Machado de Assis revisitado

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Bem-aventurados aqueles que trabalham naquilo que gostam. Ser professor de língua portuguesa tem me levado, ano após ano, à prazerosa tarefa de revisitar a obra do bruxo do Cosme Velho. Trata-se de um escritor que começa a impressionar pela própria biografia. Teve tudo em seu desfavor. Menino pobre, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira, desenvolveu seu talento de forma autodidata e transformou-se no maior fenômeno literário das nossas Letras e um gênio da literatura universal. Escreveu romances, peças teatrais, poemas, crônicas e contos. E foi sobre esses últimos que me debrucei nesse ano que se encerra.
Começando com contos cruéis como A causa secreta e O enfermeiro, deparei-me com a ironia refinada do escritor, suas provocações ao leitor, sua sintaxe concisa e, especialmente, a agudez da análise psicológica de um narrador que desnuda as motivações e interesses mais obscuros da alma humana. No primeiro conto citado, encontrei a crua descrição do sadismo de Fortunado, médico que se alimentava gota a gota do sofrimento alheio. Um dos seus costumeiros divertimentos era infligir castigo aos animais que matinha em casa, a pretexto de usá-los em experiências científicas. A doença terminal de sua esposa foi para ele motivo de prazer indizível. Em O enfermeiro, o protagonista matou, num acesso de ira, o idoso que estava sob seus cuidados, mas que diuturnamente o maltratava e o humilhava. No entanto, ao descobrir que o falecido o nomeara herdeiro universal de sua fortuna, o enfermeiro passa a justificar suas manias e impropérios, para alívio da consciência e justificando a paródia machadiana do Sermão da Montanha que serve de desfecho do conto: “bem-aventurados os que possuem, pois eles serão consolados”. Como faz em muitos outros passos de sua ficção, aqui o autor de Quincas Borba revela uma visão hiper-realista do ser humano, cuja ética e convicções não sobrevivem às tentações da conveniência.
E o que dizer do conto A missa do galo, narrativa que exemplifica a habilidade machadiana de trabalhar a ambiguidade, as entrelinhas e, sobretudo, sua tendência de pintar as personagens femininas, na esteira da famosa Capitu, de Dom Casmurro ou da inconstante Genoveva, de Noite de Almirante, como seres oblíquos e dissimulados? Já no Conto de Escola, o narrador em primeira pessoa nos mostra, no melhor estilo realista finissecular, que o ser humano é desde pequeno um ser acossado pela inveja e corrupção, mais tendente ao vício que à virtude. E em A cartomante, para terminar nossa viagem, encontramos mais uma vez uma história sobre triângulo amoroso que termina em tragédia, contrariando as profecias de felicidade da mística senhora que dá nome ao conto. Como diria Ítalo Calvino falando dos clássicos, Machado de Assis é assim, o mesmo e outro a cada leitura, a cada ano, a cada geração e, por isso, não só para mim por dever de ofício, mas para o leitor da alta literatura, será sempre um prazer revisitá-lo.

(*) Marcelo Brito da Silva é mestre em Literatura e professor do IFMT campus Rondonópolis

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