Risco

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“os aviões invisíveis, destinados a fiscalizar as nossas fronteiras, foram depositados nas urnas eletrônicas das últimas eleições e ninguém mais fala deles”

A instalação de um centro formador de recursos humanos na UFMT visando o preparo de equipe multidisciplinar para atender os dependentes químicos, me estimulou a estudar e a escrever sobre esse assunto. É inacreditável verificar como a violência tomou conta do nosso Estado e, principalmente, da nossa ex-Cidade Verde.
O editorial de um jornal da Capital nos informa que até a outrora tranquila vida nos distritos e na zona rural da capital, está dominada pelos criminosos. É vergonhoso o número de policiais existentes para garantir a vida daquela gente.
O pavor é generalizado. O combustível para toda essa violência têm vários componentes. O principal deles, aquele responsável pela grande maioria do desencadeamento das ações criminosas, é a droga. Nossas fronteiras permanecem escancaradas para esse comércio ilícito, principalmente com os nossos amigos peruanos, colombianos e bolivianos.
Os recentes homicídios cometidos por aqui parecem até que são para manter o acordo comercial com a cidade de San Mathias (Bolívia). Carros roubados, com assassinato dos seus proprietários – na maioria das vezes – são trocados pelo pó branco, pedras e pela pasta básica.
O prefeito daquela próspera cidade consta da relação da Revista Época como um dos 20 barões da coca no mundo. Esse respeitável senhor boliviano possui importantes amizades no Brasil. Os aviões invisíveis, destinados a fiscalizar as nossas fronteiras, foram depositados nas urnas eletrônicas das últimas eleições e ninguém mais fala deles.
Sei que a fiscalização e o combate ao narcotráfico neste momento não são prioridade nacional. A Copa do Mundo e o combate à miséria são os dois grandes projetos nacionais para esses próximos anos. Além, é claro, das aulas internacionais aos países desenvolvidos, para ensiná-los como dirigir uma nação.
Cuiabá, além de ser transformada pelos nossos políticos em uma droga de cidade, é uma cidade drogada. Recentemente, no México, a Organização das Nações Unidas (ONU), pronunciou-se sobre as consequências das drogas: “É um risco ser jovem nos países afetados pelo narcotráfico, com alta desigualdade social. Problemas de delinquência, organizada pelo narcotráfico, constituem o maior risco para esses jovens morrerem assassinados”.
Esse estudo da ONU destaca que, por natureza, os grupos de delinquentes mantêm-se nas camadas sociais baixas, e por isso as autoridades não procuram a justiça. Isso se denomina, paz mafiosa.
Em outros casos, particularmente quando há uma escalada no confronto com as autoridades – como recentemente aconteceu na favela do Alemão no Rio de Janeiro – a presença do crime organizado pode provocar um crescimento na violência e homicídios.
O mesmo acontece quando há conflitos entre facções criminosas rivais. É impressionante o número de armas apreendidas, quando dessas operações. Segundo a ONU, a crise econômica, o número elevado de população jovem, as armas contrabandeadas, tudo combina para produzir um maior número de homicídios.
O governo brasileiro, de braços cruzados, parece estar na janela vendo o crime passar. Ser jovem neste país é risco. Tragédia maior? Desconheço. Providências? Bem, deixa pra lá.

(*) GABRIEL NOVIS NEVES é médico em Cuiabá, foi reitor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)

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