Até que a sucessão os separe

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Aquinhoado com cinco ministérios, finalmente o PMDB aportou de mala e cuia no Governo. Afeito à prática do adesismo, só fica à vontade na condição de caudatário. A partir da traição a Ulisses e Quércia, quando os expôs ao vexame de acachapantes derrotas, o partido perdeu o brio e a capacidade de luta. Hoje é bacurau de vôo rasante, sem asas para tentar chegar às alturas. Sem ter coragem de competir no plano nacional e contrariando a vontade das bases, não mais ousou disputar a Presidência da República. Apequenou-se e passou a disputar cargos de vassalo. Ser oposição, nem falar. Só o foi nos tempos da ditadura, quando lhe faltava uma letra no nome e era uma frente que abrigava os que se opunham ao regime militar.

No primeiro mandato de Lula, a quem não apoiara em nenhuma de suas tentativas de chegar à Presidência, o PMDB mostrou toda sua capacidade de adaptar-se às circunstâncias e tirar proveito delas. A cúpula mantinha o partido oficialmente fora do Poder, mas alguns dos seus principais caciques sentavam-se à mesa farta do banquete oficial, enquanto vários dos seus comandados brincavam de fazer oposição ao Governo. E com isso, ou por isso mesmo, conseguiu emplacar importantes ministérios e vários outros órgãos de peso na Administração federal. Era a operação uma mão lava a outra e as duas lavam o rosto: o partido queria ser Governo e este precisava dos fisiológicos para neutralizar os rebeldes. Hoje, oficializada a participação, o PMDB por inteiro passou a usar chapa branca e tem seu endereço no condomínio do Poder. Só uns poucos mal-amados fingindo de oposicionistas ficaram de fora encenando a pantomima da independência.

Se por um lado o PMDB demonstrando sua irresistível atração pelo Poder, não se fez de rogado para atrelar-se de vez ao Governo, por outro lado Lula deixou patente sua ingenuidade e repetiu o mesmo erro cometido no mandato anterior. Refiro-me à estratégia usada na construção de sua base de apoio. Mais uma vez não levou em conta o seu patrimônio político, representado pelos milhões de votos com que foi reeleito. Com tamanho respaldo popular, teria autoridade e condições para estruturar seu Governo, sem recorrer à barganha do loteamento de ministérios em troca de aliados para garantir-lhe a governabilidade. Entretanto, demonstrando que os fatos anteriores não lhe serviram de lição, voltou a arrebanhar mercenários e mais uma vez ficará à mercê das volúveis lealdades remuneradas.

Foi mais além: contrariando o que recomendou na campanha – não trocar o certo pelo duvidoso, relegou a segundo plano seus aliados históricos. PC do B, PSB e o próprio PT agora são tratados como patinhos feios e jogados num canto de muro como sapatos velhos que não têm serventia. É visível o constrangimento que lhe causa a proximidade dos seus irmãos de partido. Como não pode renegar o parentesco, deixa claro que não lhe agrada a companhia incômoda. Simplesmente se obriga a suportá-la. Já os menosprezados, que se habituaram à ostentação do Poder, engolem em seco e fingem que se contentam com os lugares que lhes foram reservados. Quanto ao PMDB, está vibrando com o espaço que ora ocupa na Corte.

Também pudera. Não foi à toa que deu o golpe do baú para amarrar seu burro na sombra: o que era um censurável concubinato com o Governo virou um vantajoso casamento com comunhão de bens…

A desfrutável Legenda da Esperança só não casou de grinalda com flores de laranjeira: sua nada recomendável conduta política desses últimos anos não lhe permitia ostentar este símbolo da virgindade. Mesmo que o noivo não fosse lá muito exigente em se tratando de pureza. Agora, só nos resta esperar. Vamos ver em que vai dar esse casório consumado no leito de Procusta. Quem conhece a esperteza da noiva e a ingenuidade do noivo, já pode antever o seu desfecho:

entre tapas e beijos, os pombinhos ficarão juntos até que a sucessão os separe…

(*) Wilson Lemos é advogado, jornalista e poeta – E-mail [email protected]

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