Incêndio que atingiu o território indígena foi o maior dos últimos anos. Segundo a Semma, está controlado - Foto: Arquivo/18º GAC
Incêndio que atingiu o território indígena foi o maior dos últimos anos. Segundo a Semma, está controlado – Foto: Arquivo/18º GAC

A Reserva Indígena Tadarimana, localizada próxima à zona urbana de Rondonópolis, ao longo dos anos, durante o período de estiagem, vem se tornando um verdadeiro drama para os moradores do município. É fogo na aldeia e fumaça na cidade. O incêndio queimou mais de 2 mil hectares da área protegida e deixou Rondonópolis debaixo de fumaça, onde a situação mais complicada era no período da noite com a inversão térmica.
O que fazer para evitar que o território indígena seja castigado pelo fogo? Existe algum projeto neste sentido ou uma ação preventiva? Seria possível identificar as origens dos frequentes focos de incêndio que têm atingido a reserva?
Essas indagações foram levados pela reportagem do A TRIBUNA à Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) e também ao 3º Batalhão do Corpo de Bombeiros com sede em Rondonópolis. Confira, a seguir, o resultado dos questionamentos:


DANOS AO MEIO AMBIENTE

“É difícil mensurar o impacto causado pelo fogo”, admite secretário

João Fernando Copetti Bohrer: “o que deve ser priorizado é a conscientização e a prática de técnicas que evitem incêndios desta proporção” - Foto: Arquivo
João Fernando Copetti Bohrer: “o que deve ser priorizado é a conscientização e a prática de técnicas que evitem incêndios desta proporção” – Foto: Arquivo

Deivid Rodrigues
Da Reportagem

O incêndio de grandes proporções, que atingiu a Reserva Tadarimana, em Rondonópolis, causa um impacto considerável sobre a fauna silvestre. A avaliação foi feita pelo secretário de Meio Ambiente do Município, João Fernando Copetti Bohrer. Segundo ele, esse impacto é de difícil mensuração dada às características da área queimada, bem como as dimensões desse campo.
De acordo com o secretário, devido a queimada, a qualidade do ar é diretamente afetada, principalmente pelo fato de se estar em um período de estiagem. “Onde as temperaturas se elevam e a umidade relativa do ar tende a baixar. Isso tudo aliado às queimadas urbanas, acabam por piorar a situação para toda a população de forma direta”, explicou.
Conforme o secretário, queimadas de grandes proporções como as registradas na semana passada na cidade não ocorriam desde 2010. “Em 2015, houve um princípio, porém, as autoridades competentes agiram e conseguiram isolar o fogo e cessá-lo antes que causasse maiores danos”, lembrou.
Questionado sobre ações preventivas, Bohrer avaliou que o que deve ser priorizado é a conscientização e a prática de técnicas que evitem incêndios desta proporção. “A exemplo, o feitio de aceiros e divisão em lotes na Terra Indígena a fim de evitar que caso haja incêndio, este não se propague por áreas maiores”, explicou.
No entanto,  o secretário esclarece que esse trabalho de prevenção é feito ao longo dos anos, mas deve se intensificar o diálogo.


CORPO DE BOMBEIROS

“Não há como afirmar onde o fogo teve origem”, diz 1º tenente

Anttoniery Campello: “reserva possui vários talhões que divide a área e serve como aceiros” - Foto: Arquivo Pessoal
Anttoniery Campello: “reserva possui vários talhões que divide a área e serve como aceiros” – Foto: Arquivo Pessoal

Deivid Rodrigues
Da Reportagem

De acordo com o 1º tenente do Corpo de Bombeiros, Anttoniery Campello, a reserva possui vários talhões que divide a área e serve como aceiros. “Essa divisão facilita a contenção do fogo”, pontua. No entanto, segundo o tenente, não há  como afirmar onde o fogo teve origem e o que teria provocado o incêndio na terra indígena.
PERÍODO PROIBITIVO – É o decreto 1092, de 14 de julho de 2017, conforme Campello, que determina, em seu primeiro artigo, a proibição do uso de fogo para limpeza e manejo de áreas de 15 de julho a 30 de setembro.
“Nesse período, nenhuma queimada é autorizada, nem mesmo para estudos científicos. Esse período é definido com base em dados do CPTEC/INPE (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) pelo número de dias sem chuvas, umidade relativa do ar baixa e as altas temperaturas no Estado de Mato Grosso”, explicou o primeiro tenente.
Campello informou que deve haver a precaução para evitar grandes incêndios em áreas rurais fazendo os aceiros nas margens das estradas e não atear fogo para limpeza ou tentar confeccionar aceiros negros. Já na área urbana, conforme o primeiro tenente, deve se evitar o uso do fogo para limpeza de terrenos ou na queima de lixo produzido por árvores e demais entulhos.
“O que incomoda a população de Rondonópolis são os efeitos da fumaça e isso contribui para o aumento de problemas respiratórios”, enfatizou.
Ele repassou que, diariamente, são registrados uma média de três incêndios em terrenos urbanos em Rondonópolis. “E esses incêndios contribuem também com a piora na qualidade do ar”, concluiu.


