Carteiradas, grosserias e genialidade

(*) Eleri Hamer

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22/05/2018 – Nº 493 Ano 12

O Brasil está cheio de características próprias, muitas pejorativas, como o jeitinho brasileiro, por exemplo. Num nível deplorável semelhante está a carteirada, uma maneira esdrúxula, grosseira e pobre de obter vantagem ou privilégio, distribuída em profusão por diferentes “autoridades”. Especialmente pessoas influentes financeiramente, policiais, políticos e magistrados.

A prática patrimonialista do famoso “você sabe quem eu sou” é distribuído de norte a sul do Brasil por aqueles que justamente já ocupam uma posição privilegiada na hierarquia social, e mesmo assim, não contentes, necessitam se impor soberbamente para serem beneficiados adicionalmente.

Quem utiliza-se desse expediente, notadamente são pessoas arrogantes, prepotentes, sem espírito gregário e que foram, mimadas ao longo da vida ou de parte dela. E agora têm dificuldade para saber lidar com limites da vida comum e do convívio colaborativo que ela exige.

É claro que esses tipos de grosserias muitas vezes também encontram do outro lado pessoas inteligentes, espirituosas e notadamente firmes no seu propósito de fazer valer os limites desses mimados de plantão. Pessoas que não toleram e nem suportam disparates dessa natureza. Enfrentam com galhardia.

Segundo consta a lenda, uma dessas situações foi protagonizada por uma funcionária de uma empresa aérea quando um voo lotado foi cancelado e ela se viu sozinha na tarefa de organizar, atender e arranjar os destinos de uma multidão de passageiros descontentes.

Eis que no meio daquela dificuldade toda, um passageiro irritado cortou a fila que se estendida até o balcão e atirando o bilhete para a moça disparou: preciso estar nesse voo e na primeira classe. Você precisa dar um jeito.

Educadamente a atendente informou que teria todo o prazer em ajudar, mas precisava atender as outras pessoas primeiro, já que elas também estavam aguardando pacientemente na fila. Quando chegar a sua vez, farei tudo para poder satisfazê-lo, acrescentou a moça.

Obviamente não satisfeito com a resposta, soltou em alto e bom som, para que todos pudessem ouvir, a célebre frase: você faz alguma ideia de quem eu sou?

Ocorre que o grosseiro, pretensamente superior, não contava era com a espirituosidade e firmeza da funcionária. Com um sorriso no rosto, pediu um instante e pegou no microfone anunciando: posso ter um minuto da atenção dos senhores, por favor?

A voz ecoou por todo o terminal, ao que ela acrescentou: nós temos aqui no balcão um passageiro que não sabe quem é, deve estar perdido. Se alguém é responsável por ele, ou é seu parente, ou então se puder ajudá-lo a descobrir a sua identidade, favor comparecer aqui no balcão da empresa X. Obrigada.

Ouviram-se palmas e gargalhadas, seguido de uma sonora vaia. Contudo, os arrogantes não se intimidam assim facilmente. O grosseiro de plantão, vendo que estava em desvantagem, apelou gritando: eu vou f…… você!!!

Num lampejo de genialidade, a moça retrucou com firmeza, sem recuar: desculpe, meu senhor, mas mesmo para isso, o senhor vai ter de esperar na fila, tem muita gente aqui querendo fazer a mesma coisa.

Há muitos outros casos hilários como esse, mas, principalmente os deploráveis e vexatórios, em que a carteirada infelizmente funciona. Inclusive entre autoridades, como revelado há alguns dias por um policial federal do aeroporto de Brasília que desfiou o modus operandi de alguns políticos ao se negarem a passar como qualquer cidadão pela revista de segurança do raio X.

Segundo uma rádio em rede nacional, um dos mais recentes casos públicos teria sido protagonizada pela mulher do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, que teria dado uma “carteirada” na Polícia Federal ao escapar do detector de metais do aeroporto internacional Juscelino Kubitschek, em Brasília. Apenas para lembrar, infringiu normas de segurança, algo que é exigência da aviação internacional.

Infelizmente, essas práticas revelam um bocado da nossa boçal herança histórica e da pobre realidade cultural do país. Dão mostras de quão longe estamos em se tratando de educação, igualdade e equidade. Há muito trabalho por fazer.

Até a próxima.

(*) Eleri Hamer escreve esta coluna às terças-feiras. É professor, workshopper e palestrante – [email protected]

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