Visitação à cidade dos mortos

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Dois de novembro. Dia dos Mortos. Como manda a tradição, o cemitério, que sempre passa por rigorosa limpeza nos dias que antecedem à data fúnebre, amanhã estará com o agradável aspecto de um bonito e bucólico jardim. Os túmulos, de pintura nova, estarão ornamentados com lindas coroas e viçosas flores. Tudo muito conveniente, prático e asséptico como convém à modernidade dos tempos atuais. Em frente ao denominado campo santo, necrópole para os grã-finos snobes e “cidade dos pés juntos” para a plebe ignara, estará o bazar da morte, a movimentada feira de flores e velas que serão vendidas para o ritual que hipocritamente denominamos de homenagem aos que se foram desta para a melhor. Milhares de pessoas que tentam aparentar uma contrição e reverência que não sentem, visitarão o cemitério para rezar e reverenciar seus finados, compensando assim o descaso com que os trataram deixando-os abandonados durante todo o ano.

Confesso, não sou dado à prática desse ritual agora tão banalizado e pobre de sentimentos. Irrita-me a desfaçatez dos falsos compungidos, cuja hipocrisia e irreverência transformam em frivolidade um ato de amor e veneração. Houve época em que o culto aos mortos, cuja origem se perde na longa noite dos tempos, era levado mais a sério e praticado com mais unção e respeito. Talvez a consciência das nossas imperfeições e a efemeridade das coisas humanas minimizando o significado e importância da vida, nos tenham tornado indiferentes às coisas do eterno e nos levado à banalização da morte.

A sentença bíblica do “és pó e ao pó retornarás”, que supostamente retira do homem seu espírito imortal reduzindo-o à simples matéria e que para muitos representa a confirmação da finitude do ser humano, parece desobrigar-nos de maiores preocupações com aqueles que já concluíram a travessia e transpuseram as fronteiras do desconhecido.

Daí, reverenciar os mortos não passar hoje de uma mera atitude convencional, de um simples compromisso em nossa agenda de novembro, do cumprimento de uma incumbência sem maior importância.

Por isso tenho o meu cemitério particular. Meus mortos eu os enterro dentro de mim. Não sob os sete palmos de terra fria de uma cova rasa ou num rico mausoléu de mármore de Carrara, mas, como diz o poeta, no lado esquerdo do peito, bem dentro do coração. Não os visito a cada dois de novembro porque sempre os carrego comigo. Estão sempre vivos e permanecem em mim porque não deixo de lembrar-me deles. O segredo dessa permanência reside na memória de quem ama e é amado através do tempo e do espaço, assim na terra como no céu. O viver além da morte, mistério perquirido incessantemente por cientistas, filósofos e teólogos parece não ser indecifrável como julga a nossa vã sabedoria. Tenho para mim que não é nada mais que a presença dos que se foram na memória dos que aqui permanecem. Se esquecemos nossos mortos, eles desaparecem como se nunca houvessem existido.

Há pessoas que encarnaram sua época e deixaram marcas indeléveis ao longo de seus passos. Mesmo do outro lado da fronteira nos fazem evocar sentimentos imperecíveis que criam laços inquebrantáveis, impressões e saudades que as tornam companheiras nossas nessa travessia que é a vida. Vida tão cheia de imprevistos, encontros e desencontros, descobertas e encantamentos. Meus mortos são assim. Sempre presentes, sustentam-me e me animam a prosseguir a caminhada na trilha dos seus exemplos. São como anjos da guarda que habitam meus sonhos e me acompanham em minhas horas de tristezas e alegrias, sempre atentos e prontos para dar-me um empurrãozinho para a frente quando os vivos procuram me tolher os passos…

(*) Wilson Lemos é advogado, jornalista e poeta em Rondonópolis – Email: [email protected]

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