A voz da aldeia

Cézar Amim Rondon, professor da Escola Municipal Indígena Leosídio Fermau, Aldeia Tadarimana - Foto: Foto/Arquivo pessoal
Cézar Amim Rondon, professor da Escola Municipal Indígena Leosídio Fermau, Aldeia Tadarimana – Foto: Foto/Arquivo pessoal

“Caros amigos e amigas, moradores circunvizinhos ao Território Indígena de Tadarimana, Município de Rondonópolis! Venho em nome das crianças indígenas Bororo, das anciãs e anciãos Bororo, dizer que estamos sofrendo assim como vocês com a queimada em nosso Território Indígena Tadarimana, pois estamos dentro da área que está sendo devastada pelo fogo, e mesmo assim somos julgados a sermos nós os próprios incendiadores da nossa própria Terra Indígena, será que estamos sendo suicidas com a nossa própria gente, nosso próprio povo?

“Não! Não! Ainda temos o Espírito de Comunidade, do cuidado com o próximo, somos um Povo Sofredor e ainda assim tentamos sobreviver! Zelamos por nosso Território que é o pulmão de Rondonópolis, pois é onde vivemos, talvez, seja o lugar que ainda resta o verde das matas e somos os guardiões da floresta e dependemos dela para manter a nossa cultura e sobreviver, deveríamos ser lembrados disso nas mídias e Poderes Públicos.

“Temos um Grupo de Brigadistas que fez o curso, porém não tem incentivo do Poder Público Local (Serviço Voluntário),  mesmo assim o nosso Povo está nas matas combatendo o fogo. Pré-conceito é ter uma posição errônea e imediata daquilo que não conhecemos, e os conceitos que se têm sobre nós Povo Indígena Bororo são totalmente ou às vezes equivocados. Somos vizinhos de Rondonópolis e mesmo assim muitas pessoas da sociedade envolvente não conhecem a nossa realidade, pois nunca foram na nossa Aldeia para conhecer a realidade em que vivemos.

“Onde estão as chamas que vocês estão vendo, mora o Povo Bororo em três Aldeias num Território que é nosso por Direito. Estamos aqui para dizer que somos os primeiros interessados em combater essa queimada e que não fomos nós que colocamos o fogo no nosso próprio território Queremos sobreviver!”
Obrigado!


ATUALIZANDO

Fogo está controlado, garante Semma

Roberto Nunes
Da Reportagem

O incêndio que se prolongou por mais de 10 dias na Reserva Indígena Tadarimana foi controlado, segundo informou ontem o secretário Municipal de Meio Ambiente João Fernando Copetti Bohrer. “Até hoje [ontem], por volta do meio dia, havia apenas a fumaça de braseiros em restos de tocos de árvores. Este tipo de fogo, não tem força para se instalar em áreas verdes, pois próximo a eles, não há mais material de combustão. O pouco de fumaça que sai da área de mais de 2 hectares que foi tomada pelo incêndio vem destes tocos, mas gradativamente vai se acabar com a queima do que resta”, explicou o secretário.
Ainda na sexta-feira (8), conforme divulgado pelo A TRIBUNA,  existiam dois pontos de fogo, um às margens do Rio Jurique e o outro que queimava às margens do Rio Vermelho. “Esses dois focos estavam isolados nas margens dos rios, mas também já foram apagados”, assegura João Copetti.

1 COMENTÁRIO

  1. Na verdade o fogo não aparece do nada. Normalmente alguém o provocou de maneira intencional ou não, seja índio, seja branco. Nada acontece ao acaso.

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