O bom rotariano

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Jerry Mill - 10-04-13
“Hoje, algumas gerações depois, o que era um simples encontro de um grupo de empresários e amigos se transformou numa portentosa entidade de nível global com mais de um milhão de membros”

(*) Jerry Mill

Conta-se que, não faz muito tempo, em algum lugar deste imenso Brasil (cada vez menos brasileiro), um homem de pouco estudo, e menos dinheiro ainda, foi vítima de um assalto e perdeu as poucas coisas que lhe restavam – dentre elas a dignidade. Então, sozinho e distante de casa, ele decidiu procurar um político que, como não era época de eleições, disse que certamente o ajudaria – “assim que possível”. Descrente em relação à promessa feita, o homem procurou a igreja mais próxima, onde um pastor tentou incutir nele que isso era obra do inimigo, do cramulhão, do coisa-ruim, e que a resposta (e a solução) para todos os seus males estava ali com ele, na palavra de Deus!

O homem decidiu ir para as ruas e começou a abordar as pessoas, ora pedindo informações para conseguir trabalho e um lugar para ficar, ora pedindo ajuda de qualquer espécie, inclusive dinheiro – já que a fome passara a ser sua companheira há algumas horas. Prestes a desistir, ele viu algo de diferente na multidão, uma pessoa que, aparentemente simples no andar e no jeito de se vestir, emanava um sorriso sincero e a bondade no olhar. A pessoa veio em sua direção e o cumprimentou, apesar de o homem já estar maltrapilho e bastante abatido. Mais do que isso, a pessoa perguntou ao homem se ele já tinha comido nas últimas horas, se estava bem de saúde e se precisava de algum tipo de ajuda. Conversa vai, conversa vem, e as devidas providências foram tomadas.

De modo similar ao conto bíblico (Lucas 10:30-37), cada um de nós, todos os dias de nossas vidas, pode escolher entre fazer o bem ou não a alguém. Podemos ser os salteadores, o sacerdote, o levita ou o samaritano – isso se não formos o homem que descia de Jerusalém a Jericó quando foi despido e espancado. O mundo moderno, convenhamos, mais agitado e violento, se comparado à rotina de outrora, é marcado pela superficialidade nas relações e no apego exagerado à tecnologia e às facilidades oferecidas pelo capitalismo – calcado em três verbos poderosos: comprar, trocar e ter. Mas, felizmente, sempre haverá ilhas de bondade espalhadas por aí, não é mesmo?

Também está registrado na história do mundo que, não faz muito tempo, em um país relativamente distante, um homem comum, num momento incomum, teve uma ideia inegavelmente interessante, e lucrativa: promover reuniões semanais em diferentes locais com o intuito de aproximar os mais distintos profissionais (autônomos ou não) a fim de cultivar um forte laço de amizade, respeito e colaboração entre eles, além de, juntos, direta ou indiretamente, ajudar pessoas necessitadas. E assim foi feito.

A iniciativa, tímida no início, foi recebendo apoio e adesões importantes com o passar do tempo, devido à seriedade e viabilidade da proposta. Hoje, algumas gerações depois, o que era um simples encontro de um grupo de empresários e amigos se transformou numa portentosa entidade de nível global com mais de um milhão de membros em todos os continentes que ajudam, com trabalho ou diversas outras formas de contribuição, outros milhões de pessoas – de diferentes gêneros, credos, etnias, etc.

Lógico que estamos falando do Rotary, uma entidade centenária que é um espelho da sociedade em que vivemos, o que quer dizer que não se trata de uma instituição sem problemas, desarranjos ou estranhamentos internos e externos. Entretanto, mesmo tendo pessoas que às vezes têm conduta (para dizer o mínimo) reprovável, a maioria de seus associados representativos é de pessoas bem intencionadas, que praticam companheirismo na melhor acepção da palavra e são felizes porque sabem que os seus gestos de caridade e gratidão trazem incontida felicidade a muito mais pessoas.

O ano de 2014 mal começou, e talvez já tenha passado da hora de todos nós, rotarianos ou não, sermos menos egoístas e interesseiros, pois é com o bom rotariano, quer dizer, com o bom samaritano (ou os dois, pronto!) que a certeza de que vale a pena continuar lutando por um mundo melhor, mais humano e mais justo vai sempre estar…

(*) Jerry Mill é mestre em Estudos de Linguagem (UFMT), presidente da Associação Livre de Cultura Anglo-Americana (ALCAA), membro da ARL (Academia Rondonopolitana de Letras), associado representativo e oficial de intercâmbio do Rotary Club Rondonópolis (D4440).

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