos tempos, com quem costumava jogar damas próximo a onde é hoje o Atacadão.

Muito admirado e respeitado pela família, hoje ele vive com a filha e netos adotivos, desfrutando de uma merecida aposentadoria, depois de ter trabalhado por muitos anos aqui, ajudando a construir a cidade grande e progressista que temos hoje em dia.

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