O sótão das almas sujas

Voava em felicidade geral a política brasileira. A seu lado, as aves contratantes com o Estado, sobretudo na construção civil infraestrutural. Um país que outrora edificara várias rodovias, viadutos, cortou a serra do amar, era simplesmente feliz no voo em céu azul.
Repentinamente, um jato foi endereçado ao desfile de aves raras por Zeus e, dada a importância do que lhe fora dito, juntamente com todos os demais deuses que lhes rendiam obediência, até a rebelde Juno.  Em grego, Zeus consultou Virgílio e pronunciou a elocução “lava-jato”. Veio a borrasca feia, raios, trovões e estremecimentos em todos os pontos cardeais do planeta, a tempestade perfeita, aquela que não permite saídas.
O jeito foi todos homiziar-se no sótão de um velho casarão em frangalhos, no qual se lia um único enunciado que a identificava: instituto da politicagem brasileira. O sótão era nauseabundo, porquanto repleto de almas sujas, que jamais se banharam. Lá se empoleiraram as aves, que, com um centímetro quadrado para cada uma, começaram a grosnar desesperadamente e a bicar-se. Das maiores às pequenas.
Uma punha seus olhares à outra, como a perguntar de onde vinha o mal cheiro insuportável. Pelos olhos, todas emitiam sons que, no mundo das aves, significa ignorância dos fatos. O único objetivo era safar-se e começaram a desmoralizar os deuses. As respostas emitiram sons estremecedores. Zeus disse a uma delas que eles nada tinham a ver com aquilo, eram aves como elas que as trancaram no sótão insalubre. Ele conhecia todos os motivos, mas não podia explicitá-los, porque os conhecimentos divinos são inescrutáveis.
Bicando-se, as aves começaram a perder as penas e depois a ter enormes lesões nas peles. Terminaram sem grosnar e sem dar um pio, até que feneceram no sótão. As que resistiam conformavam-se em ficar reclusas, depressivas, porque não podiam mais voar ao ar livre, onde seriam esconjuradas. Sabiam de seus erros. Haviam comido o alpiste de todas as aves do mundo. Muitas morreram, como elas estavam a morrer.
Superada a metáfora, a lição de JUNG: a desonestidade recebe a pena judiciária, porém a mais gravosa é a psicológica. O sentido do crime povoa a inconsciente e o fratura por toda a vida, em eterna briga com a consciente, fonte inesgotável das neuroses, psicoses e de todos os terríveis dramas de nossa já esquálida psique. Todos, do centro e do entorno,  cavaram sete palmos.

(*) Amadeu Roberto Garrido de Paula é advogado com uma ampla visão sobre política, economia, cenário sindical e assuntos internacionais

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