Da cegueira à luz

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Dom Juventino Kestering - 02-07-12A cegueira é realidade que acompanha a vida da humanidade. Desde a antiguidade há relatos sobre a causa, o modo de cuidar, a presença do cego na família e na sociedade. Eram visto como castigo, peso para a sociedade, descartável e condenado ao esquecimento. A passagem da visão fatalista e condenatória para a aceitação e integração na sociedade foi e é um longo e demorado processo de integração.
No tempo de Jesus, os evangelhos relatam o modo como Ele se posicionou diante de um cego. Marcos 10,46-52, narra o episódio do cego Bartimeu. Conhecido na sua redondeza. Estava pedindo esmolas, “sentado à beira do caminho”. Ele não estava no caminho, na família, na sociedade, na comunidade, mas sim “à beira”, excluído, esquecido. Sozinho. Sua única defesa era o grito. Ele escuta um tumulto de gente. Pergunta o que está acontecendo! Alguns o informam que era Jesus que estava passando. O cego à beira do caminho e Jesus no caminho. Ali acontece troca de olhares, de atenção, de preocupação entre quem passa no caminho e quem está à beira do caminho.
Essa é a realidade dura de milhares de pessoas, homens, mulheres, jovens e crianças que estão à beira do caminho: família esfacelada, desemprego, dominado pelo vício, pobres, excluídos pelo sistema econômico, falta de fé, de Deus, de religião, de sentido para a vida. Recordo a cena dos refugiados na Europa enfileirados e tocados a cavalo, como animais.
Muita gente passa pelo caminho e não percebe ou não quer perceber o grito dos que estão “à beira do caminho”.  Jesus disse: “Ide! vão, não fiquem parados”. O Papa Francisco insiste na “igreja de saída, que vai às periferias, aos sofridos, abandonados, aos que estão à beira do caminho”. Na minha, sua, nossa comunidade, família, rua, bairro, município quem são os que estão à beira do caminho?
Bartimeu ao ouviu falar que era Jesus que passava, adquire ânimo, força e começa a gritar: “Jesus Filho de Davi tem piedade de mim”. Jesus para, retorno e se faz próximo daquele que estava à beira do caminho. Disse aos discípulos: “Chamai-o”. Jesus retirou Bartimeu da beira do caminho e o colocou no caminho, ao seu lado e estabelece um diálogo: “O que queres que eu te faça”. ‘Que eu vejo’ disse o cego. Diante desta expressão pública de fé, Jesus o cura de sua cegueira. Recuperado ele seguia Jesus.
Gesto lindo de Jesus. Acolhe o grito de quem está ao lado do caminho, chama para o caminho, pergunta, escuta as dores, os sofrimentos, as queixas, as lágrimas, a solidão, o abandono, a tristeza, humilhação, os xingamentos, as amarguras do coração, as decepções da vida, do casamento, do amor, a exclusão da sociedade, a miséria.
Penso nos povos indígenas, nos quilombolas, nos ribeirinhos, nos amontoados das favelas, nos moradores de rua, nos desempregados, nas crianças sem rumo e nem horizonte, nos adolescentes nas drogas, nos corações cheio de orgulho, de vaidade, de adultério, de rancor…
Há muita gente sem perspectiva e sem horizonte de vida, sentada à beira do caminho, acomodada e fechada dentro de seu egoísmo. Outros, sentados porque enfrentam o desafio da cegueira, do desemprego, da família esfacelada, do alcoolismo, da prostituição, das drogas e do consumismo.
A cegueira é desafio para os que veem, mas fazem de conta que não enxergam. Essa é a pior cegueira. A cegueira de quem está ocupado em seus afazeres, o dia todo sozinho diante do celular, do computador, com fone no ouvido, pensando somente em si, no consumo e esquecendo dos outros. Apesar de ver, vive como se não visse nada, pois o egoísmo o fechou em seu coração.
Cego não é aquele que não vê, mas aquele que não quer ver. Quantos passam a vida sentados à beira do caminho, braços cruzados, olhos perdidos no vazio e na escuridão, acomodados, desencorajados, desesperançados, descrentes de Deus, da vida, das pessoas… cegos para o amor, para o perdão, para a misericórdia, para a disponibilidade, para o serviço aos irmãos, para a partilha; para a humildade, para o desprendimento. “É Jesus que hoje passa na rua de seu coração, de sua família, de sua comunidade. Não deixe Jesus passar, sem voltar o olhar para Ele”.

(*) Dom Juventino Kestering é bispo de Rondonópolis-Guiratinga

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