O DRAMA RECOMEÇA
Por falta de dinheiro, Santa Casa fecha a UTI Pediátrica

Com leitos da UTI Pediátrica fechados, população da região fica novamente desassistida

Leitos pediátricos estão vazios e não recebem mais pacientes desde ontem – Foto: Santa Casa de Rondonópolis

Outubro de 2014: Iasmim, de 2 anos e 5 meses, morre por falta de vaga em UTI pediátrica em Rondonópolis. Janeiro de 2016: o bebê Pedro Gabriel, com apenas 47 dias de vida, morre enquanto a família lutava para conseguir uma internação em leito de UTI pediátrica em Cáceres, devido a inexistência do serviço na região de Rondonópolis. São apenas alguns dos casos tristes e revoltantes noticiados ao longo dos anos pelo A TRIBUNA, que a população da cidade e da região vivenciou e sofreu junto com as famílias das crianças.
O drama de pais de toda região Sudeste do estado de Mato Grosso, em busca de vagas em leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para seus filhos, deve recomeçar. Conforme já havia informado e comunicado às autoridades competentes, a Santa Casa de Rondonópolis confirmou ontem (7) o fechamento dos leitos da UTI pediátrica, que atende crianças a partir do 29º dia de nascimento até os 11 anos.
Os leitos, que começaram a atender no dia 1º de setembro de 2016, após uma luta de vários anos da sociedade rondonopolitana, foram fechados devido a falta de intensivistas pediátricos para atender os pacientes. Apenas duas crianças seguem internadas no local, e a Santa Casa busca leitos em outros hospitais para que as mesmas sejam transferidas.
Sem receber recursos do governo de Mato Grosso desde julho, uma dívida que já ultrapassou a casa dos R$ 5,3 milhões, os salários do corpo clínico do hospital filantrópico não são pagos há quatro meses. Com isso, dos quatro médicos que atuavam na UTI pediátrica, apenas dois continuam trabalhando, o que impossibilita o atendimento.
Os profissionais intensivistas são mais difíceis de se encontrar no mercado, e a notícia de que os salários não estão sendo pagos em Rondonópolis já se espalhou entre a categoria. Com isso, o hospital não consegue contratar médicos para atender na UTI. “Infelizmente é uma notícia muito triste para nós o fechamento da UTI pediátrica. Os médicos que trabalham na UTI hoje são de fora e estão há quatro meses sem receber, não há como manter”, destacou Luciano Oliveira, diretor clínico da Santa Casa.
O problema não fica restrito aos salários, já que a falta de dinheiro também impossibilita a compra de materiais e medicamentos para o atendimento aos pacientes. “É com muita tristeza que nós damos essa notícia à sociedade. Já não temos mais opção, não temos mais plantonistas suficientes, já começou a faltar material para a assistência hospitalar… Estamos agora iniciando um caminho de desarticulação do nosso serviço”, lamenta o superintendente da Santa Casa, Éder de Souza.
A Santa Casa chega hoje ao 14º dia de paralisação do corpo clínico, que cobra o pagamento de salários atrasados. Neste período, diversas cirurgias foram desmarcadas e gestantes encaminhadas para unidades básicas de saúde do município.
O estado, inicialmente, negou a dívida, e depois reconheceu a falta de repasses quando cobrado por vereadores do mesmo partido do governador, o PSDB. A promessa de que os repasses seriam feitos até o dia 1º de novembro não se cumpriu, e agora a Secretaria de Estado de Saúde (SES) diz que aguarda que a Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz) envie recursos, para que os mesmos sejam repassados ao hospital.

Coordenadores e superintendente da Santa Casa durante coletiva de imprensa – Foto: Divulgação

HISTÓRIA
A 1ª UTI Pediátrica do Município foi inaugurada no dia 23 de agosto de 2016, com a presença do governador Pedro Taques e várias autoridades. Na ocasião, novos leitos de UTI neonatal também foram inaugurados. Ao todo, os novos leitos de UTI neonatal e pediátrica demandaram um investimento da ordem de R$ 3.712.693,89, com recursos do Governo Federal e bloqueios judiciais de contas do estado promovidos pelo Ministério Público Estadual.
O Governo do Estado assinou com o Município documento para custeio e manutenção de 8 leitos de UTI pediátrica, mais 7 leitos de UTI neonatal, 5 leitos neonatais de cuidado intermediário Canguru e 10 leitos de cuidado intermediário convencional. Eles se somaram aos 10 leitos neonatais já existentes e aos 16 leitos de retaguarda pediátrica, que também já existiam.
Na ocasião, o governador informou que, através da contratualização dos novos leitos abertos, transferiria mensalmente para o Município, fundo a fundo, que repassaria para a Santa Casa, a quantia de R$ 1.042.500,00.
A Santa Casa fez diversas contratações de profissionais, entre enfermeiros, técnicos de enfermagem, pessoal de limpeza, médicos, fonoaudiólogos e fisioterapeutas, para atender toda a nova estrutura infantil que passou a funcionar no 5º andar do hospital.
Com isso, toda a população da região Sudeste passou a contar com uma grande estrutura de atendimento infantil, mas pouco mais de um ano depois, o fechamento de leitos foi recebido com consternação pelos moradores.

3 comentários

  1. Senhor governador, que vergonha e falta de competência. Humanidade, então, não existe.

  2. O que ele quer é fazer propaganda com a caravana da cidadania ! Claro da para desviar dinheiro…

  3. Kemper Carlos pereira

    Gostaria de parabenizar quem escreveu pois retrata toda a história com cronologia e fatos reais com grande clareza e exatidão!
    Infelizmente, desde a sua inauguração tivemos problemas com a regularidade dos pagamentos o que foi gerando dificuldades para manutenção de profissionais tão raros no mercado de trabalho.
    Hoje, com a velocidade das redes sociais e facilidade de acesso às informações, perdemos a credibilidade para trazer novos profissionais. Por isso, se faz necessário, não somente acertar o passado como também uma política clara se regularidade nos compromissos.
    Mais uma vez parabéns pela reportagem e é extremamente importante a sociedade estar sempre atenta a seus direitos para que possamos prevenir desastres como o de agora

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