A crise crônica dos partidos políticos

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Os partidos políticos são fundamentais para o processo democrático de construção de uma sociedade justa, embora a maioria dos cidadãos não pensa assim. No entanto, grande parte dos partidos não cumpre com a sua função ou razão de ser, o que leva a maioria dos estudiosos a sustentar que os mesmos se encontram em profunda crise. Esta é uma das causas que leva muitas pessoas a desvalorizar os partidos políticos.
O conceito partido político tem as suas raízes ou origens no termo “parte” de um todo social. Neste sentido, o partido é uma parte do povo que tem um projeto de sociedade para toda a população de um determinado país. Em termos teóricos, o partido é uma organização política que tem a incumbência de conduzir o processo de construção da sociedade almejada. Os projetos de sociedade se assentam, basicamente, em três grandes formatos: conservador, reformista e revolucionário. Estas diferentes formas possíveis de organização da sociedade justificam a existência de vários partidos políticos.
A parte dos cidadãos que concorda ou possui afinidade ideológica com o projeto de determinado partido tem o direito e, eu também diria, o dever de se filiar e atuar nesse partido ou, ao menos, nas eleições votar nos seus candidatos. O caminho democrático de luta política pelo objetivo estratégico é a conquista crescente de espaços do poder do Estado. Tornar-se o partido hegemônico (predominante) no sistema político é a condição política ideal para tanto. O partido, portanto, é um instrumento político de luta pela instauração da sociedade projetada.
No Brasil, em 1979, foi introduzido o sistema pluripartidário, ou seja, foi permitida a criação de inúmeros partidos políticos, desde que cumprissem certas exigências mínimas. Até então, durante o regime ditatorial iniciado em 1964, só existiam dois partidos legalizados. Desde o começo da década de 1980 até hoje surgiram muitos partidos, vários deixaram de existir e outros continuam sendo criados. Atualmente, temos quase 30 partidos políticos registrados em nosso país, uma sopa de letras para todos os gostos.
O problema, e isto é uma das causas da crise, é que muitos desses partidos políticos não foram criados para lutar por um projeto genuíno de sociedade. O propósito dessa criação limita-se em atender os interesses específicos ou particulares de certos grupos sociais (inclusive religiosos) ou caciques políticos, e não para contemplar os anseios de todos ou da maioria dos indivíduos. Há, portanto, um desvirtuamento da verdadeira função dos partidos políticos.
Os projetos de sociedade que podem ser pensados enquanto substantivamente distintos entre si – desde o reacionário anti-liberal até o revolucionário comunista – são em quantidade limitada. Não passam do número máximo de 5 a 8 formas alternativas possíveis de organização estrutural da sociedade. Este deveria ser, portanto, o número de partidos políticos.
Uma outra causa crucial da crise dos partidos é a crise do socialismo, que se aprofundou a partir de 1989 com o início da derrocada do sistema soviético. Os principais partidos de esquerda ou socialistas abandonaram, na prática, o projeto revolucionário e passaram a defender reformas no sistema capitalista. A falta ou a crise de modelos alternativos ao capitalismo vigente – ou que possam ser vislumbrados como viáveis historicamente, mesmo que a longo prazo – faz com que os principais partidos de esquerda são sempre mais parecidos com os da direita ou conservadores, inclusive fazem alianças entre si. Hoje temos um monte de partidos, entre eles o PT, que se trombam entre si em torno do projeto reformista e, da mesma forma, uma quantidade grande de agremiações políticas que se acotovela na defesa do capitalismo liberal.
A movimentação dos partidos políticos em Rondonópolis em torno das eleições municipais deste ano retrata essa realidade. Os partidos estão articulando as coligações em torno dos principais caciques para disputar a eleição do prefeito e dos vereadores, assim como para ter acesso a cargos públicos por nomeação. Não está em discussão um projeto de sociedade local. O fim último é o poder, e não o uso deste para transformar a nossa cidade em espaço de bem-estar. A exceção está sendo o PT local, que está discutindo um projeto para o município e pretende lançar candidato próprio para prefeito, indo contra a estratégia deste partido em âmbito nacional. Com este novo comportamento político, o PT daqui está realizando o que não fez nos últimos 20 anos, período em que serviu de instrumento político para atender os interesses pessoais do Juca Lemos.
Esta crise crônica dos partidos políticos, ao que parece, ainda vai ter vida longa. O contrapeso essencial é a organização e a pressão dos diferentes setores da sociedade civil. Muitos grupos sociais estão organizados no nosso município, desenvolvendo importantes ações. Falta-lhes uma maior presença na política, interferir nos partidos e pressionar os políticos para que cumpram com as suas funções. Afinal, eles existem, são eleitos e pagos por nós para isso.

(*) PLÍNIO JOSÉ FEIX, Prof. da UFMT/Campus de Rondonópolis, doutor em Ciência Política pela UNICAMP

1 COMENTÁRIO

  1. Plínio, amigo velho, o PT de Rondonópolis deveria se chamar de Partido Tardio. 20 anos a serviço de um “coronel sindicalista” é muita incompetência dos militantes em manter tal status quo partidário. Mas, como dizem os mineiros: Liberdade, ainda que tardia. Parabéns aos novo petistas de nossa cidade. Que tais ideias frutifiquem.

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