PONTOS DE REFERÊNCIA
Rondonópolis: memória, espaços e reflexões

Muitos espaços de memória continuam sem a devida atenção, apesar da Prefeitura Municipal contar com Produto Interno Bruto expressivo

Conjunto que casas que deu origem ao complexo cultural Casario, na região do Cais; abaixo, a visão atual

Comemorar um aniversário é sempre motivo de alegria e de reflexões. Rondonópolis completa hoje 64 anos de emancipação política; mais de cem anos de fundação oficial e mais outros tantos anos de presença de povos indígenas nessas terras. Solo abençoado que atraiu migrantes das mais diferentes regiões do Brasil e até de outras partes do mundo. Rondonópolis que foi o “Povoado do Rio Vermelho”; Distrito de Santo Antônio do Leverger e de Poxoréo; “Rainha do algodão”; “Princesa do Leste”; “Capital do agrobusiness” hoje se destaca também na área da logística e da indústria.
No entanto, a pujança econômica da região nem sempre foi condizente com a qualidade de vida da maioria da população que ainda sofre com o descaso na área da saúde, da educação, da segurança e da cultura. Muitos espaços de memória continuam sem a devida atenção, apesar da Prefeitura Municipal contar com o Produto Interno Bruto em torno de quatro bilhões conforme dados do IBGE e se consolidar como a segunda maior economia do Estado” (Dados do Portal da Prefeitura Municipal de Rondonópolis).

Outro ponto de referência que poderia ser revitalizado como patrimônio cultural é a quadra de esportes da Escola EMOP; abaixo, a visão atual


Nesses sessenta e quatro anos como município, Rondonópolis avançou muito nos aspectos arquitetônicos, comerciais e paisagísticos e grande parte da população não conheceu a Rondonópolis de outrora. Tomando por empréstimo o ‘flâneur’ de Walter Benjamim, de modo especial descrito por Sérgio Paulo Rouanet (1992), vale a pena retomar a história de alguns espaços de memória que, apesar das dificuldades, se mantêm muito presentes na história dos rondonopolitanos.
Como não lembrar das “Casas do Sr. Moisés”, hoje “Casario”, onde tantas famílias conviveram, partilharam alegrias e dificuldades e deixaram suas marcas na história de Rondonópolis?
No espaço onde as pessoas se reuniam para lavar roupas, brincar, certamente discutir por questões cotidianas, hoje, revitalizado, as pessoas se encontram para as mais diversas atividades de lazer e entretenimento.
Ainda na região central da cidade, a Praça Brasil representa um ponto de encontro e lugar de memória. Poucas pessoas conhecem a luta travada nos anos 2002/2003, pela preservação do coreto, quando o próprio poder público insistia em demolir aquele espaço. Por anos a fio, o coreto se prestou a dar beleza à praça Brasil, a ser visto como símbolo, como parte da identidade de Rondonópolis. Monique Augras explica que o símbolo permite ver nas coisas algo que está ligado aos nossos sentimentos, à nossa luta, ao nosso viver. Por isso não cabe valorizar os símbolos na lógica do feio ou do bonito, mas pelo que representam na vida de um povo.

Nos anos 2002/2003, houve uma mobilização social pela preservação do coreto, quando o poder público insistia em demolir o espaço; abaixo, a visão atual


Aproveitando essa data tão significativa, a Secretaria de Cultura poderia presentear a cidade devolvendo a pintura original ao coreto, ou seja na cor prata e quem sabe, refazendo o círculo de canteiros que lhe conferia uma beleza ímpar…
Outro ponto de referência que poderia ser revitalizado como patrimônio cultural é a quadra de esportes da Escola EMOP. Por bastante tempo serviu como centro cultural onde eram realizados jogos, shows, festivais, apresentações culturais, além de jogos estudantis e campeonatos de futebol de salão. Hoje muitas pessoas passam pela avenida Cuiabá sem ao menos perceber a beleza desse espaço.
Enfim, falar de Rondonópolis nesse aniversário é trazer à memória a vida, o suor e as lágrimas de tantas mulheres e homens que fixaram moradia nessa região, movidos pelo sonho de uma vida próspera e que deixaram suas marcas em nossa história. Pessoas que certamente passaram pela Prefeitura de Rondonópolis para regularizar seus bens, pagar o IPTU e se firmar como cidadãos e cidadãs rondonopolitanos.
Estou em Rondonópolis há quarenta e quatro anos, amo essa cidade e creio que podemos colaborar, e muito, para que a nossa cidade seja cada dia mais acolhedora; uma cidade onde as pessoas possam ter prazer em morar; uma cidade capaz de harmonizar o moderno com os símbolos que representam a memória de seu povo… Afinal, como analisava Jacques Le Goff, “onde as mulheres e os homens passam e deixam marcas, aí está a sua história”. Parabéns Rondonópolis!!!

(*) Laci Maria Araújo Alves é professora doutora em História em Rondonópolis.

Imagens mostram a sede da Prefeitura de Rondonópolis nas décadas de 1950 e 1970; na sequência, a visão atual

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