Aprendizagem dos alunos: algumas concepções

A partir da perspectiva histórico-cultural sabe-se que os processos cognitivos e afetivos estão intimamente ligados e estudá-los isoladamente pode nos dar uma explicação parcial do fenômeno. Vygotsky (1993) considera que a interação com outras pessoas é essencial para a compreensão dos processos evolutivos.
Para ele o funcionamento psicológico tem a sua base nas relações sociais entre o indivíduo e o mundo exterior, que se desenvolvem num processo histórico. Na ausência do outro o homem não se constrói. Nesse sentido, compreendemos que a interação com o outro permite a criação de vínculos afetivos e, consequentemente, a aprendizagem pode ocorrer de forma mais fácil e prazerosa.
Para Wallon (1986 apud LA TAILLE, 1992), a dimensão afetiva ocupa lugar central, tanto do ponto de vista da construção da pessoa quanto do conhecimento, ou seja, a emoção ocupa o papel mediador no processo de aprendizagem. As emoções significam para o autor, o primeiro recurso de interação com o outro. Essa interação é mediada pela linguagem.
Vygotsky diz que, quando se compreende deste modo a criatividade, não é difícil reconhecer a relevância do estímulo à capacidade criadora infantil no âmbito da educação escolar nem o seu papel e importância para o desenvolvimento cultural da criança. Segundo ele, os processos criadores infantis se refletem, sobretudo no faz-de-conta porque, nele, as crianças reelaboram a experiência vivida em seu meio social, edificando novas realidades de acordo com seus desejos, necessidades e motivações.
Vygotsky assinala que a faculdade de combinar o antigo com o novo é que lança as bases da atividade criadora tipicamente humana. E que isso só é possível a partir da aquisição de um novo funcionamento psíquico ou “superior”, que não é dado biologicamente, mas aprendido ao longo da enculturação do sujeito.
As funções mentais de natureza histórico-cultural ou “superiores” são, portanto consequência do uso da linguagem verbal, quer dizer, o aprendizado deste meio de comunicação através de palavras engendra necessariamente uma nova forma de funcionamento psíquico: o pensamento verbal. Isso equivale afirmar que sem o pensamento verbal não pode haver imaginação. É por isso que os animais não possuem este intrigante fenômeno do comportamento tipicamente humano. A imaginação é uma função mental exclusiva de um tipo de funcionamento psíquico novo, cultural ou “superior”.
Ele nos explica também que a imaginação ou fantasia nutre-se de materiais tomados da experiência vivida pela pessoa. A partir disso, Vygotsky postula a principal lei à qual se subordina a função imaginativa: Quanto mais rica for a experiência humana, tanto maior será o material colocado à disposição da imaginação.
Desta lei, portanto, extrai-se a importante conclusão pedagógica de ampliar a experiência cultural da criança, caso se pretenda fornecer-lhe uma base suficientemente sólida para que ela venha a desenvolver amplamente sua capacidade criadora.
Vygotsky ainda faz questão de explicar que a memória e a fantasia ou imaginação são funções psicológicas complexas e dialeticamente inter-relacionadas: “A fantasia não está contraposta à memória, mas se apóia nela e dispõe de seus dados em novas e novas combinações” (1982:18). Portanto, do mesmo modo que a imaginação apoia-se na experiência, a experiência pode ser construída exclusivamente a partir da mobilização do imaginário do sujeito.
No sentido de entender melhor como se dá a vivência de experiências a partir do imaginário ele chama nossa atenção para o enlace emocional que caracteriza os vínculos entre imaginação e realidade, referindo-se à sua lei da dupla expressão ou da realidade dos sentimentos.
Esta lei diz respeito à capacidade de retroalimentação de um sentimento ou estado emocional através da fantasia ou imaginação. Por exemplo: se alguém me desperta grande desejo sexual, imaginar o corpo deste alguém colado ao meu, acariciando-me, fará com que eu me sinta excitado (a). Assim, Vygotsky nos revela a dimensão afetiva de qualquer atividade criadora:
