Criança ou aluno na educação infantil?

Educação infantil é a primeira etapa da Educação Básica e consiste no atendimento de crianças de 0 a 3 anos de idade (creche) e de 4 a 5 anos (pré-escola). Este período é importantíssimo na vida humana, pois é nesta fase que se adquire habilidades fundamentais para o desenvolvimento integral que irão influenciar na vida adulta, assim se faz necessário entender sobre infância e sua especificidade.
Neste contexto, alguns teóricos e profissionais da educação apresentam incômodo quando a palavra “aluno” se refere a uma criança da educação infantil. Para uns, a interpretação desta palavra teria origem no latim, sendo o “a” correspondente a “ausente” e “luno”, que provém da palavra “lumni”, correlativo a “luz”.
Portanto, nessa visão denota o significado de ser sem luz, sem conhecimento. Já outros estudiosos do assunto garantem que tal significado não passa de mito, vindo estes a afirmar que a etimologia da palavra verdadeiramente significaria “criança de peito” ou “lactante” (do lat. alumnus, alumni, proveniente dealere, que significa “alimentar, sustentar, nutrir, fazer crescer”).
Dessa forma, ressoa a ideia enfadonha de que “aluno” condiz a lactente intelectual, remetendo-nos, portanto, à figura de alguém frágil e imaturo que necessita ser diretamente alimentado o que exige assistencialismo para ter condições de progredir cognitiva e emocionalmente.
Tal ideia confronta as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil – DCNEI/2010, pois atualmente falamos em criança ativa, crítica e competente, tomadas por imposições argumentativas, com um leque de capacidades, consequentemente, nenhum desses termos serviria para exprimir o significado de uma criança protagonista, atuante no meio, pois nos referem à passividade e ao aprendizado pronto.
Presentemente, nosso contexto contribui com a formação de pessoas crítico-reflexivas, o que estes significados não contemplam. Mediamos, pois, para uma autonomia ética, moral e intelectual e não para uma “lactação”. Como afirma Paulo Feire: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Não existe mais o paradigma da criança frágil, inocente, dependente e incapaz, hoje a concepção é da criança forte, poderosa e competente, construtora de conhecimento, identidade e cultura.
Por sua vez, a criança é reconhecida como um sujeito ativo, competente e co-protagonista e não como um receptor dos saberes. Inclusive, citando nosso norteador do processo pedagógico, DCNEI/2010, a criança: “Sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura”.
Por fim, “sem luz” ou “lactante”, merece indagação e esclarecimentos maiores e melhores acerca do assunto, cabendo também reflexão em nossa prática, tratamos nossos pequenos como ”ALUNOS” ou “CRIANÇAS”? Será que não é melhor desejarmos “CRIANÇAS” na Educação Infantil ao invés de “ALUNOS”?

(*) Nairlene Gama da Cunha Serafi é pedagoga, especialista em Catequese. Professora de Educação Infantil na Secretaria Municipal de Educação de Rondonópolis.

(**) Roseni da Rosa, pedagoga, especialista em Psicopedagogia Institucional e Clínica e Educação Infantil, Neurociência e Aprendizagem. Professora de Educação Infantil na Secretaria Municipal de Educação de Rondonópolis.

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