Delírios de um corrupto no leito da UTI

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Oh, que sofrimento, neste final de vida! Meus órgãos estão apodrecendo! Não tenho a quem apelar. Fui muito poderoso na minha existência material; Mas, dirigi todas as minhas energias para o mal. Fui político famoso. Apesar de haver iniciado a carreira movido pelos bons propósitos da cidadania, desviei-me da ética, atraído pela vaidade e pela ganância de adquirir poder, à qualquer custo. E, para tanto, lancei mão do que estava mais próximo, e me era acessível. Eleito deputado, e usando do prestígio e da popularidade que detinha, consegui eleger um parente para a prefeitura de minha cidade.
Ali, começou a roubalheira. Assessorado por “bons” peritos contábeis, comecei a desmontar o tesouro municipal. Sem escrúpulo algum, desviei dinheiro da merenda escolar e do transporte escolar. Submeti aquelas pobres crianças que, apesar de desnutridas, buscavam a luz do saber, à uma merenda escolar de baixa qualidade; por falta de ônibus, sujeitei-as à longas caminhadas, ora, sob sol inclemente, ora, sob fortes aguaceiros, trazidos pelas torrenciais chuvas de verão.
Enquanto isso, meus filhos, bem agasalhados, cursavam boas escolas particulares, dotadas dos mais avançados recursos pedagógicos. Animados pelos recursos obtidos, naquelas estréias de corrupção, eu e meu sócio, avançamos mais, e passamos a desviar os recursos da saúde. Inicialmente, reduzimos o número de médicos, depois, passamos a comprar medicamentos e materiais hospitalares por preços superfaturados; não importava se os remédios já estivessem vencidos; nossa meta era a divulgação da administração, aliada às vantagens auferidas, indevidamente.
Tudo entrava na negociata. Os mais vulneráveis – velhos e crianças, viriam à óbito. Mas, nada disso importava-me, eu estava bem, minha fortuna crescia; minhas fazendas aumentavam; as boas safras abarrotavam de grãos meus armazéns; meu gado era premiado nas exposições; minha família vivia na bonança.
À par da delapidação da Prefeitura, ainda fui, criminosamente, beneficiado nas hostes federais e estaduais. Em contatos com lobistas de poderosos empresários, vendi, inescrupulosamente, meu voto no parlamento em várias ocasiões para instituir leis contrárias aos interesses da população.
Meu saldo bancário se agigantava, e meus contadores e advogados faziam os malabarismos de praxe para justificar o injustificável perante a fiscalização e a Justiça. Nada de mal me acontecia. Tudo era acertado com aquele jeitinho do “toma lá dá cá”.
Sempre pousei de bom cidadão: religioso, bom chefe de família, assíduo na confraria e no clube de serviço; todavia, minha agenda era um mar de lama, povoada de traficantes, agiotas, falsários, prostitutas de luxo, corruptos e corruptores. Eu era rodeado de bajuladores, que me aplaudiam, e de pistoleiros, que me “protegiam”.
Pela força do dinheiro sujo amealhado, eu não perdia eleições; fui ungido para várias instâncias do poder. Mas, depois de todo esse “sucesso” na vida política e empresarial, a cobrança chegou. Fui tomado, inesperadamente, por um câncer maligno, que me hospedou nesta base de lançamento para a morte.
Agora, não consigo mais falar, porém, vivencio constantes pesadelos. Vejo vultos sombrios, que me fustigam diuturnamente. Minhas noites são assombradas por velhos magérrimos e desdentados, que empunhando tridentes, em minha direção, cobram-me a falta de assistência médica, que os levou à morte; crianças desnutridas, acertam-me pedradas, com suas estilingues em punho, cobrando-me a falta de merenda e de remédios, que consumiram suas vidas.
Sinto a ora da partida, e minha consciência, que estava tão desativada, agora se dilatou. Eu quero voltar para corrigir os meus erros. Socorro! Socorro! Socorro! Estou vendo o Japa da Federal, com as algemas…! Ele quer me pegar… Mamãe, socorra-me …!

(*) Valdemir Paes Landin é pioneiro de Rondonópolis, hoje residente em Chapada dos Guimarães – [email protected]

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