Pelo direito à paisagem

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Fabio Angeoletto - 27-08-15Pesquisas realizadas com presidiários norte-americanos, cujas celas tinham vistas para paisagens naturais, constataram que estes precisavam de menos cuidados médicos do que aqueles prisioneiros que avistavam apenas uma parede. Este experimento reforça o senso comum segundo o qual a natureza pode relaxar e refrescar o espírito, especialmente quando a experiência diária de um cidadão envolva estresse, estimulação excessiva ou trânsito por ruas abarrotadas de pessoas e carros. A sensação de relaxamento é fortalecida se o cenário natural de uma praia, parque ou praça ‘’remova’’ o usuário daquele espaço, dos ruídos de sua agitada vida urbana.
O urbanista Stephen Carr, no seu livro Public Space, afirma com propriedade que características da natureza – como o céu, uma área selvagem, bosques ou a água – têm significados especiais para as pessoas, as quais se sentem vinculadas a elas. De fato, a literatura sobre arquitetura paisagística registra dezenas de trabalhos que evidenciam que uma vez dada a oportunidade aos usuários para que escolham as qualidades de futuros espaços públicos, eles irão solicitar a presença de elementos naturais. Assim como os outros primatas, os seres humanos são curiosos. Daí apreciarem explorar a diversidade visual de um local, e sentirem um prazer peculiar em avistar animais silvestres.
As cidades à beira-mar do Brasil têm o privilégio de contar com belas praias, compostas por uma miscelânea de paisagens, que vão desde a faixa litorânea até áreas de mangue, rios que desaguam no oceano, dunas e outras, as quais servem de habitat a uma grande variedade de organismos. Infelizmente, algumas de nossas praias têm sido maculadas por uma utilização inadequada. Tornaram-se ao mesmo tempo ruas e estacionamentos de possantes jipes e caminhonetes. É comum encontrar nesses espaços centenas de veículos estacionados, ocupando a areia que deveria ser exclusiva para o desfrute dos banhistas. Um bom exemplo de uma paisagem degradada pela estupidez cafona da “automóvel-dependência” é a Praia do Cassino, no Rio Grande do Sul. Seus usuários trazem isopores com bebidas alcoólicas e alimentos de casa, e é comum o uso de aparelhagens de som, com canções de gosto duvidoso, em volume lesivo ao sistema nervoso central. Não deixa de ser cômico observar que cidadãos de classe média, tão orgulhosos dos símbolos de status (seus veículos) pratiquem a ‘’farofa’’, expressão pejorativa para um hábito comum entre a população de baixa renda.
No entanto, a graça da situação logo se esfuma quando constatamos que esses piqueniques causam uma série de impactos negativos. O trânsito desses automóveis, muitas vezes intenso, obriga os banhistas a locomoverem-se somente em uma faixa estreita, próxima à linha d’água. Alguns motoristas, provavelmente alcoolizados, abusam da velocidade, aumentando o risco de atropelamentos. O uso de aparelhos sonoros e os ruídos provocados pelos veículos afastam as aves e outros animais. Certamente há impactos à fauna que habita a areia das praias. Resumindo, em prol da comodidade de alguns, perdem muitos cidadãos e turistas, e perde a vida silvestre. É imprescindível o fechamento das vias de acesso dos carros a essas praias. Se infelizmente não podemos contar com o bom senso de alguns, que a força da Lei faça-os compreenderem que seus automóveis e seu lixo sonoro são uma perturbação intolerável.

(*) Fabio Angeoletto é biólogo e professor do Mestrado em Geografia da UFMT, campus de Rondonópolis

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