As lições do furacão Harvey

Fabio Angeoleto - 07-07-16 fotoA devastação provocada pelo furacão Harvey foi particularmente catastrófica na cidade de Houston. As inundações que atingiram a quarta cidade mais populosa dos Estados Unidos foram sem precedentes. Localizada em uma planície próxima ao Golfo do México, e com poucos obstáculos naturais contra massas de ar, poderíamos supor que a tragédia era inevitável. É claro que fatores ambientais e urbanos estão completamente amalgamados, de maneira que culpar o clima, neste e em outros desastres, seria pueril. Pueril, ou canalha: essa é a desculpa de muitos prefeitos brasileiros: “o problema é que choveu demais” [sic].
O economista Paul Krugman, em um artigo recente publicado no jornal The New York Times (“Why can´t we get cities right?”), aponta que o desenvolvimento imobiliário descontrolado e desregulamentado como o principal responsável pela catástrofe em Houston. Praticamente não há regulamentação do uso de terras urbanas nesta cidade texana: os incorporadores imobiliários constroem o que querem, onde bem entendem. Daí que Houston, segundo Krugman, abriga uma população equivalente a um terço daquela encontrada em Nova Iorque, mas possui uma extensão semelhante. Ademais, a área conjunta dos terrenos não pavimentados e que não abrigam construções – a área permeável da cidade – é menor do que a de Nova Iorque.
O mesmo Paul Krugman com frequência alude, em sua coluna, ao negacionismo climático de Donald Trump e seus asseclas. A extrema-direita norte-americana despreza o aquecimento global, relegando-o a um mero “boato”. Trump recentemente reafirmou politicamente sua incredulidade, ao nomear um negacionista para a direção da Nasa. Previsivelmente, ultradireita e extrema-esquerda, essas antípodas, se encontram. No Brasil, temos a triste lembrança do então ministro da Ciência (?!) Aldo Rebelo, um comunista que classificava as ciência das mudanças climáticas como uma “profissão de fé”.  Analfabetos científicos com poder.
Eu poderia argumentar que com o aquecimento global, extremos climáticos serão mais e mais comuns, e que precisamos trabalhar para criar cidades mais resilientes. Mas mesmo que o aquecimento global não passasse de um boato, o fato é que hoje, com a maioria dos seres humanos vivendo em cidades, construí-las mais seguras é uma necessidade óbvia. Para ficarmos no exemplo de Rondonópolis: o professor Jeater Santos, do Mestrado em Geografia da UFMT, coordenou pesquisas que mapearam vários pontos de inundações contumazes.
Rondonópolis, uma cidade de rápida urbanização, e com uma população crescente, precisa de novos bairros. A construção de novas áreas habitacionais é obviamente positiva para a economia da cidade. Mas que tipo de crescimento urbano nós queremos e permitiremos? Paisagens monótonas de cimento? Bairros onde as áreas verdes foram sepultadas para permitir a construção da enésima via rápida? Quais serão as nossas prioridades? Como balancear necessidades fundamentais, como o transporte, com o aumento dramático da frota de veículos e de seus impactos na cidade? Neste momento de revisão do Plano Diretor Municipal, essas são questões fulcrais, cujas respostas precisam ser dadas agora.

(*) Fabio Angeoletto é professor do Mestrado em Geografia da UFMT. Twitter: @JupiterFulgor

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