O espantar-se a si mesmo

Ademar de Lima Carvalho - professor ufmt - 11-09-15O ato de admirar, espantar e perguntar é indissociável do imaginário da  tradição filosófica, que na atualidade, ainda se transforma em instrumento de mobilização, para adentrar no processo de reflexão, que possibilita ampliar a compreensão e desenvolvimento da consciência crítica sobre a realidade social.
O espanto é uma qualidade que provoca admiração. Neste diálogo está sendo compreendido para além do simples olhar  a realidade. Admirar significa ver a realidade por dentro e entendê-la profundamente em suas inter-relações e, sobretudo, “apreendê-la como campo de sua ação e reflexão”. A pergunta que se faz hoje, frente a percepção de depreciação do engajamento social, é para que serve a política, de modo particular a partidária. Essa é uma pergunta interessante como referência educativa a consciência que pode conduzir a formação do sujeito coletivo como agente transformador de sua própria realidade social, política e cultural.
O questionamento sobre a política tem sua razão de ser, devido a experiência e conhecimento do mundo real que estamos inseridos. Portanto, o ato de perguntar e questionar sobre o sentido da política no mundo vivido é a chave para  o começo da reflexão  sobre os valores que estão determinando a ação da sociedade política e sua relação dialética com a sociedade civil.
Diante da ordem instituída, o pressuposto da desigualdade social e da organização política algemada a lógica da arte do disfarce, corporificada ao movimento do levar vantagem em tudo sem o menor esforço, vaticinada ao preposto da ética indolor do negócio, precisa ser problematizada e compreendida. Penso que, frente ao mundo de contradição, de degradação e ceifamento da vida coletiva, somente a bondade e fidelidade a justiça social, pode-se problematizar perversidade política instituída, tendo em vista que esse princípio serve de instrumento basilar e substrato para mediação do processo de produção do aniquilamento dos injustos.
Porém, essa condição pode-se transformar em realidade num Estado democrático popular, estruturado numa cultura política, que prima pelo princípio da solidariedade, do  respeito ao outro e  a coletividade.  É na imbricação da suspeita, dúvida e pergunta que os movimentos sociais e a classe trabalhadora, podem encontrar o fundamento da atividade, que os instrumentalizam para o elemento ativo da liberdade. Isto, porque os impulsionam a refletir sobre o mundo do trabalho, por consequência leva-os  a compreensão da situação e da condição de vida que estão submetidos. O envolvimento no movimento popular desperta e  potencializa o sujeito a ampliar a interpretação do acontecido.
A reflexão da prática ajuda a elevar a compreensão dos elementos chaves. que faz e produz a unidade e a dialeticidade da luta para transformação da consciência política e social. Enquanto a massa popular ficar alijada da participação política e imersa ao estágio de alienação e a negação de si será sempre incapaz de emancipação humana e de assumir a direção política da sociedade. A “anestesia histórica é a geradora do desinteresse” que produz a “apatia e o imobilismo” no que se refere o “debate de  natureza da política” .
O ato de admirar,  espantar-se a si mesmo e o estranhamento da realidade é o ponto de partida para o diálogo reflexivo sobre a situação humana no movimento de condição de esperança  instituinte de  outro mundo possível povoado de humanos conscientes. Antes de uma interpretação simplista, importante destacar que, o mundo não é dado dogmaticamente. Cada um ler e interpreta a realidade a partir do referencial e contexto que está situado. Porém, pensando na questão da política, ressalta-se que somente encontra uma saída, um mundo novo a partir do velho, do que está instituído. Mas, a mudança de percepção, necessita que se perceba o todo.
Para produzir mudança, é preciso revisar as estruturas políticas e de seus processos que produz o marasma da participação popular. A realidade da sociedade política deverá transformar-se, com urgência, para ajudar o mundo a se transformar em melhor para todos. Portanto, não tenha medo de ir à luta. O momento da história exige que os movimentos populares e as pessoas que pautam suas vidas pela coerência ética e a conduta moral, lançai-vos às águas mais profundas da esperança libertadora.
Para não furtar a tradição cristã, alicerçado numa leitura libertadora, evoco que o Deus libertador, liberte esse povo incauto por tua justiça. Liberta-os das mãos do injusto, sobretudo da bela adora corrupção e furação latrina que submerge a geração do extrato do mundo da política. Pare a roda da história que está sendo conduzida pela proeza do fetiche da majestade que seduz a desonestidade. O desejo dizer pare essa onda que esta geração precisa descer, mas para onde iremos se até no mais profundo das entranhas do imaginado você encontrará a onda obtusa e diabólica  que induz o jeito de ser na política que delapida o bem coletivo.
Pode-se dizer que estamos presos à caverna do jeitinho misterioso na república do quiabo. A vida neste mundo assusta, porque você nunca sabe quem vai, quem foi e quem fica. Tampouco quem está dizendo a verdade. É a simbiose da loucura, no centro do furação que produz a degradação no mundo imaginário maravilhoso da “merdabulante” que temerifica a ilusão de ótica da ponte sem futuro problematizada pela paz da covardia na carne fresca. É o tempo de espantar-se a si mesmo, para superar a catarse da ilusão, que induz a você aceitar a    terceirização da participação política.
O dilema a ser encarado em nossa cultura política está na “absolutização da ignorância” que induz muita gente achar que este estágio de alienação encontra sempre no outro. Assim  como outrora, essa geração necessita, admirar e espantar-se com o “mundo da vida” para revisar algumas explicações dadas e começar a fazer perguntas para buscar novas respostas sobre a realidade, sobretudo no que refere ao mundo da organização e poder político.
O momento é agora de ir à luta da superação do legado perverso da herança de exclusão social do estado da colônia que na atualidade o movimento político tem engajado para manter o processo de recolonização da massa, principalmente os pobres. A admiração e o espanto são a mola propulsora que impulsiona  a perguntar-se mesmo e a realidade para mudança de percepção, tendo em vista que aguça a curiosidade da mente que produz a ruptura da certeza banal da vida empobrecida politicamente.

Ademar de Lima Carvalho é professor doutor da Universidade Federal de Mato Grosso

1 comentário

  1. Maria Luzenira Braz

    Gostei muito do texto escrito porque faz uma reflexão sobre a conjuntura política social brasileira. O leitor sente se provocado a assumir sua opção política defender a ética e a esperança. Neste sentido,instiga o leitor a ir pra rua defender sua vida que está sendo brutalmente cerceada por abuso de poder e desrespeito a Constituição Brasileiro na retirada dos direitos conquistados.

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