As coisas boas da vida

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Emerson Arruda - 02-03-16Muitas pessoas por conta de suas convicções sejam elas religiosas, morais, teóricas e/ou ideológicas partem do pressuposto de que a vida está permeada de coisas boas, e de que elas são necessárias para o desenvolvimento equilibrado e saudável da psique humana. Essa constatação evoca o sentido de que os indivíduos necessitam de uma série de elementos, dos mais simples aos complexos, para experimentar aquela sensação de conforto, realização e felicidade.
Nesse sentido, desde a aprovação num processo seletivo e/ou concurso público, perpassando por férias tão sonhadas, e culminando em momentos comemorativos, tais como: aniversários, formaturas, encontros religiosos, eventos acadêmicos, dentre outros, somos aos poucos constituídos, e ao mesmo tempo, atravessados pelas doces e boas sensações que alimentam a alma.
É óbvio, que por conta da diversidade cultural, a noção do que seja bom acaba experimentando em si certo toque de relativismo, visto que, cada sujeito percebe e lê o mundo conforme os elementos mais importantes de sua formação moral e noção ética. O que de certo modo nos desafia a entender que a realidade não pode ser vista apenas sob uma única ótica; desta maneira, as consequências imediatas seriam a reflexão, o abandono de etnocentrismos, a capacidade de conhecer o outro, e acima de tudo, a habilidade de se construir um código ético de convivência.
Portanto, como cristão entendo que todas as coisas boas ou más estão sob a direção e a governabilidade de Deus, que segundo a sua graça permitiu-nos conhecê-lo sob a mediação do seu filho. Assim, o ato de perceber a sua presença, amar e adorá-lo se estabelece como uma relação de carinho transcendente, que nos permite olhar para o mundo não apenas sob as lentes do naturalismo, como se todas as coisas pudessem ser lidas apenas a partir de uma lógica tangível, mensurável e experimental, que se personifica nos caminhos metodológicos e teóricos de pesquisas efetivadas até o momento em nosso país e pelo o mundo a fora. Isso não significa que a produção do conhecimento advinda das diversas observações experimentais não tenha um papel significativo na história, pelo contrário, é a partir dela que vamos aos poucos percebendo as digitais de um criador que revela a sua existência naquilo que criou de modo único e inteligente.
Entretanto, experimentamos a sensação de prazer também, quando nos vinculamos as pessoas; e com elas temos a chance de conviver com várias perspectivas humanas, que como nós, sonham, amam, sofrem, erram, mas, que, acima de tudo, revelam apesar de seus limites, afeto, caridade, abraço, esperança, companheirismo e sorriso dentre outras virtudes.
Assim, viver com o outro nos dá a possibilidade de ver a vida como um caminho aberto para troca de experiências e a construção de um sentimento global, comunitário e plural, que por sua vez, rompe com projetos individualistas, que tendem a nos uniformizar, como se a complexidade da vida pudesse ser resumida tão somente em concepções piagetianas, freudianas e grasmcianas, dentre outras. Neste caso, conviver com as pessoas é um ato de coragem, sensibilidade e esperança, posto que exige todos os dias a capacidade de ver o outro não como um inimigo a ser combatido, mas como uma pessoa que de algum modo participa dos eventos cotidianos da história e da nossa própria vida.
Logo, pode-se afirmar que as coisas boas da vida envolvem a presença graciosa de Deus e de diversas pessoas, contudo é importante lembrar que nos sentimos realizados e felizes quando compreendemos o nosso papel como profissionais dentro da sociedade em que estamos inseridos. De tal maneira, que essa perspectiva nos remete aos tempos de criança, em que ao sermos indagados sobre o que seríamos quando crescêssemos muitos de nós respondiam: “eu quero ser policial,” “cantor,” “jogador de futebol”, “professora,” “caminhoneiro,” “gari para andar do lado de fora do caminhão” e um determinado “super-herói”! Naquele tempo, mal sabíamos que todos os trabalhadores eram e ainda são os heróis que produzem e sustentam o desenvolvimento econômico, cultural e intelectual nos diversos campos do trabalho e da produção humana.
Na verdade, independente de qual seja a área da nossa atuação profissional, é sempre importante ensinar aos nossos filhos e a todas as próximas gerações que um gari, um pedreiro e empacotador num supermercado são tão importantes quanto médicos, advogados e professores universitários, dentre outras funções, que são tidas como as melhores e mais dignas na cultura do sucesso mercadológico. É sempre importante afirmar que quando um trabalhador exerce a sua função com assertividade, autoconhecimento, gentileza, dedicação, compromisso ético, reconhecimento e salário digno, isso lhe facultará a certeza de que o trabalho é um elemento importante na promoção da história, da cidadania e do senso de participação nas transformações do mundo, e de que ele não é apenas uma simples peça e/ou ferramenta de toda a estrutura de produção e alienação capitalista, pelo contrário, ele é um agente histórico.
Deste modo, podemos concluir que a vida é sem sombra de dúvidas constituída e atravessada por coisas boas que alimentam nossos sonhos, emoções e planos. Assim, Deus, as pessoas e a capacidade que temos de produzir algo bom e útil na sociedade se estabelecem como paradigmas importantes; e como cristão, tento todos os dias, apesar dos meus erros, conviver com tudo e com todos, aprendendo, significando, resignificando, construindo, descontruindo, e tentando perceber como se dá cotidianamente o encontro das pequenas peças da vida.

(*) Emerson Arruda é teólogo, filósofo, psicopedagogo, mestre em Educação, licenciando e doutorando em História, professor da rede particular de ensino e pastor da Igreja Presbiteriana Luzevida no bairro Jardim Rondônia, Rondonópolis

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