Relato memorial de uma educadora da infância

Minha trajetória na educação começou muito cedo, aos 18 anos e desde então tenho experimentado, a cada dia, novas experiências. Sou de uma família formada por educadores, tanto do lado materno, como do paterno. E, desde criança, amava brincar de escolinha com os primos e, eu, sempre queria ser a professora é claro.
Comecei a trabalhar na Escola São José Operário, fazendo substituições. Até que um dia pude assumir uma sala todinha para mim. Sentia-me o máximo! Porém, não entendia nada de educação e, até hoje tenho vergonha da professora que fui.
Neste período eu só tinha o magistério e somente aos 24 anos, resolvi fazer uma faculdade, escolhi Letras, minha primeira graduação. Gostei do curso, me dediquei absolutamente a ele, assim como tudo que faço. Fui convidada a trabalhar em um projeto de pesquisa da UFMT, na área da Linguística, com a professora doutora Alice Saboia, quanta sabedoria! Como aprendi! Durante o curso fui aluna do CNPq e apresentei alguns projetos sobre a proposta de um novo dicionário, tive também dois artigos publicados em Anais.
Saindo da UFMT, fui para a sala de aula, trabalhar com Ensino Fundamental II. Nem conclui o ano de trabalho e fui convidada a viver uma nova experiência no município, com a Educação Infantil, onde fui professora e coordenadora da Unidade Natália Máximo, por um curto período, pois logo recebi nova proposta e deixei o município. Fui para o Khalil Zaher e também não fiquei muito tempo, pois a Secretaria de Educação me convidou para ser assessora de educação. Na Secretaria, fiquei por um ano e novamente recebi um novo convite, ser coordenadora do Centro Integrado de Ensino (CIE). Como estas mudanças me deixavam contrariada! Mas, ao mesmo tempo eu pensava, se eu não for, como vou saber se daria certo? E se eu não tentasse poderia perder uma nova oportunidade de crescimento. O ditado da minha avó ecoava nos meus ouvidos: “Pedra que muito rola, não cria limo”. Mas, mesmo assim eu aceitava as propostas. No CIE trabalhei por dez anos. Muito do que sou hoje, agradeço a esta oportunidade.
Neste tempo, fiz uma pós, voltada para as dificuldades de aprendizagem, a Psicopedagogia Clínica e Institucional, para ajudar minha sobrinha Anny, que acabara de nascer com microcefalia. Depois de alguns anos, fiz Psicanálise, no intuito de me compreender melhor. E foi aí que conheci Melanie Klein e sua influência com a psicanalise da infância. Foi aí que resolvi fazer o curso de Pedagogia.
Em 2013, frustrada com os rumos da educação, o descaso para com a categoria, decidi que deveria me aventurar em uma outra área. Fui trabalhar em uma empresa de móveis da família, não gostei. Em seguida um amigo me convidou para gerenciar o hotel e topei. E, como Deus não faz nada por acaso, foi aí que descobri, verdadeiramente, que nasci para ser educadora. Retornei para a educação três meses depois, para a Escola Cenecista 13 de Junho, onde fiquei por três anos como Orientadora Escolar…experiência incrível! Mais aprendizado para a vida.
E, no ano de 2016 realizei um sonho, ser efetiva na Rede Municipal de Ensino, agora como Educadora da Infância. E é aqui que quero me especializar. Neste percurso, algumas pessoas foram importantes para eu me tornar a profissional que sou. Com Paulo Freire descobri que “Ensinar exige a coorporeificação da palavra pelo exemplo.” Com Melanie Klein aprendi a ter um olhar atento para a infância e entender que o brincar se transforma em um componente essencial da análise de crianças.
Sônia Kramer me advertiu dizendo que “ouvir a criança não é deixar que ela tenha o controle da situação e que o imaginário é fantástico neste mundo lúdico, pois nas mãos da criança, uma cadeira virada ao contrário pode se transformar num navio, numa casa, num trem…e ainda que, nós adultos, precisamos aprender essa capacidade de virar o mundo pelo avesso.
Com Winnicott, compreendi o lúdico e passei a acreditar na importância de se trabalhar nesta perspectiva, pois “é no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self)” (Winnicott, 1971/1975: 79-80).
Com Paulo Sergio Emerique, reafirmo que brincar é essencial para o desenvolvimento da criança e que brincadeira tem hora, por que não agora?
Confabulando com eles, me surpreendi com o desejo de coordenar o CMEI João Lopes da Silva, pensando na contribuição que poderia dar para aquela unidade, em especial para as crianças e suas famílias e para todo o grupo. E também, na nova experiência e crescimentos que esta oportunidade me traria.
Quando menos esperava, recebo um novo convite, agora da Secretária de Educação, Carmem Garcia Monteiro…uma nova proposta, ser diretora da Unidade de Educação Infantil Cora Coralina. Parei, mais uma vez, e lembrei de minha avó. E agora? A própria Cora Coralina me encorajou dizendo: Paola, “O tempo muito vai lhe ensinar: ensinar a amar a vida, não desistir de lutar, renascer na derrota, renunciar às palavras e pensamentos negativos, acreditar nos valores humanos, e a ser otimista. Você aprenderá que, mais vale tentar do que recuar… Antes acreditar do que duvidar, que o que vale na vida, não é o ponto de partida e sim a nossa caminhada”. (Cora Coralina)

(*) Paola Silveira, Educadora da Infância, Diretora da Escola Municipal de Educação Infantil Cora Coralina

3 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns profissional e pessoa maravilhosa.Sou admiradora do seu trabalho.Tive a felicidade de acompanhar de perto a sua excelente atuação como gestora neste ano de 2017 na EMEI Cora Coralina.

  2. Paola, quanta experiência. Quanto sonho realizado. Sei que com muita luta, mas valeu a pena. Os vencedores nao chegam ao podium sem ter passado pela persistência, foco. Voce é uma vencedora.

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