Diálogo na gestão da universidade: força da transformação

0

Ademar de Lima Carvalho - professor da UFMT - 03-02-06O desejo de estar inserido no processo de forjar uma universidade pública, gratuita e democrática, com educação de qualidade social, persegue a minha geração de estudante e de professor na educação superior. A nossa luta sempre esteve impulsionada por perguntas desafiadoras: que paradigma de universidade queremos e precisamos construir no mundo, nesse estágio atual de transformação? Que tipo de universidade estamos gestando no Campus Universitário onde atuamos?  Em que consiste a qualidade da educação universitária?
É evidente que a universidade sempre se constituiu em território de disputas, tanto no aspecto do controle político, como naquilo que lhe é específico como espaço de produção do conhecimento, alicerçado a indissociabilidade dos eixos ensino, pesquisa e extensão. O foco de nossa reflexão aqui passa pelo horizonte de problematizar e destacar aspectos que avalio indispensáveis para a ordenação da gestão. Isto porque, o Campus Universitário de Rondonópolis passa, neste momento, pelo exercício da constituição da práxis democrática, através de consulta direta à comunidade universitária para a escolha da Pró-Reitoria que irá gerir o campus nos próximos anos, num movimento de sua transformação rumo à Universidade Federal de Rondonópolis.
Parto da compreensão de que a universidade é práxis teórica, espaço por excelência para a produção do conhecimento e das relações. Neste sentido, entendo que a práxis teórica se faz ao problematizar e “conhecer a realidade, carregar a realidade e transformar a realidade” na coletividade. Assim, o que se pretende com o DIÁLOGO e TRANSFORMAÇÃO, em qualquer hipótese, neste momento atual no campus, “é a problematização do próprio conhecimento em sua indispensável relação com a realidade concreta, a qual gera e sobre a qual incide para melhor compreendê-la, explicitá-la, transformá-la”.
De acordo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional N. 9394/96, a educação superior tem como finalidade “[…] estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e pensamento reflexivo. […] formar diplomados nas diferentes áreas do conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. […] Incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura e, desse modo, desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive”.
Nesta perspectiva, penso que a educação superior é um bem cultural universal que precisa ser acessível à maioria da população e, por isso, a meu ver, sua grande missão, além de sua natureza e da especificidade de cada curso, é a de potencializar o estudante para o desenvolvimento da “curiosidade epistemológica”, a fim de que possa compreender o mundo do trabalho e se posicionar criticamente na sociedade. É também missão da universidade contribuir com a formação da consciência política do estudante, porque política, como destaca Helder Câmara, ”é antes de tudo, preocupação com os grandes problemas humanos e com os direitos fundamentais do Homem”. Dessa forma, a universidade (ou mesmo a escola), como instituição da sociedade civil, comprometida com a formação da subjetividade humana, tem uma intencionalidade e uma responsabilidade política, na medida em que se caracteriza pela sublime atividade de se preocupar e com o desenvolvimento humano, com a formação do sujeito.
Entendo que no mundo contemporâneo, a universidade pública não deve abrir mão de um de seus princípios basilares: “autonomia  e funcionamento democrático, com base em colegiados e cargos de direção eletivos” (JOSÉ NETO, 2012). Isso significa garantir o estabelecimento do compromisso com a qualidade do ensino alicerçada pela pesquisa, visando a formação intelectual do estudante para que ele seja capaz de ser dirigente  na sociedade. Isso significa pensar a universidade, como afirma José Neto, como a síntese do diverso, entendendo que, “nesse contexto, reafirmam-se como fundamentais os princípios éticos do DIÁLOGO e da promoção do outro, abrindo às condições para a promoção do pluralismo de ideias”.
Ressalto assim que o tempo presente urge por uma universidade pública popular. Logo, no contexto de uma universidade pública, a Reitoria e, em nosso caso, a Pró-reitora, não pode ser gestada de forma isolada, mas à luz de uma concepção teórica de gestão democrática no contexto da realidade atual, da política pública de educação como um todo, na medida em que a universidade participa, mais que de um projeto social local, de um projeto social do nosso país. Porém, não se trata de assumir a visão dominante idealista de universidade, engessada pela visão do cientificismo do conhecimento e do mundo, sobretudo, a perspectiva funcional da racionalidade técnica, da administração coordenada para o Estado Mínimo.
Particularmente, entendo que o compromisso da universidade é com a pedagogia para o pensamento crítico e com pesquisa que produz um conhecimento emancipador. Portanto, defendo a universidade fundamentada no princípio da gestão democrática que prima (e se faz) pelo DIÁLOGO e pela TRANSFORMAÇÃO, no contexto sócio-político-econômico, o que exige abertura de horizontes capazes de produzir o rompimento de algemas do pensamento dominante de universidade, sociedade, Estado.
A questão central é que estamos frente ao dilema da disputa das ideias e projetos políticos de universidade, disputa que em nossa realidade se configura no jeito que vamos constituir a nossa futura Universidade Federal de Rondonópolis (UFR). Estamos no movimento de travessia e, por isso, o/a Pró-Reitor/a precisa ter clareza e postura crítica para discernir sobre que projeto político de universidade pública se deseja instituir aqui.
Creio que é função de um/a Pró-Reitor/a, na dimensão ampla de um campus como o nosso, promover a articulação entre os diferentes institutos, que, muitas vezes, se isolam  tornando  pouco reconhecido o seu potencial no processo  de constituição de universidade autônoma. O desafio que se coloca para a comunidade acadêmica e à sociedade é sobre a definição de que universidade queremos e precisamos instituir para a nossa região.
Por essas e outras razões, entendo que a pró-reitoria em exercício constitui-se como instrumento catalisador e mobilizador de reflexão de universidade da realização humana, em um contexto de sociedade democrática. Na práxis universitária, somente uma força viva na função – ocupando o espaço – de Pró-Reitora irá produzir a transformação das relações, mas isso exige capacidade dialógica articuladora para promover, na educação universitária, o gesto acolhedor e inclusivo.
Como Freire, entendo que o DIÁLOGO é conteúdo da forma de ser própria da existência humana. Por sua vez, o DIÁLOGO constitui o jeito de ser, de assumir a luta política e de pronunciar o mundo da Professora Dra. Lindalva Maria Novaes Garske, frente à condução da gestão pública. Cônscio de que DIÁLOGO É TRANSFORMAÇÃO, estou com a Professora Lindalva para Pró-Reitoria do Campus. A Professora Lindalva é a força mobilizadora de vida da experiência no diálogo e transformação da universidade. Por isso, peço o voto da comunidade acadêmica do Campus Universitário para Profa. Lindalva Pró-Reitora.

(*) Prof. Dr. Ademar de Lima Carvalho, Depto de Educação/PPGEDU/UFMT/CUR

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here