Uaus

Por todos os becos do País ouviríamos exclamação de espanto. UAU. Eis que desceu de sua espaçonave um homem feito para redimir o Brasil, conciliar sua gente que se esfola, perdoar os pecados dos ideólogos, lançar aos mármores infernais os políticos predadores e construir, finalmente, uma nação no cone sul, imensa, próspera, humana, igualitária.
Isso deveria ocorrer no início de 2018, segundo os pressentimentos. Mudanças profundas como o parlamentarismo só depois de 2020. Após mim, o dilúvio. Alguém tem dúvidas de que o parlamentarismo sadio, que poderia ter lançado para bem longe a crise que nos sufoca, foi posto aos olhos do povo como algo bárbaro, ruim, cruel, afinal não há um Presidente da República, mas somos um povo acostumado a grandes personalidades, embora elas possam ser contadas nos dedos.
Esqueceram-se dos anátemas aos gritos de Lula, Fernando Henrique, Brizola, Quércia, Dr. Ulysses, todos contra o parlamentarismo? Talvez não tenham identificado a razão: muitos deles, que comeram o pão que o diabo amassou no exílio, ou deliciosos brioches, tinham o direito de ser o homem que ascenderia ao ponto mais alto do promontório da política brasileira: a presidência da república.
Um homem só manda em todos, e todos, dizem que mandam, mas não mandam em nenhum: todo poder emana do povo e em seu nome será exercido, salvo uma chuvarada, uma tempestade de granizo que transforme esse teórico poder em peixes saboreados pelas lontras da classe política.
Ninguém quis se dar conta de que a maioria dos países civilizados é parlamentarista, os erros são corrigidos rapidamente, os gabinetes são dissolvidos se a empresa proposta foi para o beleléu, se necessário são convocadas imediatamente eleições gerais, redefinidos os rumos da nação, modificadas as instituições, refeitas as balizas pelas quais caminhamos e, consequentemente, não há crises tão impugnadas de escórias lodosas que já não se sabe quando deixaremos algo parecido com o velho Mississípi ou com o endiabrado Tietê, que corre para as serras e não para o mar, mas antes fica na UTI – imóvel e sujo – paulistana.
Nenhuma reforma política digna de cidadãos sérios será apresentada para 2017, de modo que permaneceremos nesse revolteio de dias em que sobe o dólar e em outros sobe a bolsa, de inflação controlada que não escapa do cenário do País que menos cresceu na América Latina. E que tem o fosso mais profundo entre pobres (99%) e ricos (1%), como se fosse possível viver numa nação nessas condições sem muita violência.
Ah, o Rio de Janeiro, tão belo, com seu pão de açúcar paradoxal, onde a morte ocorre de segundo a segundo, mas o morto tem uma última visão da cidade mais maravilhosa do mundo. E seu ex-governador, filho de um inteligente jornalista do jornal que nos confortava na ditadura militar – o Pasquim, com seu fradinho – e já se revelou – ah, a presunção de inocência, tão cara a nós, advogados, como um dos maiores, se não o mais gigante, corrupto da história brasileira.
Esperemos descer do céu, de sua carruagem mística, ainda que condenado criminalmente, o homem que nos salvará, talvez o cara, que apenas por sentar na cadeira presidencial iluminará o País, resgataremos a liberdade, a igualdade e a solidariedade, pouco importará a forma de Estado, o regime político, as instituições, porque só não saímos dessa miséria porque não queremos, tudo é um milagre, assim como derrotamos a Suécia e ganhamos a primeira copa do mundo: até que um dia levamos de 7 a 1. Viva o voluntarismo, as delações, as prisões, as emendas orçamentárias a troco de apoiar o Presidente, o que dá um pouco mais de dinheiro a alguns rincões – e aos bolsos de seus coronéis.

(*) Amadeu Roberto Garrido de Paula é advogado com uma ampla visão sobre política, economia, cenário sindical e assuntos internacionais

Deixe seu comentário

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *


Compartilhe esta Notícia