“Isto significa que tudo o que edifica a fantasia influi reciprocamente em nossos sentimentos, e ainda que essa construção em si não concorde com a realidade, todos os sentimentos que ela provoca são reais e efetivamente vividos pelo ser humano que os experimenta” (1982:23)
Paralelamente às tintas emocionais que entram na composição da pintura do quadro da atividade criadora humana – que não prescinde a mobilização do imaginário – Vygotsky lembra-nos que determinados produtos da imaginação dos seres humanos terminam por dar origem a algo completamente novo e não necessariamente presente na experiência prévia das pessoas. E mais: que esses artefatos de origem imaginária podem se converter em objetos tão reais que passarão a influir concretamente sobre outros objetos. É o caso, por exemplo, dos produtos da criação artística.
Vygostky vê possibilidades infindáveis no desenvolvimento da aprendizagem de pessoas com deficiência ao apontar a necessidade de se valorizar as potencialidades, os processos compensatórios desencadeados pela deficiência; enfatizando a capacidade em detrimento ao déficit.
Não há dúvidas que tais proposições beneficiam não somente as pessoas que apresentam algum tipo de deficiência, mas a todos, uma vez que inaugura um novo olhar sobre as deficiências que contribuiu para a transformação de concepções cristalizadas.
Sem dúvida, as ideias de Vygotsky continuam atuais e influenciando na modificação de olhares e práticas, o que permite visualizar novas intervenções em espaços escolares e principalmente em instituições especiais que carecem de novas referências.
Embora Vygotsky e Piaget considerassem o conhecimento como uma construção individual, para Vygotsky toda construção era mediada pelos fatores externos sociais. Isto é, o professor e o programa institucional devem modelar ou explicar o conhecimento.
Dessa forma, a criança constrói o seu próprio conhecimento interno a partir do que é oferecido. A sociedade atribui a isto, um processo de transmissão de cultura, e com isso o facilitador ou professor é o instrutor da criança. Assim, o trabalho do agente é, entre outras coisas, modelar cuidadosamente o conhecimento.
Piaget considerou a construção do conhecimento como um ato individual da criança. Os fatores sociais influenciam a desequilíbrio individual através do conflito cognitivo e apontam que há construção a ser feita. A verdadeira construção do conhecimento não é medida, no sentido Vygotskiano, pelo fator social e ambiente; ele não é copiado de um referencial e modelo. O conhecimento anterior é reconstruído diante do desequilíbrio socialmente provocada e estimulada.
O papel do professor é visto basicamente como o de encorajar, estimular e apoiar a exploração, a construção e invenção. “É óbvio que o professor enquanto organizador permanece indispensável no sentido de criar as situações e de arquitetar os projetos iniciais que introduzam os problemas significativos à criança. Em segundo lugar, ele é necessário para proporcionar contraexemplos que forcem a reflexão e a reconsideração das soluções rápidas. O que é desejado é que o professor deixe de ser um expositor satisfeito em transmitir soluções prontas; o seu papel deveria ser aquele de um mentor, estimulando a iniciativa e a pesquisa”. Piaget. (1973. p16).
Para Piaget, a inteligência consiste na capacidade individual de acomodação ao meio e, dessa forma, o processo cognitivo teria inicio nos reflexos fortuitos e difusos do recém-nascido, desenvolvendo-se por estágios, ate alcançar o nível adulto do raciocínio lógico. Ele acreditava que o conhecimento de como se da o desenvolvimento da criança em cada etapa de seu desenvolvimento facilitara o planejamento pedagógico. Acreditamos nisso.

(*) Aridinar Alves Ferreira e Sandra Maisa Pina Borges são professoras da Rede Municipal de Educação.

1 comentário

  1. Aires José Pereira

    Bela reflexão! Abraços literários a todos!
    Aires José Pereira é graduado e especialista em Geografia pela UFMT, mestre em Planejamento Urbano pela UnB e Doutor em Geografia Humana pela UFU, prof. Adjunto III da UFT – Campus de Araguaína, membro da Academia de Letras de Araguaína e Norte Tocantinense e possui 15 livros publicados!

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