Conselho: quem é que quer?

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Wilse Arena - 13-09-14

Dizem que “se conselho fosse bom era vendido e não dado”, ou algo parecido. Esta frase, aparentemente inocente, comprova que os “tentáculos” dos interesses econômicos do mundo moderno e contemporâneo cabem em todo e qualquer lugar! Aquilo que não serve para compra e venda, não serve para nada, é ultrapassado e ponto final.
No mundo dos negócios o que vale são os valores monetários. Assim, muitas pessoas influenciadas por tais princípios acabam jogando pelo ralo “a água suja com o bebê dentro”, como diz um velho ditado popular. Ocorre que quem tem costume, ou melhor, o hábito ou até a mania de dar conselhos são as pessoas mais velhas e se nem sempre suas orientações e sugestões são coerentes com as necessidades e interesses predominantes nas sociedades contemporâneas, não significa que tudo o que dizem possa ser desprezado.
É preciso ter discernimento para saber o que está calcado em valores ultrapassados e reacionários de outros, que primam pela sensatez, pelo respeito ao próximo, pela defesa de direitos humanos universais (como o direito à vida, a um meio ambiente ecologicamente equilibrado), entre outros, aprendidos pela experiência servem, e muito, como exemplo e/ou parâmetro para as novas gerações.
Em consequência, nossos jovens ficam cada vez mais à mercê do consumismo sem fronteiras, perdidos em meio a um amontoado de informações que chegam aos milhares pelos meios de comunicação de massa, em particular pela internet, mas de modo fragmentado, sem que saibam como articulá-las entre si e, menos ainda, com suas próprias experiências cotidianas de vida. Sem referências, vão “vivendo a vida”.
Alguns, privilegiados (não necessariamente o ponto de vista econômico), ainda têm o apoio dos pais, conseguem manter um diálogo aberto com eles. Outros, privilegiados pelo poder econômico, também, têm a oportunidade de frequentar uma boa escola, viajar para outros países, participar dos negócios da família, o que acaba de certa forma, auxiliando-os nos rumos que darão às suas vidas no futuro.
Mas, mesmo entre esses últimos, que por falta de atenção e carinho aproveitam as condições econômicas e as oportunidades que têm para se lançarem em um mundo de perdição, do qual poucos conseguem retornar. E tem aqueles que não têm nem uma coisa nem outra, ou seja, nem atenção, nem carinho, nem condições econômicas que lhes amplie as oportunidades de crescer na vida e, por isso, ficam à mercê de políticas públicas que os ampare, os oriente e lhes dê esta oportunidade.
Mundo cruel o que vivemos! Onde crianças, jovens e adolescentes, cegos pelo consumismo, por falta de oportunidades e/ou de atenção, carinho e afeto acabam comprometendo seu futuro e, consequentemente, o futuro da Nação.
Um mundo no qual predomina o egoísmo, o egocentrismo, o preconceito, a discriminação e a segregação, uma vez que ter dinheiro, poder e beleza se tornaram valores e bens mais importantes do que amar e ser amado; respeitar e ser respeitado; ser ético e solidário; ter compaixão pelo próximo. Ser humano e feliz, enfim!
De minha parte, penso como nosso querido e saudoso Oscar Niemeyer, o arquiteto dos arquitetos brasileiros (1907-2012): “Desejo ver um mundo melhor, mais fraternal, em que as pessoas não queiram descobrir os defeitos das outras, mas sim, que tenham prazer de ajudar o outro”.
Será que devemos desprezar o legado de Oscar Niemeyer (entre outros, inclusive de nossos pais e avós), só porque era idoso demais e já nem vive entre nós?

(*) Wilse Arena da Costa, Doutora em Educação: Psicologia da Educação. Escritora, pesquisadora, palestrante e membro da Academia Rondonopolitana de Letras/MT.

1 COMENTÁRIO

  1. Olá Aires, obrigada pelo comentário e que bom ter notícias de ti, além de um maravilhoso poeta, meu primeiro mestre em informática, lembra-se? Fiquei muito feliz em saber que és Prof. Adjunto da UFT. PARABÉNS! Feliz de seus alunos. Com certeza são privilegiados. Grande abraço.

  2. Concordo em grau, número e gênero com tudo o que você disse estimada professora Wilse Arena da Costa. Realmente o mundo caminha a passos largos a uma indefinição total do futuro. E nosso país parece que está a frente de toda essa falta de pensar racionalmente seu próprio caminho a ser seguido. O consumismo desenfreado; o egoísmo massificado; a ética desvirtuada; a sensibilidade fragilizada; a política de levar vantagem em tudo; a preguiça de pensar; o comodismo sem precedentes na história da humanidade; a falta de perspectivas em um mundo melhor cada vez mais latente; um ambiente cada vez mais deteriorado pela ganância capitalista; interesses individuais sobrepondo aos interesses coletivos; educação, arte e política cada vez mais se tornando mercadoria a ser vendidas aos mais “espertos” (pois são estes que lucram com a falta de inteligência e/ou educação de fato da maioria da população brasileira – veja só a qualidade da “música” atual, como um dos inúmeros exemplos), enfim, realmente precisamos, de vez em quando verificarmos alguns “conselheiros do passado” para ver onde erramos e encontrar possíveis saídas que nos deem guaridas seguras para um futuro melhor que o presente.

    Aires José Pereira é prof. Adjunto da UFT no curso de Geografia em Araguaína, possui 12 livros editados; vários artigos publicados em Revistas Científicas, é pesquisador do NURBA, coautor do Hino Oficial de Rondonópolis, membro efetivo da Academia de Letras de Araguaína e Norte Tocantinense e poeta por gosto e por pirraça que acredita nas palavras transformadoras de homens e de espaços.

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