Sem muita utilidade os orelhões subsistem

(*) Eleri Hamer

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24/07/2018 – Nº 502 – Ano 12

Semana passada, depois de muito tempo, flagrei uma pessoa num orelhão, o que obviamente me chamou a atenção. Mas ao invés de utilizá-lo para fazer uma ligação estava a contemplá-lo, investigando sua funcionalidade como se aquele objeto fosse de outro mundo, saído de algum túnel do tempo hollywoodiano.

A propósito, você se lembra quando foi a última vez que utilizou um orelhão? Ou, se lembra onde existe um? E para os mais novos, da geração Y ou Z, arriscaria perguntar se conhecem como funciona, se saberiam utilizá-lo em caso de necessidade, ou mesmo, se sabem o que significa? Confesso que, mesmo em caso de urgência, não creio que seria capaz de torna-lo útil. Desaprendemos rápido!!!!

Para conhecimento, os Telefones de Uso Público (TUP) popularmente conhecidos como orelhões, em função do protetor que parece mesmo uma orelha grande, é um produto genuinamente brasileiro, desenvolvido pela arquiteta Chu Ming Silveira, e foi lançado em São Paulo, em abril de 1972 (O telefone público obviamente veio muito antes, por volta de 1920), quando telefonia era uma raridade por esse Brasil e ter uma linha exclusiva era apenas para magnatas e repartições públicas.

É inegável que cumpriu um importante papel durante esse tempo todo, quando ouvir e ser ouvido era um grande desafio para a população brasileira de pouco mais de 90 milhões de habitantes. Em que pese, a metade vivia na roça, em aglomerados rurais ou mesmo em pequenas cidades interioranas onde existiam apenas algumas linhas, disputadas por todos.

Nessas cidades, era muito comum que as empresas solicitassem as ligações para outras cidades nos centros telefônicos (pessoalmente ou via ramal) e que frequentemente eram completadas apenas horas depois ou apenas no dia seguinte, quando por algum motivo a demanda era alta ou se apresentava alguma dificuldade de conseguir a ligação. Imaginar que assim parte do país foi construído beira a incredulidade.

A popularização e importância que o orelhão alcançou pode ser observada pelos dados da Telesp (Telefonia do Estado de São Paulo) que, numa pesquisa em 1978, afiançou que 82% da população utilizava, os telefones públicos com alguma frequência.

Para endossar sua importância social, por exemplo, no site sobre o orelhão (sim, o orelhão tem até site próprio e exclusivo onde podem ser encontrados os projetos originais dentre outras curiosidades) está exposta uma crônica escrita pelo poeta Carlos Drummond de Andrade para o Jornal do Brasil, sobre o surgimento do “telefone-capacete” como ele o chamava, intitulado “Amenidades da Rua”.

Ocorre que depois de tanto tempo e da evolução meteórica de diferentes meios de comunicação, principalmente os smartphones, acabou perdendo totalmente a importância e o glamour (a exceção parece se restringir aos poucos rincões longínquos). Ninguém mais quer ser flagrado falando no orelhão. Não ter celular já é quase uma vergonha (e para muitos é motivo de desespero), mas ter de utilizar o tal aparelho público é praticamente uma afronta à dignidade, diriam outros.

Assim, o orelhão perdeu o sentido, e mesmo mantido impávido em muitos lugares, resulta em pouca ou nenhuma utilidade. Muitas vezes se mantém como um objeto invisível ou mesmo atrapalhando os transeuntes. Por ironia e por força da legislação anacrônica ainda reinante em nosso país, a própria Oi já foi multada diversas vezes nos últimos anos, sendo obrigada a manter a usabilidade de um número significativo desses aparelhos.

Creio piamente que a estrutura extraordinária criada para permitir a presença desses orelhões em boa parte das cidades, a maioria localizados estrategicamente, pode ser melhor utilizada do que simplesmente como telefone. Disponibilizar o acesso à internet instalando roteadores que possam distribuir o sinal wi-fi massivamente para a população, como já existe em algumas cidades, é uma grande utilidade. A partir daí o mundo estaria à disposição e muitas outras utilizações seriam possíveis.

Contudo, os testes andam a passos de tartaruga e nem sempre para frente. Morosidade e falta de genuíno interesse público estão solapando mais uma oportunidade de oferecer serviços à população.

Até a próxima.

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É professor, workshopper e palestrante – [email protected]

1 COMENTÁRIO

  1. Olá Eleri ! Esteja bem.

    Uso orelhões. Faço questão de usá-los. Tenho smartphone, sim. E a escolha pelo orelhão é simples. É equipamento/serviço bom e barato que as Operadoras estão obrigadas a mantem em perfeito estado de funcionamento.

    Concordo com você que o ‘orelhão’ pode, deve e é desejado que seja objeto de acesso às tecnologias digitais de comunicação. Sei que a inteligência do brasileiro médio é capaz de saber por si só que o ‘desmonte’ do sistema de telefonia fixa pública é de grande interesse das Teles diante dos lucros escorchantes, abusivos extraídos da Telefonia Móvel como implantada no Brasil. A ganância delas é tamanha
    que chega afrontar diretamente a Legislação vigente ao não cumprir as disposições que lhes impõe o dever de manter pontos de vendas de cartões indutivos para uso em orelhões em quantidade proporcional ao número de habitantes por cidade e um número também proporcional de orelhões à área do município.

    O Loby das Teles é forte o suficiente para postergar o cumprimento de sentenças judiciais, embaraçar a Fiscalização e precionar a ANATEL e Ministério das Telecomunicações no sentido de livrar-lhes do embaraço dos “orelhões” cujos centavos por minuto não são nada diante dos quase dois reais por minuto e ligação originada de um celular.

    A esperteza de seus Executivos e Advogados sobreposta à Defesa dos Consumidores e dos Cidadãos cega o “Mercado” com ofertas e promoções enganosas, falaciosas de serviços móveis que, em hipótese alguma, se tornam direito perene como os R$ 0,06/min de uma chamado local originada de orelhão.

    Estou crente que a deslealdade das Operadoras compra ‘motores e robos’ para induzirem a opinião pública de que ‘orelhão’ é coisa que não presta, um anacronismo em seu tempo, uma tralha que não merece ser mantida.

    Em verdade Eleri a desmotivação das Teles em manter e desenvolver os “orelhões” é a Usura de sua Política de maximização dos lucros sem preocuração com o “servir a sociedade”.

    Porque manter um negócio de seis centavos por minuto em algumas centenas de milhares de orelhões se com o mesmo investimento podem lucrar milhões de milhões de reais com um ou mais ‘chip’ na mão de cada brasileiro que pagam quase dois reais pro minuto de ligação local originada de celular ?

    Não preciso aqui dizer que as tais “promoções” são como ‘fogo de palha’, chamarizes para os incautos abdicarem do Direito por um serviço de telecomunicações ao preço justo.

    Isso é uma Vergonha.

    fernando gonçalves

    “Tenho convicção que teremos uma Sociedade Vicentina justa, menos desigual, com mais e melhores oportunidades quando os moradores de São Vicente/SP tiverem acesso fácil ao valor e sinal das grandezas vicentinas variáveis cujas medidas são necessárias à problematização, equacionamento e discussão das soluções factíveis para a SãoVicenteQueTemos.”

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